
       A peste

        Albert Camus



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          "II est aussi raisonnable de reprsetiter une espce d'emprisonnement par une autre que de reprsenter n'importe quette cbose qui existe rettement par
quelque chose qui n'existe ps."

          Daniel Defoe (Traduo para o francs de Albert Camus)

          (" to vlido representar um modo de aprisionamento por outro, quanto representar qualquer coisa que de fato existe por alguma coisa que no existe.")


          Os curiosos acontecimentos que so o objeto desta crnica ocorreram em 194...,   em Oran. Segundo a opinio geral, estavam deslocados, j que saam um
pouco do comum.  primeira vista, Oran , na verdade, uma cidade comum e no passa de uma prefeitura francesa na costa argelina.
          A prpria cidade, vamos admiti-lo,  feia. com seu aspecto tranqilo,  preciso algum tempo para se perceber o que a torna diferente de tantas outras cidades
comerciais em todas as latitudes. Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem rvores e sem jardins, onde no se encontra o rumor de asas, nem o sussurro
de folhas. Em resumo: um lugar neutro. Apenas no cu se l a mudana das estaes. A primavera s se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas de flores que os
pequenos vendedores trazem dos subrbios:  uma primavera que se vende nos mercados. Durante o vero, o sol incendeia as casas muito secas e cobre as paredes de
uma poeira cinzenta; ento, s  possvel viver  sombra das persianas fechadas. No outono, pelo contrrio,  um dilvio de lama. Os dias bonitos s chegam no inverno.
          Uma forma cmoda de travar conhecimento com uma cidade  procurar saber como se trabalha, como se ama e como se morre. Na nossa pequena cidade, talvez
por efeito do clima, tudo se faz ao mesmo tempo, com o mesmo ar frentico e distante. Quer dizer que as pessoas se entediam e se dedicam a criar hbitos. Nossos
concidados trabalham muito, mas apenas para enriquecer. Interessam-se principalmente pelo comrcio e ocupam-se, em primeiro lugar, conforme sua prpria expresso,
em fazer negcios. Naturalmente, apreciam prazeres simples, gostam das mulheres, de cinema e de banhos de mar. Muito sensatamente, porm, reservam os prazeres para
os domingos e os sbados  noite, procurando, nos outros dias da semana, ganhar muito dinheiro.  tarde, quando saem dos escritrios, renem-se a uma hora fixa nos
cafs, passeiam na mesma avenida ou instalam-se nas suas varandas. Os desejos dos mais velhos no vo alm das associaes de boulomanes1, os banquetes das amicales2
e os ambientes em que se aposta alto no jogo de cartas.
          Diro sem dvida que nada disso  caracterstico de nossa cidade e que, em suma, todos os nossos contemporneos so assim. Sem dvida, nada h de mais 
natural, hoje em dia, do que ver as pessoas trabalharem de manh  noite e optarem, em seguida, por perder nas cartas, no caf e em tagarelices o tempo que lhes 
resta para viver. Mas h cidades e pases em que as pessoas, de vez em quando, suspeitam que exista mais alguma coisa. Isso, em geral, no lhes modifica a vida. 
Simplesmente, houve a suspeita, o que j significa algo. Oran, pelo contrrio,  uma cidade aparentemente sem suspeitas, quer dizer, uma cidade inteiramente moderna. 
No  necessrio, portanto, definir a maneira como se ama entre ns. Os homens e as mulheres ou se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar ato de amor, 
ou se entregam a um longo hbito a dois. Isso tampouco  original. Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexo, somos obrigados a amar sem 
saber.
          O que  mais original na nossa cidade  a dificuldade que se pode ter para morrer. Dificuldade, alis, no  o termo exato: seria mais certo falar em desconforto. 
Nunca  agradvel ficar doente, mas h cidades e pases que nos amparam na doena e onde podemos, de certo modo, nos entregar. O doente precisa de carinho, gosta 
de se apoiar em alguma coisa.  bastante natural. Em Oran, porm, os excessos do clima, a importncia dos negcios que se tratam, a insignificncia do cenrio, a 
rapidez do crepsculo e a qualidade dos prazeres, tudo exige boa sade. L o doente fica muito s. O que dizer ento daquele que vai morrer, apanhado na armadilha 
por detrs das paredes crepitantes de calor, enquanto, no mesmo minuto, toda uma populao, ao telefone ou nos cafs, fala de letras de cmbio, de conhecimentos 
ou de descontos? Compreendero o que h de desconfortvel na morte, mesmo moderna, quando ela chega assim, num lugar seco.
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
       I
          
          Essas poucas indicaes do talvez uma ideia suficiente da nossa cidade. Alis,  necessrio no exagerar. O importante era ressaltar o aspecto banal da 
cidade e da vida. Mas os dias transcorrem sem dificuldades, desde que se tenham criado hbitos. A partir do momento em que nossa cidade favorece justamente os hbitos, 
pode-se dizer que tudo vai bem. Sob este aspecto, sem dvida, a vida no  muito emocionante. Pelo menos, desconhece-se a desordem. E a nossa populao franca, simptica 
e ativa sempre despertou no viajante uma estima considervel. Esta cidade sem pitoresco, sem vegetao e sem alma acaba parecendo repousante, e afinal adormece-se 
nela. Mas  justo acrescentar que est enxertada numa paisagem sem igual, no meio de um planalto nu, rodeada de colinas luminosas, diante de uma baa de desenho 
perfeito. Pode-se apenas lamentar que tenha sido construda de costas para essa baa e que, portanto, seja impossvel ver o mar.  sempre preciso ir procur-lo.
          Agora, podemos admitir sem dificuldade que nada podia fazer prever aos nossos cidados os incidentes que se produziram na primavera desse ano e que foram, 
como compreendemos depois, os primeiros sinais dos acontecimentos graves cuja crnica nos propusemos fazer aqui. Esses fatos parecero a alguns perfeitamente naturais 
e a outros, pelo contrrio, inverossmeis. Mas, afinal, um cronista no pode levar em conta essas contradies. Sua tarefa  apenas dizer: "Isso aconteceu", quando 
sabe que isso, na verdade, aconteceu; que isso interessou  vida de todo um povo, e que, portanto, h milhares de testemunhas que iro avaliar nos seus coraes 
a verdade do que ele conta.
          Alis, o narrador, que se revelar no momento oportuno, no disporia de meios para lanar-se num empreendimento desse gnero se o acaso no o tivesse posto 
em condies de recolher um certo nmero de depoimentos e se a fora das circunstncias no o tivesse envolvido em tudo o que pretende relatar.  isso que o autoriza 
a agir como historiador.  claro que um historiador, mesmo que no passe de um amador, tem sempre documentos. O narrador desta histria tem, portanto, os seus: em 
primeiro lugar, o seu testemunho; em seguida, o dos outros, j que, pelo seu papel, foi levado a recolher as confidncias de todas as personagens desta crnica; 
e, finalmente, os textos que acabaram caindo em suas mos. Pretende servir-se deles quando lhe parecer til e utiliz-los como lhe aprouver. Prope-se ainda. .. 
Mas  talvez tempo de abandonar os comentrios e as precaues de linguagem para passar ao assunto em si. O relato dos primeiros dias exige certa mincia.
          Na manh do dia 16 de abril, o Dr. Bernard Rieux saiu do consultrio e tropeou num rato morto, no meio do patamar. No momento, afastou o bicho sem prestar 
ateno e desceu a escada. Ao chegar  rua, porm, veio-lhe a ideia de que esse rato no estava no lugar devido e voltou para avisar o porteiro. Diante da reao 
do velho Michel sentiu melhor o que sua descoberta tinha de inslito. A presena desse rato morto parecera-lhe apenas estranha, enquanto para o porteiro constitua 
um escndalo. A posio deste ltimo era alis categrica: no havia ratos na casa. Por mais que o mdico lhe garantisse que havia um no patamar do primeiro andar, 
provavelmente morto, a convico de Michel permanecia firme. No havia ratos na casa, e era necessrio que tivessem trazido este de fora. Em resumo, tratava-se de 
uma brincadeira.
          Nessa mesma noite, Bernard Rieux, de p no corredor do prdio, procurava as chaves antes de subir para sua casa, quando viu surgir, do fundo obscuro do 
corredor, um rato enorme, de passo incerto e plo molhado. O animal parou, pareceu procurar o equilbrio, correu em direo ao mdico, parou de novo, deu uma cambalhota 
com um pequeno guincho e parou, por fim, lanando sangue pela boca entreaberta. O mdico contemplou-o por um momento e subiu.
          No era no rato que ele pensava. Aquele sangue fazia-o voltar  sua preocupao. Sua mulher, doente h um ano, devia partir no dia seguinte para uma temporada 
na montanha. Foi encontr-la deitada no quarto, como lhe pedira que fizesse. Assim, preparava-se para o cansao da viagem. Sorria.
          - Sinto-me muito bem - dizia.
          O mdico olhou o rosto voltado para ele,  luz da lmpada de cabeceira. Para Rieux, aos trinta anos e a despeito das marcas da doena, esse rosto era sempre 
o da mocidade devido talvez ao sorriso que dominava todo o resto.
          - Veja se consegue dormir - disse. - A enfermeira vem s onze horas, e eu vou lev-las at o trem do meio-dia.
          Beijou uma testa ligeiramente mida. O sorriso acompanhou-o at a porta.
          No dia seguinte, 17 de abril, s oito horas, o porteiro deteve o mdico e acusou gracej adores de mau gosto de haverem posto trs ratos mortos no meio 
do corredor. Deviam t-los apanhado com grandes ratoeiras, pois estavam cheios de sangue. O porteiro ficara algum tempo  porta, segurando os ratos pelas patas, 
esperando que os culpados se trassem por algum sarcasmo. Mas nada acontecera.
          - Ah - dizia Michel -, esses eu acabo apanhando. Intrigado, Rieux decidiu comear sua: visitas pelos bairros exteriores onde moravam os clientes mais pobres. 
A coleta do lixo era feita muito mais tarde no local, e o automvel, que corria ao longo das ruas retas e poeirentas do bairro, roava os caixotes de detritos deixados 
 beira da calada. Numa rua que percorria assim, o mdico contou uma dzia de ratos jogados sobre restos de legumes e trapos sujos.
          Encontrou o primeiro doente na cama, num quarto que dava para a rua e que servia ao mesmo tempo de quarto e de sala de jantar. Era um velho espanhol de 
rosto duro e vincado. Tinha  frente, sobre a coberta, duas marmitas cheias de ervilhas. No momento em que o mdico entrou, o doente, meio erguido no leito, inclinava-se 
para trs numa tentativa de recuperar seu flego penoso de velho asmtico. A mulher trouxe uma bacia.
          - Hem, doutor - disse ele durante a injeo -, eles esto saindo, j viu?
          -  verdade - confirmou a mulher; - o vizinho apanhou trs.
          O velho esfregava as mos.
          - Comeam a sair, vem-se em todas as latas de lixo.  a fome.
          Rieux no teve dificuldade em constatar, em seguida, que todo o bairro falava dos ratos. Acabadas as visitas, voltou para casa.
          - H um telegrama para o senhor l em cima informou Michel.
          O mdico perguntou-lhe se tinha visto novos ratos.
          - Ah, no - disse o porteiro. -  que estou tomando conta, compreende, e esses safados no se atrevem.
          O telegrama avisava Rieux da chegada de sua me no dia seguinte. Vinha ocupar-se da casa do filho durante a ausncia da doente. Quando o mdico entrou 
em casa, a enfermeira j estava l. Rieux viu a mulher de p, como de costume, j pintada.
          - Est bem - disse -, muito bem.
          Momentos depois, na estao, instalava-a no carro-leito. Ela percorreu com o olhar o compartimento.
          -  caro demais para ns, no  verdade?
          -  preciso - respondeu Rieux.
          - Que histria de ratos  essa?
          - No sei.  estranho, mas vai passar.
          Depois, disse-lhe muito rapidamente que lhe pedia perdo, que devia ter olhado por ela e que se descuidara muito. Ela sacudia a cabea, como para lhe dizer 
que se calasse. Mas Rieux acrescentou:
          - Tudo correr melhor quando voltar. Vamos recomear.
          - Sim - concordou ela, com os olhos brilhantes -, vamos recomear.
          Um instante depois, voltava-lhe as costas e olhava pela vidraa. Na plataforma, as pessoas apressavam-se aos empurres. O guincho da locomotiva chegava 
at eles. O mdico chamou a mulher pelo nome e quando ela se voltou, viu que o rosto estava coberto de lgrimas.
          - No - disse ele, carinhosamente.
          Sob as lgrimas, voltou o sorriso, um pouco crispado. Ela respirou profundamente.
          - V embora, tudo correr bem.
          Rieux abraou-a e, na plataforma, nada via agora a no ser o seu sorriso.
          - Cuide-se, por favor - pediu. Mas ela no podia ouvi-lo.
          Perto da sada, Rieux encontrou o Sr. Othon, o juiz de instruo, que trazia pela mo o filho pequeno. O mdico perguntou-lhe se ia viajar. Othon, alto 
e escuro, que parecia, em parte, o que se chamava outrora um homem de sociedade e, em parte, um coveiro, respondeu com uma voz amvel, mas breve:
          - Estou  espera da Sra. Othon, que foi apresentar seus respeitos  minha famlia.
          A locomotiva apitou.
          - Os ratos. . . - disse o juiz.
          Rieux teve um movimento na direo do trem, mas voltou-se para a sada.
          - Sim, no  nada.
          Tudo o que guardou desse momento foi a passagem de um empregado que levava debaixo do brao um caixote cheio de ratos mortos.
          Na tarde do mesmo dia, Rieux, no incio de suas consultas, atendeu um rapaz que lhe disseram ser jornalista e que j viera de manh. Chamava-se Raymond 
Rambert.
          Baixo de estatura, ombros largos, rosto decidido, olhos claros e inteligentes, Rambert vestia roupa esporte e parecia  vontade na vida. Foi direto ao 
assunto. Fazia uma pesquisa para um grande jornal de Paris sobre as condies de vida dos rabes e queria informaes sobre o seu estado sanitrio. Rieux informou-o 
de que esse estado no era bom, mas quis saber, antes de ir mais longe, se o jornalista podia dizer a verdade.
          - Certamente - disse o outro.
          - Quero dizei, pode fazer a condenao total?
          - Total, no, devo diz-lo. Mas creio que essa condenao no teria fundamento.
          Com delicadeza, Rieux disse que na verdade semelhante condenao no teria fundamento, mas que, ao fazer essa pergunta, procurava apenas saber se o testemunho 
de Rambert podia ou no ser feito sem reservas.
          - S admito os testemunhos sem reservas. No estou, pois, disposto a apoiar o seu com as minhas informaes.
          -  a linguagem de Saint-Just - disse o jornalista, sorrindo.
          Sem elevar a voz, Rieux disse que no sabia nada disso, mas que era a linguagem de um homem cansado do mundo em que vivia, mas que amava, contudo, seus 
semelhantes e estava decidido a recusar, de sua parte, a injustia das concesses. Rambert, com o pescoo enterrado nos ombros, olhava para o mdico.
          - Creio que o compreendo - disse por fim, levantando-se.
          O mdico acompanhou-o  porta.
          - Agradeo-lhe por aceitar as coisas assim. Rambert pareceu impaciente.
          - Sim, compreendo, perdoe-me o incmodo.
          O mdico apertou-lhe a mo e informou-o de que haveria uma curiosa reportagem a fazer sobre a quantidade de ratos mortos que se encontravam na cidade nesse 
momento.
          - Ah! - exclamou Rambert. - Isso me interessa. As cinco horas, ao sair para novas visitas, o mdico encontrou na escada um homem ainda novo, de silhueta 
pesada, de rosto macio e cansado, riscado por sobrancelhas espessas. Tinha-o encontrado algumas vezes em casa dos bailarinos espanhis que moravam no ltimo andar 
de seu prdio. Jean Tarrou fumava com empenho um cigarro e contemplava as ltimas convulses de um rato que morria num degrau, a seus ps. Levantou para o mdico 
um olhar calmo e um pouco fixo nos olhos cinzentos e acrescentou que aquela apario de ratos era uma coisa bastante curiosa.
          -  verdade - respondeu Rieux -, mas acaba por tornar-se irritante.
          - Num sentido, doutor, s num sentido. Nunca vimos nada de semelhante, eis tudo, mas eu acho isso interessante, sim, positivamente interessante. - Tarrou 
passou a mo pelos cabelos, para atir-los para trs, olhou de novo para o rato agora imvel e depois sorriu para Rieux. - Mas, afinal, doutor, isso  sobretudo 
com o porteiro.
          De fato, o mdico encontrou o porteiro em frente  casa, encostado  parede, perto da entrada, com uma expresso de cansao no rosto habitualmente congestionado.
          - Bem sei - disse o velho Michel a Rieux, que lhe comunicava a nova descoberta. - Encontram-se agora aos grupos de dois e trs. Mas  a mesma coisa nas 
outras casas.
          Parecia abatido e preocupado, esfregando o pescoo com um gesto maquinal. Rieux perguntou-lhe como ia de sade. O porteiro no podia dizer, na verdade, 
que no ia bem. Simplesmente, no se sentia em forma. Em sua opinio, era o moral que estava um pouco abatido. Aqueles ratos tinhamno perturbado, e tudo ficaria 
melhor quando eles desaparecessem.
          Mas no dia seguinte, 18 de abril, pela manh, o mdico, ao voltar com a me da estao, encontrou Michel com uma expresso ainda mais abatida: do poro 
ao sto, uma dezena de ratos jazia nas escadas. Os caixotes do lixo das casas vizinhas estavam cheios deles. A me do mdico tomou conhecimento da notcia sem se 
admirar.
          - So coisas que acontecem. - Era uma senhora de cabelos prateados, de olhos negros e meigos. - Estou satisfeita por voltar a ver-te, Bernard. Os ratos 
nada podem contra isso.
          Ele aprovava. Era verdade que, com ela, tudo lhe parecia sempre fcil.
          Entretanto, Rieux telefonou ao servio comunal de desratizao, cujo diretor conhecia. J ouvira falar desses ratos que vinham em bandos morrer ao ar livre? 
Mercier, o dretor, tinha ouvido falar nisso e, no seu prprio servio, instalado prximo ao cais, tinham sido encontrados uns cinquenta. Perguntava a si prprio 
se a coisa teria importncia. Rieux no podia decidir, mas pensava que se impunha uma interveno do servio de Mercier.
          - Sim - disse Mercier -, com uma ordem. Se acha que vale realmente a pena, posso tentar obter essa ordem.
          - Vale sempre a pena - respondeu Rieux.
          Sua empregada acabava de lhe comunicar que tinham apanhado vrias centenas de ratos mortos na fbrica onde o .marido trabalhava.
          Foi mais ou menos nessa poca que nossos concidados comearam a inquietar-se com o caso, pois, a partir do dia 18, as fbricas e os depsitos vomitaram 
centenas de cadveres de ratos. Em alguns casos, foi necessrio acabar de matar os bichos, pois sua agonia era demasiado longa. Mas desde os bairros exteriores at 
o centro da cidade, por toda parte onde o Dr. Rieux passava, por toda parte onde nossos concidados se reuniam, os ratos esperavam em montes, nas lixeiras ou junto 
s sarjetas, em longas filas. A imprensa da tarde ocupou-se do caso a partir desse dia e perguntou se a municipalidade se propunha ou no a agir e que medidas de 
urgncia tencionava adotar para proteger seus muncipes dessa repugnante invaso. A municipalidade nada se tinha proposto e nada previra, mas comeou por reunir-se 
em conselho para deliberar. Foi dada ordem ao servio de desratizao para recolher os ratos mortos todas as madrugadas. Em seguida, dois carros do servio de desratizao 
deveriam transportar os animais at o forno de incinerao de lixo a fim de serem queimados.
          Mas, nos dias que se seguiram, a situao agravou-se. O nmero de roedores apanhados ia crescendo, e a coleta era a cada manh mais abundante. A partir 
do quarto dia, os ratos comearam a sair para morrer em grupos. Dos pores, das adegas, dos esgotos, subiam em longas filas titubeantes, para virem vacilar  luz, 
girar sobre si mesmos e morrer perto dos seres humanos.  noite, nos corredores ou nas ruelas, ouviam-se distintamente seus guinchos de agonia. De manh, nos subrbios, 
encontravam-se estendidos nas sarjetas com uma pequena flor de sangue nos focinhos pontiagudos; uns, inchados e ptridos; outros, rgidos e com os bigodes ainda 
eriados. Na prpria cidade, eram encontrados em pequenos montes nos patamares ou nos ptios. Vinham, tambm, morrer isoladamente nos vestbulos das reparties, 
nos recreios das escolas, por vezes nos terraos dos cafs. Nossos concidados, estupefatos, encontravam-nos nos locais mais frequentados da cidade. A Place d'Armes, 
as avenidas, La Promenade de Front-de-Mer apareciam conspurcados. Limpa dos animais mortos ao amanhecer, a cidade voltava  a encontr-los pouco a pouco, cada vez 
mais numerosos durante o dia. Nas caladas tambm, ocorria a mais de um noctvago sentir sob os ps a massa elstica de um cadver ainda fresco, Dir-se-ia que a 
prpria terra onde estavam plantadas nossas casas se purgava dos seus humores, pois deixava subir  superfcie furnculos que, at ento, a minavam interiormente. 
Imaginem s o espanto da nossa pequena cidade, at ento to tranqila, transtornada em alguns dias, como um homem saudvel cujo sangue espesso se pusesse de repente 
em revoluo!
          As coisas foram to longe que a Agncia Ransdoc (informaes, documentao, todas as informaes sobre qualquer assunto) anunciou, na emisso radiofnica 
de informaes gratuitas, seis mil, duzentos e trinta e um ratos apanhados e queimados, s no dia 25. Este nmero, que dava um sentido claro ao espetculo cotidiano 
que a cidade tinha diante dos olhos, aumentou a agitao. At ento, as pessoas tinham apenas se queixado de um espetculo um pouco repugnante. Compreendia-se agora 
que esse fenmeno, de que no se podia ainda avaliar a amplitude nem determinar a origem, tinha qualquer coisa de ameaador. S o velho espanhol asmtico continuava 
a esfregar as mos e a repetir com uma alegria senil:
          - Eles esto saindo, esto saindo.
          Entretanto, a 28 de abril, a Ransdoc anunciava uma coleta de aproximadamente oito mil ratos, e a ansiedade atingiu o auge. Exigiam-se medidas radicais, 
acusavam-se as autoridades, e alguns que tinham casa  beira-mar j falavam em retirar-se para l. Mas no dia seguinte, a agncia anunciou que o fenmeno cessara 
bruscamente e que o servio de desratizao apanhara apenas uma quantidade insignificante de ratos mortos. A cidade respirou.
          Contudo, foi na mesma data, ao meio-dia, que o Dr. Rieux, ao parar o carro diante de casa, viu ao fundo da rua o porteiro, que caminhava com dificuldade, 
de cabea baixa, com os braos e as pernas afastados, numa atitude de fantoche. O velho apoiava-se no brao de um padre, que o doutor reconheceu. Era o Padre Paneloux, 
um jesuta erudito e militante que encontrara algumas vezes, e que era muito estimado na nossa cidade, mesmo por aqueles que so indiferentes em matria de religio. 
Esperou-os. O velho Michel tinha os olhos brilhantes e a respirao ruidosa. No se sentia muito bem e tinha sado para tomar ar, mas dores vivas no pescoo, nas 
axilas e nas virilhas tinham-no obrigado a voltar e a pedir auxlio ao Padre Paneloux.
          - So uns inchaos - disse. - Devo ter feito algum esforo.
          Com o brao fora da porta, o mdico apalpou o pescoo que ele lhe estendia. Tinha-se formado uma espcie de n.
          - Deite-se e tire a temperatura. Venho v-lo esta tarde.
          Quando o porteiro partiu, o mdico perguntou ao Padre Paneloux o que achava daquela histria de ratos.
          - Oh - respondeu o padre -, deve ser uma epidemia.
          E os olhos sorriram por detrs dos culos redondos.
          Depois do almoo, Rieux relia o telegrama da casa de sade que lhe anunciava a chegada de sua mulher quando o telefone tocou. Era um dos seus antigos clientes, 
empregado da Cmara, que o chamava. Sofrera durante muito tempo de um estreitamento da aorta e, como era pobre, Rieux tratara-o de graa.
          - Sim - dizia ele -, sei que se lembra de mim. Mas  de outra pessoa que se trata. Venha depressa. Aconteceu alguma coisa em casa do meu vizinho.
          Falava com voz cansada. Rieux pensou no porteiro e decidiu que o veria depois. Alguns minutos mais tarde, atravessava a porta de uma casa baixa da Rue 
Faidherbe, num bairro perifrico. No meio da escada, fria e malcheirosa, encontrou Joseph Grand, o empregado da Cmara que vinha ao seu encontro. Era um homem dos 
seus cinquenta anos, de bigode amarelo, alto e curvado, com os ombros estreitos e os membros magros.
          - Agora estou melhor - disse, ao chegar perto de Rieux -, mas julguei que ia morrer.
          Assoou o nariz. No segundo e ltimo andar, na porta da esquerda, Rieux leu, escrito com giz vermelho. "Entre. Eu me enforquei".
          Entraram. Uma corda estava pendurada por cima de uma cadeira cada, a mesa fora empurrada para um canto. Mas ela pendia no vazio.
          
          - Desatei-o a tempo - dizia Grand, que parecia sempre rebuscar as palavras, embora falasse a linguagem mais simples. - Ia justamente sair, quando ouvi 
rudo. Ao ver a inscrio, como explicar-lhe?, julguei que se tratava de uma brincadeira. Mas ele soltou um gemido engraado, at mesmo sinistro, se assim se pode 
dizer., 
          Coou a cabea.
          - Na minha opinio, a operao deve ser dolorosa. Naturalmente, entrei.
          Tinham empurrado uma porta e encontravam-se  entrada de um quarto claro, mas pobremente mobiliado. Um homenzinho gordo estava deitado no leito de cobre, 
Respirava fortemente e olhava-os com olhos congestionados. O mdico deteve-se. Nos intervalos da respirao, parecia-lhe ouvir guinchos de ratos. Mas nada se mexia 
pelos cantos. Rieux aproximou-se do leito. O homem no tinha cado de muito alto, nem muito bruscamente, e as vrtebras tinham resistido. Na verdade, um pouco de 
asfixia. Seria necessrio fazer uma radiografia. O mdico deu-lhe uma injeo de leo canforado e disse que tudo estaria bem dentro de alguns dias.
          - Obrigado, doutor - agradeceu o homem, com uma voz sufocada.
          Rieux perguntou a Grand se tinha avisado o comissrio, e o empregado ficou com um ar confuso.
          - No, no! Pensei que o mais urgente. . .
          - Sem dvida - interrompeu Rieux. - vou faz-lo agora.
          Nesse momento, porm, o doente agitou-se e ergueu-se no leito, protestando que estava melhor e que no valia a pena.
          - Acalme-se - disse Rieux. - No tem importncia, acredite, mas  necessrio que eu faa a minha declarao.
          - Oh! - exclamou o outro.
          E atirou-se para trs, chorando com soluos curtos. Grand, que h um momento cofiava o bigode, aproximou-se dele.
          - Vamos, Sr. Cottard, tente compreender. Pode-se dizer que o doutor  responsvel. Se, por exemplo, o senhor tivesse vontade de recomear. . .
          Mas Cottard, entre lgrimas, disse que no recomearia, que fora apenas um momento de loucura e que s desejava que o deixassem em paz. Rieux redigia uma 
receita.
          - Entendido. Deixemos isso. Voltarei dentro de dois ou trs dias. Mas no faa bobagens.
          No patamar, disse a Grand que era obrigado a fazer a declarao, mas que pediria ao comissrio que s procedesse ao inqurito da a dois dias.
          -  preciso vigi-lo esta noite. Ele tem famlia?
          - No a conheo. Mas posso vigi-lo eu mesmo. -
          Abanava a cabea. - Tampouco posso dizer que o conheo, note bem. Mas  preciso nos ajudarmos uns aos outros.
          Nos corredores da casa, Rieux olhou maquinalmente para os cantos e perguntou a Grand se os ratos tinham desaparecido totalmente do seu bairro. O funcionrio 
nada sabia. Tinham-lhe falado, na verdade, dessa histria, mas ele no prestava ateno aos boatos do bairro.
          - Tenho mais com que me preocupar - afirmou. Rieux j lhe apertava a mo. Tinha pressa de ver o porteiro antes de escrever  mulher.
          Os vendedores dos jornais da tarde anunciavam que a invaso dos ratos tinha parado. Mas Rieux encontrou o seu doente meio deitado para fora do leito, com 
uma das mos no ventre e a outra em volta do pescoo, vomitando, com grandes arrancos, uma blis rosada numa lata de lixo. Aps grandes esforos, sem flego, o porteiro 
voltou a deitar-se. A temperatura era de trinta e nove e meio, os gnglios do pescoo e os membros tinham inchado, duas manchas escuras alastravam-se pelo flanco. 
Queixava-se agora de uma dor interna.
          - Est ardendo - dizia ele -, esta porcaria est ardendo.
          A boca fuliginosa obrigava-o a mastigar as palavras e voltava para o mdico uns olhos protuberantes, dos quais a dor de cabea fazia correr lgrimas. A 
mulher olhava com ansiedade para Rieux, que continuava mudo.
          - Doutor - perguntou ela -, que  isto?
          - Pode ser uma srie de coisas. Mas no h ainda nada de certo. At esta noite, dieta e depurativo. Deve tomar bastante lquido.
          Precisamente, o porteiro sentia-se devorado pela sede. Ao voltar  casa, Rieux telefonou ao seu colega Rchard, um dos mdicos mais importantes da cidade.
          - No - dizia Richard -, no vi nada de extraordinrio.
          - Nem febre com inflamaes locais?
          - Ah! Sim, na verdade, dois casos de gnglios muito inflamados.
          - Anormalmente?
          - Sim - respondeu Richard -, o normal, voc sabe. . .
          A noite, de qualquer forma, o porteiro delirava e, com quarenta graus, queixava-se dos ratos. Rieux tentou um abscesso de fixao. Sob a queimadura da 
terebintina, o porteiro berrou: - Ah, so uns safados.
          Os gnglios tinham aumentado, estavam duros e fibrosos ao tato. A mulher do porteiro afligia-se:
          - Fique junto dele - ordenou o mdico - e, se for necessrio, pode me chamar.
          No dia seguinte, 30 de abril, uma brisa j morna soprava sob um cu azul e mido. Trazia um cheiro de flores que vinha dos bairros mais afastados. Nas 
ruas, os rudos da manh pareciam mais vivos, mais alegres do que habitualmente. Em toda a nossa pequena cidade, liberta da apreenso em que tinha vivido durante 
a semana, esse era o dia da renovao. O prprio Rieux, tranqilizado por uma carta da mulher, desceu at a casa do porteiro. E na verdade, de manh, a febre cara 
para trinta e oito graus. Enfraquecido, o doente sorria no leito.
          - Est melhor, no  verdade, doutor? - perguntou a mulher.
          - Vamos esperar um pouco.
          Ao meio-dia, porm, a febre subira bruscamente a quarenta graus, o paciente delirava sem cessar e os vmitos tinham recomeado. Os gnglios do pescoo 
eram dolorosos ao tato, e o doente parecia querer manter a cabea o mais afastada possvel do corpo. A mulher estava sentada aos ps da cama, segurando levemente 
os ps do doente. Olhava para Rieux.
          - Oua - disse ele -,  preciso isol-lo e tentar um tratamento mais radical. vou telefonar para o hospital e vamos lev-lo de ambulncia.
          Duas horas depois, na ambulncia, o mdico e a mulher curvavam-se sobre o doente. Da boca, coberta de fungosidades, saam fragmentos de palavras: "Os ratos", 
dizia ele. Esverdeado, com lbios descorados, plpebras pesadas, respirao entrecortada e breve, dilacerado pelos gnglios, abatido no fundo da maca, como se quisesse 
fech-la em torno dele ou como se qualquer coisa, vinda do fundo da terra, o chamasse sem descanso, o porteiro sufocava sob um peso invisvel. A mulher chorava.
          - No h mais esperana, doutor?
          - Est morto - disse Rieux.
          A morte do porteiro, pode-se dizer, marcou o fim desse perodo, cheio de sinais desconcertantes, e o incio de outro, relativamente mais difcil, em que 
a surpresa dos primeiros tempos se transformou, pouco a pouco, em pnico. Nossos concidados - a partir de agora eles se davam conta disso nunca tinham pensado que 
nossa pequena cidade pudesse ser um lugar particularmente designado para que os ratos morressem ao sol e os porteiros perecessem de doenas estranhas. Sob esse ponto 
de vista, era evidente que estavam errados e que suas ideias precisavam ser revistas. Se tudo tivesse ficado por a, os hbitos, sem dvida, teriam vencido. Mas 
outros concidados nossos, que nem sempre eram porteiros nem pobres, tiveram de seguir o caminho que Michel fora o primeiro a tomar. Foi a partir desse momento que 
comeou o medo e com ele a reflexo.
          Entretanto, antes de entrar nos detalhes desses novos acontecimentos, o narrador acha til dar, sobre o perodo que acaba de ser descrito, a opinio de 
outra testemunha. Jean Tarrou, que j encontramos no incio deste relato, fixara-se em Oran h algumas semanas e morava, desde ento, em um grande hotel no centro. 
Parecia ser suficientemente prspero para viver dos seus rendimentos. Mas, embora a cidade se tivesse habituado a ele, pouco a pouco, ningum sabia dizer de onde 
vinha, nem por que estava l. Era encontrado em todos os lugares pblicos. A partir do incio da primavera, fora visto muitas vezes nas praias, nadando frequentemente 
e com um prazer manifesto. Bonacho, sempre sorridente, parecia ser amigo de todos os prazeres normais, sem ser escravo deles. Na realidade, o nico hbito seu que 
conheciam era a convivncia assdua com os bailarinos e msicos espanhis, bastante numerosos na nossa cidade.
          Seus apontamentos de certa forma constituem tambm uma espcie de crnica desse perodo difcil. Mas trata-se de uma crnica muito especial que parece 
obedecer a uma ideia preconcebida de insignificncia.  primeira vista, poderamos achar que Tarrou se empenhara em ver as coisas e os seres por um binculo ao contrrio. 
Na confuso geral, ele se empenhara, em suma, em ser o historiador do que no tem histria. Pode-se sem dvida deplorar esse preconceito e suspeitar uma certa dureza 
de corao. Nem por isso  menos verdade que os seus cadernos podem fornecer, para uma crnica desse perodo, grande quantidade de pormenores secundrios que tm 
contudo importncia; a sua prpria singularidade impedir que se julgue precipitadamente essa interessante personagem.
          As primeiras notas de Tarrou datam de sua chegada a Oran. Mostram desde o princpio uma curiosa satisfao por se encontrar numa cidade em si to feia. 
Encontra-se uma descrio pormenorizada dos dois lees de bronze que ornam a municipalidade, consideraes benvolas sobre a ausncia de rvores, as casas sem graa 
e o plano absurdo da cidade. Tarrou mistura, ainda, dilogos ouvidos nos bondes e nas ruas, sem acrescentar comentrios, exceto um pouco mais tarde, em relao s 
conversas a respeito de um tal Camps. Tarrou assistira  conversa de dois condutores de bonde:
          - Voc conheceu o Camps - dizia um.
          - Camps? Um alto, de bigode preto?
          - Exatamente. Trabalhava no controle.
          - Sim, isso mesmo.
          
          - Pois bem, morreu.
          - Ah! E quando foi isso?
          - Depois da histria dos ratos.
          - Veja s! E que foi que ele teve?
          - No sei. Febre. Alm disso, no era forte. Teve abscessos debaixo dos braos. No resistiu.
          - No entanto, parecia um homem como os outros.
          - No, tinha o peito fraco e tocava no orfeo. Soprar num pistom acaba com a pessoa.
          - Ah! - terminou o segundo. - Quando se  doente, no se deve tocar um instrumento de sopro.
          Depois dessas poucas indicaes, Tarrou perguntava a si prprio por que razo Camps tinha entrado para o orfeo contra seu prprio interesse e quais eram 
as razes profundas que o tinham levado a arriscar a vida pelos desfiles dominicais.
          Tarrou parecia, em seguida, ter sido favoravelmente impressionado por uma cena que se desenrolava muitas vezes na varanda que ficava em frente  sua janela. 
Na verdade, seu quarto dava para uma rua transversal, onde os gatos dormiam  sombra dos muros. Mas, todos os dias, depois do almoo, nas horas em que a cidade inteira 
cochilava no calor, um velhinho aparecia numa varanda do outro lado da rua. com os cabelos brancos e bem penteados, ereto e austero nas suas roupas de corte militar, 
chamava os gatos com um "bichano. . . bichano" ao mesmo tempo meigo e distante. Os gatos levantavam os olhos plidos de sono, sem se perturbarem. O outro rasgava 
pedacinhos de papel e os jogava para a rua; os bichos, atrados por essa chuva de borboletas brancas, avanavam para o meio da calada, estendendo uma pata hesitante 
para os ltimos pedaos de papel. O velhinho escarrava, ento, sobre os gatos, com fora e preciso. Se um dos escarros atingia o alvo, ele ria.
          Por fim, Tarrou parecia ter sido definitivamente seduzido pelo carter comercial da cidade, cuja aparncia, animao e at prazeres pareciam comandados 
pelas necessidades do negcio. Essa singularidade ( o termo empregado nos cadernos) recebia a aprovao de Tarrou e uma de suas observaes elogiosas chegava a 
terminar por esta exclamao: "Finalmente!" So os nicos pontos em que as notas do viajante, nessa data, parecem assumir um carter pessoal.  difcil avaliar o 
seu significado e seriedade. Assim  que depois de ter relatado que a descoberta de um rato morto levara o caixa do hotel a cometer um erro na sua conta, Tarrou 
acrescentara, com uma letra menos ntida que de costume: "Pergunta: Como fazer para no se perder tempo? Resposta: Senti-lo em toda a sua extenso. Meios: Passar 
os dias na sala de espera de um dentista, numa cadeira desconfortvel; viver as tardes de domingo na varanda, ouvir conferncias numa lngua que no se compreende; 
escolher os itinerrios de trem mais longos e menos cmodos e viajar de p, naturalmente; fazer fila nas bilheterias dos espetculos e no ocupar o seu lugar, etc." 
Mas de repente, aps essas digresses de linguagem e de pensamento, os cadernos comeam uma descrio detalhada dos bondes da nossa cidade, da sua forma de bote, 
da sua cor indecisa, da sua sujeira habitual, terminando essas consideraes por um "   notvel!" que nada explica.
          Eis em todo caso as explicaes dadas por Tarrou sobre a histria dos ratos:
          "Hoje, o velhinho que mora em frente est perturbado. J no h gatos. Desapareceram na verdade excitados pela grande quantidade de ratos mortos que se 
descobrem nas ruas. Na minha opinio  impossvel que os gatos comam ratos mortos. Lembro-me de que os meus detestam isso. O que no impede que eles corram pelos 
pores e que o velhinho esteja perturbado. Est menos bem penteado, menos vigoroso. Percebe-se que ele est inquieto. Demorou-se um momento apenas e entrou. S que, 
dessa vez, escarrara no vazio.
          Na cidade, pararam um bonde hoje porque se descobriu um rato morto que, no se sabe como, chegara l. Duas ou trs mulheres desceram. Jogou-se fora o rato. 
O bonde voltou a funcionar.
          No hotel, o vigia da noite, que  homem digno de confiana, disse-me que com todos esses ratos esperava uma desgraa. 'Quando os ratos abandonam o navio. 
. .' Disselhe que era verdade no caso dos navios, mas que nunca se tinha verificado isso com as cidades. No entarto, sua convico persistia. Perguntei-lhe que desgraa, 
em sua opinio, se podia esperar. No sabia.  impossvel prever a desgraa. Mas no se admiraria se fosse um tremor de terra. Reconheci que era possvel, e ele 
perguntou se isso no me inquietava.
          'A nica coisa que me interessa', respondi-lhe, ' encontrar a paz interior.'
          Ele me compreendeu perfeitamente.
          No restaurante do hotel h uma famlia bastante interessante. O pai  um homem alto e magro, vestido de preto, de colarinho engomado. Tem o meio do crnio 
calvo e dois tufos de cabelos grisalhos  direita e  esquerda. Uns olhinhos redondos e duros, nariz fino, boca horizontal do-lhe um ar de uma coruja bem-educada. 
 sempre o primeiro a chegar  porta do restaurante. Afasta-se, deixa passar a mulher, pequenina como um rato preto, e ento entra, trazendo atrs um rapaz e uma 
mocinha vestidos como cachorros comportados. Ao chegar  mesa, espera a mulher sentar-se, senta-se, e os dois cachorrinhos podem finalmente 1 empoleirar-se nas cadeiras. 
Trata a mulher e os filhos cerimoniosamente, dirige gracejos bem-educados  primeira e palavras terminantes aos herdeiros:
          'Nicole, est soberanamente antiptica!'
          'A menina est prestes a chorar.  o que  preciso.'
          Essa manh, o rapaz estava todo agitado com a histria dos ratos. Quis dizer qualquer coisa  mesa.
          'No se fala de ratos  mesa, Philippe. Probo-o, daqui em diante, de pronunciar essa palavra.'
          'Seu pai tem razo', disse a rata preta.
          Os dois cezinhos meteram os narizes nos pratos, e a coruja agradeceu com um sinal de cabea, que no queria dizer muita coisa.
          Apesar desse belo exemplo, na cidade fala-se muito dessa histria de ratos. O jornal ocupou-se do caso. A crnica local, que  habitualmente muito variada, 
 agora totalmente ocupada por uma campanha contra a municipalidade: 'compreenderam os nossos edis o perigo que podiam representar os cadveres podres desses roedores?' 
O diretor do hotel no consegue falar de outra coisa. Mas  tambm porque se sente envergonhado. Descobrir ratos no elevador de um hotel respeitvel parece-lhe inconcebvel. 
Para consol-lo disse-lhe: 'Mas acontece o mesmo a todos!'
          'Justamente', respondeu-me, 'somos agora como todos os outros.'
          Foi ele que me falou dos primeiros casos dessa febre que comeou a se tornar inquietante. Uma das camareiras do hotel foi atacada.
          'Mas, evidentemente, no  contagioso', apressou-se a declarar.
          Respondi-lhe que isso me era indiferente.
          'Ah, compreendo, o senhor  como eu, o senhor  fatalista.'
          Eu no tinha dito nada de semelhante e, alis, no sou fatalista. E eu lhe disse isso. . ."
           a partir desse momento que os cadernos de Tarrou comeam a falar com alguns pormenores dessa febre desconhecida com que o pblico j se inquietava. Ao 
notar que o velhinho voltara a encontrar os gatos com o desaparecimento dos ratos e que retificava pacientemente os seus tiros, Tarrou acrescentava que j se podia 
citar uma dezena de casos dessa febre, a maior parte dos quais tinha sido mortal.
          A ttulo documental pode-se enfim reproduzir o retrato do Dr. Rieux feito por Tarrou. At onde o narrador pode julgar, ele  bastante fiel:
          "Aparenta trinta e cinco anos. Estatura mediana. Ombros fortes. Rosto quase retangular. Olhos escuros e diretos, mas maxilares proeminentes. O nariz forte 
 regular. Cabelos pretos, cortados muito curto. A boca  arqueada com os lbios cheios e sempre fechados. Tem um pouco o ar de um campons siciliano com a pele 
queimada, o cabelo preto e as roupas sempre de cor escura, mas que lhe ficam bem.
          Anda depressa. Desce as caladas sem mudar de passo, mas duas vezes em cada trs sobe a calada em frente com um pequeno salto. Distrai-se ao volante do 
automvel e deixa muitas vezes as setas ligadas, mesmo depois de ter feito a curva. Sempre de cabea descoberta, parece pessoa bem informada."
          Os nmeros de Tarrou eram exatos. O Dr. Rieux sabia alguma coisa a respeito. Isolado o corpo do porteiro, telefonara a Richard para interrog-lo sobre 
essas febres inguinais.
          - No compreendo nada - respondera Richard. Dois mortos, um no prazo de quarenta e oito horas, o outro, no de trs dias. Eu tinha deixado o ltimo, uma 
manh, com todos os indcios de convalescena.
          - Avise-me se tiver outros casos - disse Rieux. Telefonou ainda para outros mdicos. Essa sindicncia mostrou uns vinte casos semelhantes em alguns dias. 
Quase todos tinham sido fatais. Pediu ento a Richard, secretrio do Sindicato dos Mdicos de Oran, o isolamento dos novos doentes.
          - Mas no posso fazer nada - respondeu Richard.
          - Essas providncias so com a prefeitura. Alm disso, quem lhe diz que h risco de contgio?
          - Ningum, mas os sintomas so inquietantes. Richard, entretanto, achava que no tinha "competncia". Tudo o que podia fazer era falar com o prefeito.
          Porm, enquanto se falava, perdia-se tempo. No dia seguinte  morte do porteiro, grandes brumas cobriam o cu. Chuvas diluvianas e curtas abateram-se sobre 
a cidade, seguindo-se a esses bruscos aguaceiros um calor de tempestade. O prprio mar perdera o azul profundo e, sob o cu brumoso, tinha reflexos de prata ou de 
ferro, dolorosos  vista. O calor mido dessa primavera nos fazia desejar os ardores do vero. Na cidade, construda em caracol sobre um planalto, quase fechada 
para o mar, reinava um morno torpor. No meio dos seus longos muros caiados, entre as ruas de vitrines poeirentas, nos bondes de um amarelo sujo, as pessoas sentiam-se 
um pouco prisioneiras do cu. S o velho doente de Rieux dominava a asma para se regozijar com esse tempo.
          - Est pegando fogo - dizia ele. -  bom para os brnquios.
          Queimava, na verdade, mas nem mais nem menos do que uma febre. Toda a cidade estava com febre. Era essa pelo menos a impresso que perseguia o Dr. Rieux, 
na manh em que se dirigia  Rue Faidherbe a fim de assistir ao inqurito sobre a tentativa de suicdio de Cottard. Mas essa impresso parecia-lhe insensata. Atribua-a 
ao enervamento e s preocupaes que o assaltavam, e admitiu que era urgente colocar um pouco de ordem nas ideias.
          Quando chegou, o comissrio ainda no estava. Grand esperava no patamar, e decidiram entrar primeiro na sua casa deixando a porta aberta. O funcionrio 
municipal ocupava duas peas sumariamente mobiliadas. Notava-se apenas uma estante de madeira branca guarnecida com dois ou trs dicionrios e um quadro-negro, onde 
se podiam ainda ler meio apagadas, as palavras "alias floridas". Segundo Grand, Cottard tinha passado bem a noite. Mas de manh tinha acordado com dor de cabea 
e incapaz de qualquer reao. Grand parecia cansado e nervoso, passeando de um lado para outro, abrindo e fechando sobre a mesa uma grande pasta, cheia de folhas 
manuscritas.
          Contou ao mdico que conhecia mal Cottard, mas que julgava que tivesse alguns bens. Cottard era um homem estranho. Durante muito tempo suas relaes tinham-se 
limitado a alguns cumprimentos nas escadas.
          - S tive duas conversas com ele. H alguns dias, derrubei no patamar uma caixa de giz que trazia para casa. Havia giz vermelho e giz azul. Nesse momento, 
Cottard apareceu no patamar e ajudou-me a apanh-los. Perguntoume para que servia esse giz de diferentes cores.
          Grand explicara ento que tentava recordar um pouco o seu latim. Desde o ginsio, seus conhecimentos tinham esmaecido.
          - Garantiram-me - explicou ao mdico - que  til para conhecer melhor o sentido das palavras francesas.
          Escrevia portanto palavras latinas no seu quadro. Copiava com giz azul a parte varivel das palavras, segundo as declinaes e as conjugaes e, com giz 
vermelho, a invarivel.
          - No sei se Cottard compreendeu bem, mas pareceu-me interessado e pediu-me um pedao de giz vermelho. Fiquei um pouco surpreso, mas afinal. . . No podia 
adivinhar, evidentemente, que isso iria servir ao seu propsito.
          Rieux perguntou qual fora o assunto da segunda conversa. ^Mas, acompanhado do seu secretrio, chegou o comissrio, que quis ouvir, em primeiro lugar, as 
declaraes de Grand. O mdico observou que Grand, ao falar de Cottard, referia-se sempre a ele como o "desesperado". Empregou at, em certo momento, a expresso 
"resoluo fav' .*scutiram sobre a causa do suicdio, e Grand mostrou-se hesitante na escolha dos termos. Deteve-se por fim nas palavras "desgostos ntimos". O comissrio 
perguntou se algo na atitude de Cottard deixava prever o que ele chamava "a sua determinao".
          - Bateu ontem  minha porta - respondeu Grand - para me pedir fsforos. Dei-lhe a caixa. Pediu desculpas, dizendo que entre vizinhos... Depois, afirmou 
que me devolveria a caixa. Disse-lhe que ficasse com ela.
          O comissrio perguntou ao funcionrio municipal se Cottard no lhe parecera estranho.
          - O que me pareceu estranho foi ele mostrar vontade de conversar. Mas eu estava trabalhando.
          Grand voltou-se para Rieux e acrescentou, com ar constrangido:
          - Um trabalho pessoal.
          Entretanto, o comissrio queria ver o doente. Mas Rieux achava que primeiro era melhor preparar Cottard para essa visita. Quando entrou no quarto, ele 
estava erguido no leito, apenas com uma roupa de flanela acinzentada, e voltado para a porta com uma expresso de ansiedade.
          -  a polcia, hem?
          -  - disse Rieux. - No se preocupe. Duas ou trs formalidades e deix-lo-o em paz.
          Mas Cottard respondeu que isso no servia para nada e que no gostava da polcia. Rieux ficou impaciente.
          - Eu tambm no morro de amores por ela. Trata-se de responder depressa t corretamente s perguntas para acabar com isso de uma vez por todas.
          Cottard calou-se, e o mdico voltou  porta. Mas o sujeitinho chamou-o e agarrou-lhe as mos quando chegou perto da cama.
          - No se pode tocar num doente, num homem que se enforcou, no  verdade, doutor?
          Rieux olhou-o por um momento e, finalmente, garantiu que nunca se cogitara de nada desse gnero e que enfim ele estava ali para proteger o seu doente. 
Este pareceu acalmar-se, e Rieux mandou entrar o comissrio.
          Leram para Cottard o depoimento de Grand e perguntaram-lhe se podia precisar os motivos de seu ato. Ele respondeu apenas, e sem olhar para o comissrio, 
que "desgostos ntimos" estava muito bem. O comissrio forou-o a dizer se tinha vontade de reincidir. Cottard, animando-se, respondeu que no e que s desejava 
que o deixassem em paz.
          - Convm observar - disse o comissrio, num tom irritado - que no momento  o senhor que perturba a paz dos outros.
          Mas, a um sinal de Rieux, calou-se.
          - O senhor compreende - suspirou o comissrio, ao sair -, temos outros problemas com que nos ocupar desde que se fala dessa febre. . .
          Perguntou ao mdico se a coisa era sria, e Rieux respondeu que nada sabia.
          -  o tempo, mais nada - concluiu o comissrio.
          Era o tempo, sem dvida. Tudo ficava pegajoso  medida que o dia avanava, e Rieux sentia crescer sua apreenso a cada visita. Na noite daquele mesmo dia, 
no subrbio, um vizinho do velho doente apertava as virilhas e vomitava em meio ao delrio. Os gnglios estavam ainda maiores que os do porteiro. Um deles comeava 
a supurar e logo se abriu como um fruto podre. Chegando a casa, Rieux telefonou para o depsito de produtos farmacuticos do departamento. Suas notas profissionais 
mencionam, apenas, nessa data: "Resposta negativa". E j o chamavam de outros lugares para casos semelhantes. Era evidente que se tornava necessrio abrir os abscessos. 
Dois golpes de bisturi em cruz, e dos gnglios escorria uma pasta sangrenta. Os doentes sangravam. Mas surgiam manchas no ventre e nas pernas, um gnglio deixava 
de supurar, depois tornava a inchar. Na maior parte das vezes o doente morria exalando um cheiro terrvel.
          A imprensa, to indiscreta no caso dos ratos, j no mencionava nada.  que os ratos morrem na rua e os homens, em casa. E os jornais s se ocupam da rua. 
Mas a prefeitura e a municipalidade comeavam a se questionar. Enquanto cada mdico no tinha tido conhecimento de mais de dois ou trs casos, ningum pensara em 
se mexer. Mas, em resumo, bastou que algum pensasse em fazer a soma, e a soma era alarmante. Em apenas alguns dias, os casos mortais multiplicaram-se e tornou-se 
evidente, para aqueles que se preocupavam com a curiosa molstia, que se tratava de uma verdadeira epidemia. Foi o momento que Gastei, colega de Rieux, muito mais 
velho que ele, escolheu para ir visit-lo.
          - Naturalmente - perguntou -, sabe do que se trata, Rieux?
          - Estou esperando o resultado das anlises.
          - Pois eu sei. E no preciso de anlises. Fiz uma parte da minha carreira na China e vi alguns casos em Paris, h uns vinte anos. Simplesmente, no se 
teve a coragem de lhe dar um nome. A opinio pblica  sagrada: nada de pnico. Sobretudo, nada de pnico. E depois, como dizia um colega: " impossvel, tojo mundo 
sabe que ela desapareceu do Ocidente". Sim, todos sabiam, exceto os mortos. Vamos, Rieux, voc sabe to bem quanto eu o que .
          Rieux refletia. Pela janela do escritrio olhava a falsia rochosa que se fechava, ao longe, sobre a baa. O cu, embora azul, tinha um brilho plido que 
se esbatia  medida que a tarde avanava.
          -  verdade, Gastei - respondeu. -  incrvel, mas parece peste.
          Gastei levantou-se e dirigiu-se para a porta.
          - Voc sabe o que vo nos responder - disse o velho mdico: - "Ela desapareceu dos pases temperados h muitos anos".
          - Que quer dizer isso. . . desapareceu? - perguntou Rieux, encolhendo os ombros.
          - Sim, no se esquea: em Paris ainda, h quase vinte anos.
          - Bem, esperemos que no seja mais grave hoje que naquela poca. Mas  realmente incrvel.
          A palavra "peste" acabava de ser pronunciada pela primeira vez. Neste momento da narrativa, com Bernard Rieux atrs da janela, permitir-se- ao narrador 
que justifique a incerteza e o espanto do mdico, j que, com algumas variaes, sua reao foi a da maior parte dos nossos concidados. Os flagelos, na verdade, 
so uma coisa comum, mas  difcil acreditar neles quando se abatem sobre ns. Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E contudo, as pestes, como as guerras, 
encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. Rieux estava desprevenido, assim como nossos concidados,  necessrio compreender assim as duas hesitaes. 
E por isso  preciso compreender, tambm, que ele estivesse dividido entre a inquietao e a confiana. Quando estoura uma guerra, as pessoas dizem: "No vai durar 
muito, seria idiota". E sem dvida uma guerra  uma tolice, o que no a impede de durar. A tolice insiste sempre, e compreend-la-amos se no pensssemos sempre 
em ns. Nossos concidados, a esse respeito, eram como todo mundo: pensavam em si prprios. Em outras palavras, eram humanistas: no acreditavam nos flagelos. O 
flagelo no est  altura do homem; diz-se ento que o flagelo  irreal, que  um sonho mau que vai passar. Mas nem sempre ele passa e, de sonho mau em sonho mau, 
so os homens que passam, e os humanistas em primeiro lugar, pois no tomaram suas precaues. Nossos concidados no eram mais culpados que os outros. Apenas se 
esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo ainda era possvel para eles, o que pressupunha que os flagelos eram impossveis. Continuavam a fazer negcios, preparavam 
viagens e tinham opinies. Como poderiam ter pensado na peste, que suprime o futuro, os deslocamentos e as discusses? Julgavam-se livres, e nunca algum ser livre 
enquanto houver flagelos.
          Mesmo depois de o Dr. Rieux ter reconhecido, diante do amigo, que um punhado de doentes dispersos acabavam de morrer da peste, sem aviso, o perigo continuava 
irreal para ele. Simplesmente, quando se  mdico, faz-se uma ideia da dor e tem-se um pouco mais de imaginao. Ao olhar pela janela sua cidade que no mudara, 
era com dificuldade que Rieux sentia nascer dentro de si esse ligeiro temor diante do futuro, que se chama inquietao. Ele procurava reunir no seu esprito o que 
sabia sobre a doena. Flutuavam nmeros na sua memria, e dizia a si prprio que umas trs dezenas de pestes que a histria conheceu tinham feito perto de cem milhes 
de mortos. Mas que so cem milhes de mortos? Quando se fez a guerra, j  muito saber o que  um morto. E j que um homem morto s tem significado se o vemos morrer, 
cem milhes de cadveres semeados atravs da histria esfumaam-se na imaginao. O mdico lembrava-se da peste de Constantinopla, que, segundo Procpio, tinha feito 
dez mil vtimas em um s dia. Dez mil mortos so cinco vezes o pblico de um grande cinema. A est o que se deveria fazer. Juntam-se as pessoas  sada de cinco 
cinemas para conduzi-las a uma praa da cidade e faz-las morrer aos montes para se compreender alguma coisa. Ao menos, poder-se-iam colocar alguns rostos conhecidos 
nesse amontoado annimo. Mas, naturalmente, isso  impossvel de realizar, e depois, quem conhece dez mil rostos? Alm disso, sabe-se que as pessoas como Procpio 
no sabiam contar. Em Canto, h setenta anos, quarenta mil ratos tinham morrido da peste, antes que o flagelo se interessasse pelos habitantes. Mas, em 1871, no 
havia um meio de contar os ratos. Fazia-se o clculo aproximado, por alto, com evidentes probabilidades de erro. Contudo, se um rato tem trinta centmetros de comprimento, 
quarenta mil ratos em fila dariam...
          Mas o mdico impacientava-se. Deixava-se entregar, e isso era perigoso. Alguns casos no constituem uma epidemia, e tJsta tomar precaues. Era preciso 
limitar-se quilo que se sabia: o torpor e a prostrao, os olhos vermelhos, a boca suja, a dor de cabea, os tumores, a sede terrvel, o delrio, as manchas no 
corpo, o dilaceramento interior e, no fim de tudo... No fim de tudo, uma frase surgia no esprito do Dr. Rieux, uma frase que no seu manual terminava justamente 
a enumerao dos sintomas: "O pulso torna-se filiforme e a morte sobrevm por ocasio de um movimento insignificante". Sim, no fim de tudo ficvamos presos por um 
fio, e trs quartos da populao - era o nmero exato - estavam impacientes para fazer o movimento imperceptvel que as precipitaria.
          
          O mdico continuava a olhar pela janela. De um lado da vidraa, o cu fresco da primavera; do outro, a palavra que ressoava ainda na sala: peste. A palavra 
no continha apenas o que a cincia queria efetivamente atribuir-lhe, mas uma longa srie de imagens extraordinrias que no combinavam com essa cidade amarela e 
cinzenta, moderadamente animada a essa hora, mais zumbidora que ruidosa, feliz em suma, se  possvel ser ao mesmo tempo feliz e taciturno. E uma tranqilidade to 
pacfica e to indiferente negava quase sem esforo as velhas imagens do flagelo: Atenas empestada e abandonada pelos pssaros; as cidades chinesas cheias de moribundos 
silenciosos; os condenados de Marselha empilhando em covas os corpos que se liquefaziam; a construo, na Provena, de uma muralha para deter o vento furioso da 
peste; Jafa e os seus mendigos horrendos, os catres midos e podres colados  terra batida do hospital de Constantinopla; os doentes suspensos por ganchos, o carnaval 
dos mdicos mascarados durante a Peste Negra; os acasalamentos dos vivos nos cemitrios de Milo; as carretas de mortos na aterrada Londres; as noites e os dias 
em toda parte e sempre cheios de gritos interminveis dos homens. No, tudo isso no era ainda bastante forte para matar a paz desse dia. Do outro lado da vidraa, 
a campainha de um bonde invisvel tilintava de repente e refutava num segundo a crueldade e a dor. S o mar, ao fundo do tabuleiro bao das casas, comprovava o que 
h de inquietao e de eterna falta de tranqilidade neste mundo. E o Dr. Rieux, que olhava para o golfo, pensava nas fogueiras citadas por Lucrcio e que os atenienses 
atacados pela doena acendiam  beira do mar. Levavam os mortos para l durante a noite, mas o lugar era pequeno e os vivos batiam-se a golpes de archote para colocarem 
os que lhes tinham sido queridos, sustentando lutas sangrentas para no abandonarem os cadveres. Podia-se imaginar as fogueiras rubras diante da gua tranqila 
e escura, os combates de archotes na noite crepitante de fagulhas e densos vapores envenenados subindo para o cu atento. Podia-se recear...
          Mas essa vertigem no se mantinha diante da razo.  verdade que a palavra "peste" fora pronunciada,  verdade que, nesse mesmo instante, o flagelo abalava 
e derrubava uma ou duas vtimas. Mas, que diabo, aquilo podia parar, O necessrio era reconhecer claramente o que devia ser reconhecido, expulsar enfim as sombras 
inteis, tomar as providncias adequadas. Em seguida, a peste pararia, porque ou no se podia imaginar a peste, ou ento a imaginvamos de modo falso. Se ela parasse 
- o que era o mais provvel -, tudo correria bem. Caso contrrio, saber-se-ia o que ela era para, no havendo meio de se defender dela primeiro, venc-la em seguida.
          O mdico abriu a janela, e o rudo da cidade cresceu de repente. De uma oficina vizinha chegava o silvo breve e repetido de uma serra mecnica. Rieux despertou. 
A estava a certeza, no trabalho de todos os dias. O resto, prendia-se a fios, a movimentos insignificantes, no se podia perder tempo com isso. O essencial era 
cumprir o seu dever.
          O Dr. Rieux estava nessa altura de suas reflexes quando lhe anunciaram Joseph Grand. Como era funcionrio da municipalidade, embora suas ocupaes fossem 
muito diversas, utilizavam-no periodicamente no servio da estatstica do registro civil. Assim  que ele tinha de fazer a contagem dos bitos. E, prestativo por 
natureza, concordara em levar pessoalmente  casa de Rieux uma cpia dos seus resultados.
          O mdico viu entrar Grand na companhia do seu vizinho Cottard. O funcionrio municipal brandia uma folha de papel.
          - Os nmeros sobem, doutor - anunciou. - Onze mortos em quarenta e oito horas.
          Rieux cumprimentou Cottard e perguntou-lhe como se sentia. Grand explicou que Cottard fizera questo de agradecer ao mdico e pedir-lhe desculpas pelos 
transtornos que lhe causara. Mas o mdico olhava para a folha de estatstica.
          - Vamos - disse Rieux -, talvez seja preciso decidirmo-nos a chamar essa doena pelo seu nome verdadeiro. At &Jora, estamos tateando. Mas venha comigo, 
preciso ir ao laboratrio.
          - Sim, sim - dizia Grand, ao descer as escadas atrs do mdico. -  preciso chamar as coisas pelo nome verdadeiro. Mas que nome  esse?
          - No posso lhe dizer e, alm disso, de nada lhe serviria.
          - Est vendo? - disse o funcionrio municipal, com um sorriso. - No  fcil.
          Digiriram-se para a Place d'Armes. Cottard continuava calado. As ruas comeavam a encher-se de gente. O crepsculo fugidio da nossa regio j comeava 
a recuar diante da noite, e as primeiras estrelas apareciam no horizonte ainda ntido. Um instante depois, as lmpadas, acendendo-se por cima das ruas, obscureceram 
todo o cu, e o rudo das conversas pareceu subir de tom.
          - Desculpem-me - disse Grand, na esquina da Place d'Armes -, mas preciso tomar o bonde. Minhas noites so sagradas. Como dizem na minha terra: "No se 
deve deixar para amanh.
          Rieux j notara essa mania de Grand, nascido em Montlimar, de evocar provrbios regionais e de acrescentar, em seguida, frmulas banais que no eram de 
lugar algum, como: "um tempo de sonho" ou "uma iluminao ferica".
          - Ah - disse Cottard -,  verdade.  impossvel arranc-lo de casa depois do jantar.
          Rieux perguntou a Grand se trabalhava para a prefeitura. Grand respondeu que no, que trabalhava por conta prpria.
          - Ah - disse Rieux, para ter o que dizer -, e est dando certo?
          - H anos que trabalho nisto, forosamente. Embora, em outro sentido, no haja muitos progressos.
          - Mas, afinal, de que se trata? - perguntou o mdico, detendo-se.
          Grand gaguejou, enterrando o chapu sobre as orelhas. E Rieux compreendeu muito vagamente que se tratava de qualquer coisa sobre o desenvolvimento de uma 
personalidade. Mas o funcionrio j os deixava e subia o Boulevard de La Mame, sob os f  cus, com um passo apressado.  entrada do laboratrio, Cottard disse ao 
mdico que gostaria muito de consult-lo para pedir-lhe orientao. Rieux, que remexia nos bolsos a folha de estatstica, convidou-o a ir ao consultrio, mas depois, 
mudando de opinio, disse-lhe que iria no dia seguinte ao seu bairro e que passaria pela sua casa no fim da tarde.
          Ao deixar Cottard, o mdico se deu conta de que pensava em Grand. Imaginava-o no meio de uma peste, e no daquela, que sem dvida no seria sria, mas 
de uma das grandes pestes da histria. " o tipo de homem que  poupado nesses casos." Lembrava-se de ter lido que a peste poupava as constituies fracas e destrua 
sobretudo as compleies vigorosas. E, continuando a pensar nisso, o mdico descobria no empregado municipal um arzinho de mistrio.
           primeira vista, com efeito, Joseph Grand nada era alm do pequeno funcionrio municipal que aparentava ser. Alto e magro, flutuava dentro das roupas, 
largas demais, e assim escolhidas por ele na iluso de que durariam mais. Se conservava ainda a maior parte dos dentes do maxilar inferior, em contrapartida perdera 
a maior parte dos superiores. O sorriso, que lhe erguia o lbio superior, tornava-lhe a boca escura. Se se acrescentar a esse retrato um andar de seminarista, a 
arte de resvalar pelas paredes e de deslizar por entre as portas, um perfume de adega e de fumaa, todos os sinais da insignificncia, reconhecer-se- que s era 
possvel imagin-lo diante de uma mesa, revendo as tarifas dos banhos de ducha da cidade ou reunindo, para um jovem redator, os elementos de um relatrio sobre a 
nova taxa de lixo. Mesmo para um esprito desavisado, ele parecia ter vindo ao mundo para exercer as funes, discretas mas indispensveis, de auxiliar municipal 
temporrio, a sessenta e dois francos e trinta centavos por dia.
          Era, na verdade, a meno que ele dizia constar das folhas de emprego, em seguida  palavra "qualificao". Quando, h vinte e dois anos, ao fim de uma 
licenciatura alm da qual, por falta de dinheiro, ele no pudera ir, aceitara esse emprego, haviam lhe dado a esperana, segundo ele, de uma "efetivao rpida". 
Tratava-se apenas de dar, durante algum tempo, provas de competncia nas questes delicadas que a administrao da nossa cidade apresentava. Depois, tinham-lhe garantido, 
no poderia deixar de chegar ao lugar de redator que lhe permitiria viver comodamente. Certamente no era a ambio que fazia Joseph Grand agir, segundo ele assegurava 
com um sorriso melanclico, e sim a perspectiva de uma vida material assegurada por meios honestos. Conseqentemente, sorria-lhe a perspectiva de entregar-se sem 
remorsos s suas ocupaes favoritas. Se aceitara a oferta que lhe faziam, fora por motivos dignos e, se assim se pode dizer, por fidelidade a um ideal.
          Havia muitos anos que esse estado de coisas provisrio durava, o custo de vida tinha aumentado em propores desmedidas, e o ordenado de Grand, apesar 
de alguns aumentos gerais, era ainda irrisrio. Tinha-se queixado a Rieux, mas ningum parecia dar importncia ao fato.  aqui que se mostra a originalidade de Grand 
ou, pelo menos, um dos seus sinais. Ele teria podido, com efeito, fazer valer, se no os direitos, de que no estava muito seguro, pelo menos as garantias que lhe 
tinham dado. Mas, em primeiro lugar, o chefe de rep irtio que o tinha contratado morrera h muito tempo e o empregado municipal no se lembrava tampouco dos termos 
exatos da promessa que lhe fora feita. Enfim, Joseph Grand no achava as palavras.
          Era essa particularidade que melhor retratava o nosso concidado, como Rieux pde observar. Era ela, na verdade, que o impedia sempre de escrever a carta 
de reclamao em que meditava ou de tomar as medidas que as circunstncias exigiam. A acreditar nele, sentia-se particularmente impedido de empregar a palavra "direito" 
sobre a qual no estava seguro ou "promessas", que teria implicado exigncias do que lhe era devido, e teria, por consequncia, se revestido de um carter de ousadia 
pouco compatvel com a modstia das funes que desempenhava. Por outro lado, recusava-se a empregar os termos "benevolncia", "solicitar", "gratido" que, no seu 
entender, no se coadunavam com sua dignidade pessoal. Assim, por falta da palavra certa, nosso concidado continuou a exercer suas obscuras funes at uma idade 
bastante avanada. Alis, e sempre segundo o que ele dizia a Rieux, deu-se conta, com o hbito, de que, de qualquer maneira, sua vida material estava assegurada, 
j que lhe bastava afinal adaptar suas necessidades aos seus recursos. Reconheceu, assim, o acerto de uma das frases prediletas do prefeito, grande industrial de 
nossa cidade, que afirmava enfaticamente que afinal - e acentuava bem essa palavra que continha todo o peso do raciocnio - afinal, portanto, nunca se tinha visto 
ningum morrer de fome. De qualquer forma, a vida quase asctica que Joseph Grand levava, na verdade, finalmente o liberava de qualquer preocupao dessa ordem. 
Continuava a procurar as palavras.
          Em certo sentido, pode-se dizer que sua vida era exemplar. Era um desses homens, raros na nossa cidade, como em qualquer lugar, que tm sempre a coragem 
de assumir seus bons sentimentos. O pouco que confidenciava dava provas de bondade e dedicao que no se ousa confessar nos nossos dias. Admitia, sem ruborizar, 
que gostava dos sobrinhos e da irm, nicos parentes que lhe restavam e que, todos os anos, visitava na Frana. Reconhecia que a lembrana dos pais, mortos quando 
era ainda jovem, fazia com que sofresse. No se recusava a admitir que amava, acima de tudo, um certo sino do seu bairro que tocava suavemente por volta de cinco 
horas da tarde. Para evocar emoes to simples, contudo, a menor palavra custava-lhe mil esforos. Finalmente, essa dificuldade tinha-se tornado sua maior preocupao. 
"Ah, doutor", dizia, "gostaria tanto de aprender a me expressar". Falava disso a Rieux todas as vezes que o encontrava.
          Nessa noite, o mdico, ao ver o funcionrio municipal partir, compreendeu de repente o que Grand tentara dizer: sem dvida, ele estava escrevendo um livro 
ou algo semelhante. J no laboratrio, onde entrou por fim, isso tranqilizara Rieux. Sabia que essa impresso era tola, mas no conseguia acreditar que a peste 
se pudesse instalar verdadeiramente numa cidade onde podiam encontrar-se funcionrios modestos que cultivavam manias respeitveis. Exatamente. Ele no imaginava 
um lugar para essas manias no meio da peste e julgava que ela no tinha praticamente futuro entre nossos concidados.
          No dia seguinte, graas a uma insistncia tida como fora de propsito, Rieux obtinha a convocao para a Prefeitura de uma comisso sanitria.
          -  verdade que a populao se inquietava - reconhecera Richard. - E depois os falatrios exageram tudo. O prefeito me disse: "Vamos agir depressa se quiser, 
mas em silncio". Alis, ele est convencido de que se trata de um alarme falso.
          Bernard Rieux levou Gastei, no seu carro,  Prefeitura.
          - Sabe - disse-lhe - que o departamento no tem soro?
          - Sei. Telefonei para o depsito. O diretor caiu das nuvens.  preciso mandar vir de Paris.
          - Espero que no demore.
          - J telegrafei - respondeu Rieux. O prefeito estava amvel, mas nervoso.
          - Comecemos, senhores. Querem que resuma a situao?
          Richard achava que era intil. Os mdicos conheciam a situao. A questo era apenas saber que medidas convinha tomar.
          - A questo - interveio brutalmente o velho Gastei -  saber se se trata de peste ou no.
          Dois ou trs mdicos se sobressaltaram. Os outros pareciam hesitar. Quanto ao prefeito, estremeceu e voltou-se automaticamente para a porta, como para 
verificar se ela havia impedido aquela enormidade de se espalhar pelos corredores. Richard declarou que, em sua opinio, no se devia ceder ao pnico. Tratava-se 
de uma febre com complicaes inguinais e era tudo o que se podia dizer, j que as hipteses, na cincia como na vida, so sempre perigosas. O velho restei, que 
mastigava tranqilamente o bigode amarelecido, levantou os olhos claros para Rieux. Depois dirigiu um olhar benevolente  plateia e declarou que sabia muito bem 
que era a peste, mas que,  claro, reconhec-lo oficialmente implicaria medidas implacveis. Ele sabia que era isso, no fundo, que fazia os colegas recuarem e portanto 
estava disposto a admitir, para tranqilidade deles, que no era a peste. O prefeito agitou-se e afirmou que, em todo caso, no era uma boa maneira de argumentar.
          - O importante - insistiu Gastei - no  que essa maneira de argumentar seja boa, mas que ela nos obrigue a refletir.
          Como Rieux se calasse, perguntaram-lhe a sua opinio.
          - Trata-se de uma febre de carter tifide, mas acompanhadas de abscessos e de vmitos. Fiz incises nos abscessos. Pude, assim, provocar anlises em que 
o laboratrio julga reconhecer o bacilo da peste. Para ser preciso,  necessrio dizer, entretanto, que certas modificaes especficas do micrbio no coincidem 
com a descrio clssica.
          Richard ressaltou que isso justificaria hesitaes e que seria preciso esperar, pelo menos, o resultado estatstico da srie de anlises que comeara h 
alguns dias.
          - Quando um micrbio - disse Rieux, depois de um curto silncio -  capaz, em trs dias, de quadruplicar o volume do bao, de dar aos gnglios mesentricos 
o volume de uma laranja e uma consistncia de mingau, j no permite hesitaes. Os focos de infeco encontram-se em extenso crescente. Pela rapidez com que a 
doena se propaga, se no for detida, pode matar metade da populao em menos de dois meses. Conseqentemente, pouco importa que lhe dem o nome de peste ou febre 
de crescimento. O essencial  apenas impedi-la de matar metade da cidade.
          Rchard achava que era preciso no ver as coisas to pretas e que, alm disso, o contgio no estava provado, j que os parentes dos doentes estavam ainda 
indenes.
          - Mas morreram outros - observou Rieux. - E,  preciso que se entenda, o contgio nunca  absoluto. Seno, teramos uma progresso matemtica infinita 
e um despovoamento fulminante. No se trata de ver as coisas pretas, trata-se de tomar precaues.
          Entretanto, Richard pensava em resumir a situao, lembrando que, para deter a doena, se ela no parasse por si s, seria necessrio aplicar as graves 
medidas de profilaxia previstas na lei e que, para isso, seria necessrio admitir oficialmente que se tratava da peste; como a certeza a esse respeito no era absoluta, 
isso exigia reflexo.
          - A questo - insistiu Rieux - no  saber se as medidas previstas em lei so graves, mas se so necessrias para impedir que metade da populao morra. 
O resto  com as autoridades, e, justamente, nossas leis prevem um prefeito para resolver essas questes.
          - Sem dvida - retrucou o prefeito -, mas preciso que os senhores reconheam oficialmente que se trata de uma epidemia de peste.
          - Se no o reconhecermos, ela pode, apesar de tudo, matar metade da cidade.
          Rchard interveio com certo nervosismo.
          - A verdade  que nosso colega acredita na peste. Sua descrio da sndrome o comprova.
          Rieux respondeu que no descrevera uma sndrome, tinha descrito o que observara. E o que observara eram os furnculos, as manchas, as febres delirantes, 
fatais em quarenta e oito horas. Poderia o Dr. Richard assumir a responsabilidade de afirmar que a epidemia se deteria sem medidas profilticas rigorosas?
          Rchard hesitou e olhou para Rieux:
          - Diga-me, sinceramente, o seu pensamento: tem certeza de que  a peste?
          - O problema est mal colocado. No  uma questo de vocabulrio,  uma questo de tempo.
          - A sua ideia - interveio o prefeito - seria que,  mesmo que no se tratasse de peste, deveriam adotar-se as medidas profilticas indicadas em tempo de 
peste.
          - Se  absolutamente necessrio que eu tenha uma ideia,  essa, com efeito.
          Os mdicos consultaram-se, e Richard acabou por dizer:
          -  preciso, portanto, que se assuma a responsabilidade de agir como se a doena fosse a peste.
          A frmula foi calorosamente aprovada:
          -  tambm a sua opinio, meu caro colega? - perguntou Richard.
          - A frmula me  indiferente - respondeu Rieux.
          - Digamos apenas que no devemos agir como se metade da cidade no corresse o risco de morrer, porque seno ela morrer de fato.
          Em meio  irritao geral, Rieux partiu. Alguns momentos depois, no subrbio que cheirava a fritura e a urina, uma mulher, com gritos terrveis, as virilhas 
ensanguentadas, voltava-se para ele.
          No dia seguinte ao da reunio, a febre deu mais um pequeno salto. Chegou at os jornais, se bem que de uma forma benigna, j que se contentaram em fazer 
algumas aluses. No outro dia, em todo caso, Rieux podia ler pequenos cartazes brancos que a Prefeitura mandara rapidamente colar nos lugares mais discretos da cidade. 
Era difcil tirar desses cartazes a prova de que as autoridades encaravam a situao de frente. As medidas no eram draconianas, e pareciam muito submetidas ao desejo 
de no inquietar a opinio pblica. O decreto dizia, na verdade, que tinham aparecido na comuna de Oran alguns casos de uma febre perniciosa que no se podia ainda 
caracterizar como contagiosa. Esses casos no eram bastante caractersticos para serem realmente inquietantes, e no havia dvida de que a populao saberia manter 
o sangue-frio. Contudo, e com um esprito de prudncia que podia ser compreendido por todos, o prefeito tomava algumas medidas preventivas. Compreendidas e aplicadas 
como deviam s-lo, essas medidas eram de natureza a debelar qualquer ameaa de epidemia. Conseqentemente, o prefeito no duvidava por um s instante de que seus 
administrados dariam a mais dedicada colaborao ao seu esforo pessoal.
          O cartaz anunciava, em seguida, medidas gerais, entre as quais uma desratizao cientfica, por injeo de gases txicos nos esgotos, e uma vigilncia 
estrita do ornenecirnento de gua. Recomendava aos habitantes o asseio mais rigoroso e convidava, enfim, todos os que tinham pulgas a se apresentarem nos dispensrios 
municipais. Por outro lado, as famlias deviam notificar obrigatoriamente os casos diagnosticados pelo mdico e consentir no isolamento dos seus doentes em salas 
especiais do hospital. Alis, essas salas estavam equipadas para tratar os doentes no mnimo de tempo e com o mximo de probabilidade de cura. Alguns artigos suplementares 
submetiam  desinfeco obrigatria o quarto do doente e o veculo de transporte. Quanto ao resto, o edital limitava-se a recomendar aos parentes que se submetessem 
a uma vigilncia sanitria.
          O Dr. Rieux afastou-se rapidamente do cartaz e retomou o caminho do consultrio. Joseph Grand, que o esperava, levantou de novo os braos ao v-lo.
          - Sim - disse Rieux -, eu sei, os nmeros esto subindo.
          Na vspera, uma dezena de doentes havia sucumbido na cidade. O mdico disse a Grand que talvez se encontrassem  noite, pois ia visitar Cottard.
          - Tem razo - respondeu Grand. - Isso vai lhe fazer bem, pois eu o acho mudado, 
          - Como?
          - Tornou-se gentil.
          - No era gentil antes?
          Grand hesitou. No podia dizer que Cottard fosse indelicado, a expresso no seria correta. Era um homem fechado e silencioso, com um jeito de javali. 
O seu quarto, um restaurante modesto e sadas bastante misteriosas eram toda a vida de Cottard. Oficialmente, era representante de vinhos e de licores. Uma vez ou 
outra recebia a visita de dois ou trs homens, que deviam ser clientes. s vezes,  noite, ia ao cinema que ficava em frente  casa. O empregado municipal chegara 
a notar que Cottard preferia os filmes de gngsteres. Em todas as ocasies o representante de vinhos mantinha-se solitrio e desconfiado.
          Tudo isso, segundo Grand, mudara muito:
          - No sei como diz-lo, mas tenho a impresso de que procura reconciliar-se com as pessoas, que quer todos do seu lado. Fala sempre comigo, convida-me 
para sair com ele e nem sempre consigo recusar. Alis, ele me interessa e, enfim, salvei-lhe a vida.
          Desde a tentativa de suicdio, Cottard nunca mais recebera visitas. Nas ruas, nas casas dos fornecedores, procurava conquistar todas as simpatias. Nunca 
empregara tanta suavidade ao falar com os merceeiros, tanto interesse em escutar a vendedora de tabaco.
          - Essa vendedora de tabaco - observava Grand  uma verdadeira vbora. Disse isso a Cottard, mas ele respondeu-me que eu estava enganado e que ela possua 
o seu lado born; era preciso saber descobri-lo.
          Por duas ou trs vezes, finalmente, Cottard tinha levado Grand aos restaurantes e bares luxuosos da cidade. Tinha, com efeito, comeado a frequent-los.
          - A gente sente-se bem nesses lugares - dizia ele -, e, depois, a companhia  boa.
          Grand tinha observado as atenes especiais que os empregados dispensavam ao representante de vinhos e compreendeu a razo quando viu as gorjetas excessivas 
que ele deixava. Cottard parecia muito sensvel s amabilidades que recebia em troca. Num dia em que um matre d'htel o acompanhara e ajudara a vestir o sobretudo, 
Cottard dissera a Grand:
          -  Jom sujeito, pode perguntar a ele.
          - Perguntar o qu? Cottard hesitara.
          - Bem, perguntar se eu sou m pessoa.
          Alis, tinha um humor varivel. Num dia em que o merceeiro se mostrara menos amvel, voltara para casa em estado de furor desmedido.
          - Passou para o lado dos outros, esse crpula repetia.
          - Que outros?
          - Todos os outros.
          Grand chegara a assistir a uma cena curiosa com a vendedora de tabaco. No meio de uma conversa animada, ela falara de uma priso recente que alvoroava 
Argel. Tratavase de um jovem que matara um rabe numa praia.
          - Se metessem toda essa corja na priso - dissera a vendedora -, as pessoas honestas poderiam respirar.
          Mas fora forada a interromper-se, diante da agitao de Cottard, que se precipitara para fora da tabacaria sem uma palavra de desculpa. Grand e a empregada, 
boquiabertos, viram-no fugir.
          Mais tarde, Grand devia tambm apontar a Rieux outras modificaes no carter de Cottard. Este sempre tivera opinies muito liberais. Sua frase favorita, 
"Os grandes sempre comem os pequenos", provava-o bem. No entanto, j h algum tempo comprava apenas o jornal conservador de Oran, e era impossvel no acreditar 
que ele at se dava ao trabalho de ostentar, de certa forma, sua leitura nos lugares pblicos.
          Da mesma forma, alguns dias depois de ter-se levantado, pedira a Grand, que ia ao correio, para lhe fazer o favor de expedir um vale postal de cem francos 
que enviava mensalmente a uma irm. Porm, no momento em que Grand saa, pedira-lhe:
          - Mande-lhe duzentos. Ser uma boa surpresa. Minha irm acha que nunca penso nela. Mas a verdade  que a estimo muito.
          Finalmente, tivera com Grand uma curiosa conversa. Este fora obrigado a responder s perguntas de Cottard, intrigado pelo trabalho a que Grand se entregava 
todas as noites.
          - Bom - dissera Cottard -, voc est escrevendo um livro.
          - Como queira, mas  mais complicado do que isso!
          - Ah! - exclamara Cottard. - Gostaria de fazer o mesmo.
          Grand mostrara-se surpreso e Cottard balbuciara que ser artista devia resolver muitas coisas.
          - Por qu? - perguntara Grand.
          - Ora, porque um artista tem mais direitos que os outros, todos sabem disso. Perdoam-lhe mais coisas.
          - Ora, simplesmente - disse Rieux a Grand na manh dos cartazes -, a histria dos ratos virou-lhe a cabea, como a de muitos outros. Ou, ento, ele tem 
medo da febre.
          - No acho, doutor - respondeu Grand. - Se quer minha opinio. . .
          O carro da desratizao passou por baixo da janela com um grande rudo do cano de escapamento. Rieux calou-se at que fosse possvel fazer-se ouvir e pediu 
distraidamente a opinio do funcionrio municipal. Este olhava-o com gravidade.
          -  um homem - disse - que tem qualquer coisa na conscincia.
          O mdico deu de ombros. Como dizia o comissrio, tinha mais o que fazer.
           tarde, Rieux teve uma reunio com Gastei. O soro ainda no tinha chegado.
          - De resto - perguntava Rieux -, ser til? Este bacilo  estranho.
          - Oh! - respondeu Gastei. - No concordo. Estes animais tm sempre um ar de originalidade. Mas, no fundo,  a mesma coisa.
          - Voc, pelo menos, assim o supe. Na realidade, nada sabemos.
          - Claro que suponho. Mas no s eu, a suposio  geral
          Durante todo o dia, o mdico sentiu aumentar a pequena vertigem que o atacava a cada vez que pensava na peste. Finalmente, reconheceu que tinha medo. Entrou 
por duas vezes em bares cheios de gente. Tambm ele, como Cottard, sentia necessidade de calor humano. Rieux achava aquilo idiota, mas isso o ajudou a lembrar-se 
de que prometera uma visita ao representante de vinhos.
           noite, o mdico encontrou Cottard diante da mesa da sala de jantar. Quando entrou, via-se em cima da mesa um romance policial aberto. Mas a tarde j 
estava adiantada e devia ser difcil ler na obscuridade nascente. Era mais provvel que Cottard, um minuto antes, estivesse sentado na penumbra, pensando. Rieux 
perguntou-lhe como ia. Cottard, sentando-se, resmungou que ia bem, e que iria ainda melhor se pudesse ter certeza de que ningum se preocupava com ele. Rieux observou 
que no se podia ficar sempre s.
          - Oh, no  isso, mas falo das pessoas que se ocupam em nos trazer problemas.
          Rieux continuou calado.
          - No  o meu caso, note bem. Mas estava lendo este romance. A est um desgraado que  preso de repente, numa certa manh. Ocupavam-se dele e ele nada 
sabia. Falavam dele nas reparties, escreviam-lhe o nome em fichas. Acha que  justo? Acha que se tem direito de fazer isso a um homem?
          - Depende - disse Rieux. - Em certo sentido, nunca se tem esse direito, na verdade. Mas tudo isso  secundrio. No se deve ficar muito tempo fechado em 
casa. O senhor precisa sair.
          Cottard pareceu irritar-se e respondeu que no fazia outra coisa, que todo o bairro podia testemunh-lo, se fosse necessrio. Mesmo fora do bairro, no 
lhe faltavam conhecidos.
          - Conhece Rigaud, o arquiteto?  um dos meus amigos.
          A penumbra aumentava na sala. A rua animava-se, e uma exclamao surda e de alvio saudou l fora o instante em que as luzes se acenderam. Reux foi at 
a varanda e Cottard o seguiu. De todos os bairros em redor, como em todas as noites na nossa cidade, uma brisa ligeira trazia murmrios, cheiros de carne grelhada, 
o zumbido alegre e perfumado da liberdade que enchia pouco a pouco a rua, invadida por uma mocidade ruidosa.  noite, os grandes gritos dos barcos invisveis, o 
rumor que subia do mar e da multido que passava, esta hora que Rieux conhecia to bem e de que gostara outrora, parecia-lhe hoje opressiva por causa de tudo o que 
sabia.
          - Podemos acender a luz? - perguntou a Cottard. Acesa a luz, o homenzinho olhou-o piscando os olhos.
          - Diga-me, doutor: se eu adoecesse, aceitar-me-ia no seu servio do hospital?
          - Por que no?
          Cottard perguntou, ento, se j ocorrera de prenderem algum que se encontrasse numa clnica ou num hospital. Rieux respondeu que sim, mas que tudo dependia 
do estado do enfermo.
          - Eu - disse Cottard - tenho confiana no senhor. Depois perguntou ao mdico se podia lev-lo para a cidade no seu automvel.
          No centro da cidade, as ruas j estavam menos povoadas e as luzes, mais raras. Crianas brincavam ainda diante das portas. Quando Cottard pediu, o mdico 
parou o carro diante de um grupo de crianas. Aos gritos, jogavam amarelinha. Mas um garoto, de cabelos pretos e lisos, traos perfeitos e rosto sujo, fixava Rieux 
com os olhos claros e ameaadores. O mdico desviou o olhar. Cottard, de p na calada, apertava-lhe a mo. O representante de vinhos falava numa voz rouca e difcil. 
Duas ou trs vezes olhou para trs.
          - Fala-se em epidemia, doutor.  verdade?
          - As pessoas falam sempre,  natural - respondeu Rieux.
          - Tem razo. E depois, quando tivermos uma dezena de mortos, vai ser o fim do mundo. No era disso que precisvamos.
          O motor j roncava. Rieux tinha o p no acelerador, mas olhava de novo para a criana que no deixara de fit-lo com o olhar grave e tranqilo. E de repente, 
sem transio, a criana lhe sorriu, mostrando todos os dentes.
          - Ento, de que estamos precisando? - perguntou o mdico, sorrindo para a criana.
          Cottard agarrou o porto e, antes de se afastar, gritou, com uma voz cheia de lgrimas e de furor:
          - De um terremoto. Um verdadeiro!
          No houve terremoto, e para Rieux o dia seguinte passou-se simplesmente em longas corridas aos quatro cantos da cidade, em conversas com as famlias dos 
doentes e em discusses com os prprios doentes. Nunca Rieux achara sua profisso to pesada. At ento os doentes facilitavam-lhe o trabalho, entregando-se a ele. 
Pela primeira vez, o mdico sentia-os reticentes, refugiados no fundo da sua doena, com uma espcie de espanto desconfiado. Era uma luta a que ainda no estava 
habituado. E por volta das dez da noite, com o carro parado diante da casa do velho asmtico, que ele visitava por ltimo, Rieux sentia dificuldade em se levantar 
do assento. Demorava-se a contemplar a rua escura e as estrelas que apareciam e desapareciam no cu negro. O velho asmtico estava sentado na cama. Parecia respirar 
melhor e contava os gros-de-bico, de uma panela para a outra. Recebeu o mdico com um ar Fitisfeito.
          - Ento, doutor,  clera?
          - Que histria  essa?
          - Li no jornal. E o rdio disse tambm.
          - No, no  clera.
          - De qualquer maneira - disse o velho, muito excitado -, como falam, hem!
          - No acredite nisso - respondeu o mdico. Examinara o velho e agora estava sentado no meio daquela sala de jantar miservel. Sim, tinha medo. Sabia que 
no prprio subrbio uma dezena de doentes o esperariam no dia seguinte, curvados sobre seus furnculos. Apenas em dois ou trs casos a inciso provocara uma melhora. 
Para a maioria, porm, seria o hospital e ele sabia o que isso significava para os pobres. "No quero que ele sirva para as experincias deles", dissera-lhe a mulher 
de um dos seus doentes. No serviria para as experincias deles. Morreria, nada mais. Era evidente que as medidas decretadas eram insuficientes. Quanto s salas 
"especialmente equipadas", sabia bem do que se tratava: dois pavilhes apressadamente evacuados dos seus outros doentes, com as janelas calafetadas, um cordo sanitrio 
ao redor. Se a epidemia no parasse por si prpria, no seria vencida pelas medidas que a administrao tinha imaginado.
          Entretanto,  noite, os comunicados oficiais continuavam otimistas.
          No dia seguinte, a Agncia Ransdoc anunciava que as medidas da prefeitura haviam sido acolhidas com serenidade e que j uns trinta doentes se tinham notificado. 
Gastei telefonara a Rieux:
          - Quantos leitos tem o pavilho?
          - Oitenta.
          - Certamente, h mais de trinta doentes na cidade.
          - H os que tm medo e os outros, mais numerosos, os que no tiveram tempo.
          - Os funerais no so fiscalizados?
          - No. Telefonei a Richard para lhe dizer que eram necessrias medidas completas, no frases, e que ou era preciso erguer contra a epidemia uma verdadeira 
barreira, ou absolutamente nada.
          - E ento?
          - Respondeu-me que no tinha poderes. Em minha opinio, a coisa vai aumentar.
          Em trs dias, na verdade, os dois pavilhes ficaram cheios. Richard julgava que iam desativar uma escola e um hospital auxiliar. Rieux aguardava as vacinas 
e abria os tumores. Gastei voltava aos seus velhos livros e fazia longos estgios na biblioteca.
          - Os ratos morreram da peste ou de qualquer coisa muito parecida - conclua ele. - Puseram em circulao dezenas de milhares de pulgas que iro transmitir 
a infeco segundo uma progresso geomtrica, se no conseguirmos det-la a tempo.
          Rieux calava-se.
          Por essa poca, o tempo pareceu estabilizar-se. O sol enxugava as poas dos ltimos temporais. Um cu azul, transbordante de luz amarela, roncos de avies 
no calor nascente, tudo na estao convidava  serenidade. Em quatro dias, no entanto, a febre deu quatro saltos surpreendentes: dezesseis mortos, vinte e quatro, 
vinte e oito, trinta e dois. No quarto dia, anunciou-se a abertura do hospital auxiliar numa escola maternal. Nossos concidados, que at ento tinham continuado 
a disfarar sua inquietao com gracejos, pareciam, nas ruas, mais abatidos e mais silenciosos. Rieux decidiu telefonar para o prefeito.
          - As medidas so insuficientes.
          - Estou com os nmeros - respondeu -, na verdade, so nquietantes.
          - So mais que nquietantes. So claros.
          - vou pedir ordens ao governo-geral. Rieux desligou, diante de Gastei.
          - Ordens! O que falta  imaginao.
          - E o soro?
          - Chega esta semana.
          A prefeitura, por intermdio de Richard, pediu a Rieux um relatrio destinado  capital da colnia, para solicitar ordens. Rieux fez uma descrio clnica 
e colocou nmeros. No mesmo dia, contaram-se cerca de quarenta mortos. O prefeito assumiu a responsabilidade, como ele dizia, de intensificar a partir do dia seguinte 
as medidas prescritas. A notificao compulsria e o isolamento foram mantidos. As casas dos doentes deviam ser fechadas e desnfetadas, os que os rodeavam, submetidos 
a uma quarentena de segurana, os enterros, organizados pela cidade nas condies que veremos a seguir. Um dia depois, o soro chegava por avio. Era suficiente para 
os casos em tratamento. Era insuficiente se a epidemia viesse a se alastrar. Responderam ao telegrama de Rieux que o estoque de reserva estava esgotado e que estava 
sen^-b iniciada nova produo.
          Durante esse tempo, de todos os subrbios, a primavera chegava aos mercados. Milhares de rosas murchavam nas cestas dos vendedores, ao longo das caladas, 
e seu perfume adocicado flutuava por toda a cidade. Aparentemente, nada mudara. Os bondes continuavam sempre cheios nas horas de afluncia, vazios e sujos o resto 
do dia. Tarrou observava o velhinho, e este escarrava nos gatos. Grand se recolhia em casa todas as noites para seu misterioso trabalho. Cottard vagueava sem destino 
e o Sr. Othon, o juiz de instruo, continuava a passear com seus animais. O velho asmtico despejava os gros-de-bico de um recipiente para o outro, e, por vezes, 
encontrava-se o jornalista Rambert com um ar tranqilo e interessado.  noite, a mesma multido enchia as ruas e as filas estendiam-se diante dos cinemas. Alis, 
a epidemia pareceu recuar, e durante alguns dias contou-se apenas uma dezena de mortos. Depois, de repente, subiu de modo vertiginoso. No dia em que o nmero dos 
mortos atingiu de novo trinta, Bernard Rieux olhava o telegrama oficial que o prefeito lhe estendera, exclamando: "Esto com medo!" O telegrama dizia: "Declarem 
estado de peste. Fechem a cidade".
          
          
       II
          
          A partir desse momento, pode-se dizer que a peste se tornou um problema comum a todos ns. At ento, apesar da surpresa e da inquietao trazidas por 
esses acontecimentos singulares, cada um de nossos concidados continuara suas ocupaes conforme pudera, no seu lugar habitual. E, sem dvida, isso devia continuar. 
No entanto, uma vez fechadas as portas, deu-se conta de que estavam todos, at o prprio narrador, metidos no mesmo barco e que era necessrio ajeitar-se. Assim 
, por exemplo, que, a partir das primeiras semanas, um sentimento to individual quanto o da separao de um ente querido se tornou, subitamente, o de todo um povo 
e, juntamente com o medo, o principal sofrimento desse longo tempo de exlio.
          Na verdade, uma das consequncias mais importantes do fechamento das portas foi a sbita separao em que foram colocados seres que para isso no estavam 
preparados. Mes e filhos, esposos, amantes que tinham julgado proceder, alguns dias antes, a uma separao temporria, que se tinham beijado na plataforma da nossa 
estao, com duas ou trs recomendaes, certos de se reverem dentro de alguns dias ou algumas semanas, mergulhados na estpida confiana humana, momentaneamente 
distrados de suas ocupaes habituais por essa partida, viram-se, de repente, irremediavelmente afastados, impedidos de se encontrarem ou de se comunicarem. Sim, 
porque as portas tinham sido fechadas algumas horas antes de ser publicado o decreto do prefeito e, naturalmente, era impossvel levar em conta os casos particulares. 
Pode dizer-se que essa invaso brutal da doena teve, como primeiro efeito, o de obrigar nossos concidados a agir como se no tivessem sentimentos individuais. 
Nas primeiras horas do dia em que o decreto entrou em vigor, a prefeitura foi invadida por uma multido de requerentes que, ao telefone ou junto aos funcionrios, 
expunham situaes igualmente interessantes e, ao mesmo tempo, igualmente impossveis de examinar. A bem da verdade, foram necessrios vrios dias para que nos dssemos 
conta de que nos encontrvamos numa situao sem compromissos e que as palavras "transigir", "favor", "exceo" j no tinham sentido.
          At mesmo a leve satisfao de escrever nos foi recusada. Por um lado, com efeito, a cidade j no estava ligada ao resto do pas pelos meios de comunicao 
habituais e, por outro, um novo decreto proibiu a troca de qualquer correspondncia, a fim de evitar que as cartas pudessem transformar-se em veculos de infeco. 
A princpio, alguns privilegiados puderam chegar s portas da cidade e entender-se com sentinelas dos postos de guarda que concordaram em facilitar a passagem de 
mensagens para o exterior. Isso era ainda nos primeiros dias da epidemia, em que os guardas achavam natural ceder a sentimentos de compaixo. No entanto, ao fim 
de algum tempo, quando os prprios guardas se convenceram realmente da gravidade da situao, recusaram-se a assumir responsabilidades cuja extenso no podiam prever. 
As comunicaes telefnicas interurbanas, autorizadas a princpio, provocaram tal congestionamento nas cabines pblicas e nas linhas, ;ue foram totalmente suspensas 
durante alguns dias e, depois, estritamente limitadas aos chamados casos urgentes, como morte, nascimento e casamento. Os telegramas tornaram-se, ento, nosso nico 
recurso. Seres ligados pela inteligncia, pelo corao e pela carne ficaram reduzidos a procurar os sinais dessa comunho antiga nas maisculas de um telegrama de 
dez palavras. E como, na realidade, as frmulas que se podem utilizar num telegrama se esgotam depressa, longas vidas em comum ou paixes dolorosas resumiram-se 
rapidamente numa troca peridica de frmulas feitas como "Estou bem. Penso em ti. Saudades".
          Alguns, contudo, obstinavam-se em escrever e, sem trgua, para se corresponder com o exterior, imaginavam estratagemas que acabavam sempre por se revelar 
ilusrios. Mesmo quando alguns dos meios que tnhamos imaginado obtinham xito, ficvamos sem sab-lo, por no recebermos qualquer resposta. Durante semanas ficamos, 
ento, reduzidos a recomear sempre a mesma carta, a copiar as mesmas informaes e os mesmos apelos, se bem que, depois de um certo tempo, as palavras de sangue, 
ditadas pelo corao, perdiam o seu sentido. Ento, ns as copivamos maquinalmente, tentando, por meio dessas frases mortais, dar sinais de nossa vida difcil. 
E, finalmente, a esse monlogo estril e teimoso, a essa conversa rida com uma parede, o apelo convencional do telegrama parecia-nos prefervel.
          Alis, alguns dias depois, quando se tornou evidente que ningum conseguiria sair da cidade, algum teve a ideia de perguntar se o regresso dos que haviam 
partido antes da epidemia podia ser autorizado. Depois de alguns dias de reflexo, a prefeitura respondeu afirmativamente. Mas logo estabeleceu que os repatriados 
no poderiam, em caso algum, voltar a sair da cidade e que, se eram livres para vir, no o seriam para tornar a partir. Algumas famlias, poucas alis, no levaram 
a situao a srio e, sobrepondo a qualquer prudncia o desejo de rever os parentes, convidaram estes ltimos a aproveitar a ocasio. No entanto, os prisioneiros 
da peste logo compreenderam o perigo a que expunham os parentes e resignaram-se a sofrer a separao. No momento mais grave da doena, s se viu um caso em que os 
sentimentos humanos foram mais fortes que o medo de uma morte torturada. Ao contrrio do que se poderia esperar, no eram dois amantes, que o amor atirava um para 
o outro, acima do sofrimento. Tratava-se apenas do velho Dr. Gastei e de sua mulher, casados h tantos anos. Alguns dias antes da epidemia, Mme Gastei dirigira-se 
a uma cidade vizinha. No eram sequer um desses casais que oferecem ao mundo o exemplo de uma felicidade invejvel, e o narrador est em condies de dizer que, 
segundo todas as probabilidades, esses esposos, at ento, no tinham a certeza de estarem satisfeitos com a sua unio. Mas essa separao brutal e prolongada os 
capacitara a afirmar que no conseguiam viver afastados um do outro e que, diante dessa verdade subitamente revelada, a peste era coisa sem importncia.
          Tratava-se de uma exceo. Na maioria dos casos, era evidente que a separao no devia cessar seno com a epidemia. E, para todos ns, o sentimento que 
fazia a nossa vida e que, no entanto, julgvamos conhecer bem (os naturais de Oran, como j foi dito, tm paixes simples), assumia um novo aspecto. Maridos e amantes 
que tinham a maior confiana nas companheiras revelavam-se ciumentos. Homens que se julgavam volveis no amor redescobriam-se constantes. Filhos que tinham vivido 
junto da me, mal olhando para ela, depositavam toda a preocupao e angstia numa ruga de seu rosto que lhe povoava a lembrana. Essa separao brutal, sem meio-termo, 
sem futuro previsvel, deixava-nos perturbados, incapazes de reagir contra a lembrana dessa presena, ainda to prxima e j to distante, que ocupava agora nossos 
dias. Na verdade, soframos duas vezes: o nosso sofrimento, em primeiro lugar, e em seguida, sofrimento que atribuamos aos ausentes: filho, esposa ou amante.
          Em outras circunstncias, alis, nossos concidados teriam encontrado uma soluo numa vida mais exterior ou mais ativa. Mas, ao mesmo tempo, a peste deixava-os 
ociosos, reduzidos a vagar sem destino pela cidade triste e entregues, dia aps dia, aos jogos enganosos da recordao, pois, nos seus passeios sem rumo, eram levados 
a passar sempre pelos mesmos caminhos e a maior parte das vezes, numa cidade to pequena, os caminhos eram precisamente os que, em outra poca, haviam percorrido 
com o ausente.
          Assim, a primeira coisa que a neste trouxe a nossos concidados foi o exlio. E o narrador est convencido de que pode escrever aqui, em nome de todos, 
o que ele prprio sentiu ento, j que o sentiu ao mesmo tempo que muitos dos nossos concidados. Sim, era realmente o sentimento do exlio esse vazio que trazamos 
constantemente em ns, essa emoo precisa, o desejo irracional de voltar atrs ou, pelo contrrio, de acelerar a marcha do tempo, essas flechas ardentes da 'memria. 
Se algumas vezes dvamos asas  imaginao e nos comprazamos em esperar pelo toque de campainha que anuncia o regresso, ou pelos passos familiares na escada; se, 
nesses momentos, consentamos em esquecer que os trens estavam imobilizados, se nos organizvamos para ficar em casa  hora em que normalmente um viajante podia 
ser trazido pelo expresso da tarde at nosso bairro, esses jogos obviamente podiam durar. Chegava sempre um momento em que nos dvamos conta claramente de que os 
trens no chegavam. Sabamos, ento, que nossa separao estava destinada a durar e que devamos tentar entender-nos com o tempo. A partir de ento, nos reintegrvamos, 
afinal,  nossa condio de prisioneiros, estvamos reduzidos ao nosso passado e, ainda que algum fosse tentado a viver no futuro, logo renunciava, ao experimentar 
as feridas que a imaginao finalmente inflige aos que nela confiam.
          Em particular, todos os nossos concidados se privaram muito depressa, mesmo em pblico, do hbito que porventura tivessem adquirido de calcular o prazo 
da sua separao. Por qu?  que, quando os mais pessimistas o tinham avaliado, por exemplo, em seis meses, quando haviam esgotado antecipadamente toda a amargura 
dos meses vindouros, e erguido, com grande esforo, a sua coragem ao nvel dessa prova, reunindo as ltimas foras para continuar sem vacilar  altura desse sofrimento, 
estirado numa to longa sequncia de'dias, ento, s vezes, um conhecido, um anncio de jornal, uma suspeita fugaz ou uma brusca clarividncia despertava a ideia 
de que, afinal, no havia razo para que a doena no durasse mais de seis meses, talvez um ano, ou mais.
          Nesse momento, o desmoronar da coragem, da vontade e da pacincia era to brusco, que lhes parecia que no poderiam jamais sair desse precipcio. Ento, 
restringiam-se a no pensar mais na libertao, a no se voltar para o futuro e a manter sempre, por assim dizer, os olhos baixos. Mas, naturalmente, essa prudncia, 
essa maneira de enganar a dor, baixar a guarda para recusar o combate, eram mal recompensadas. Ao mesmo tempo em que evitavam esse desmoronamento que no queriam 
por preo algum, privavam-se, na verdade, dos momentos bastante frequentes em que podiam esquecer a peste nas imagens de seu futuro reencontro. E assim encalhados 
a meia distncia entre esses abismos e esses cumes, mais flutuavam que viviam, abandonados a dias sem rumo e recordaes estreis, sombras errantes, incapazes de 
se fortalecer a no ser aceitando enraizar-se na terra de sua prpria dor.
          Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados, ou seja, viver com uma memria que no serve para nada. Esse 
prprio passado, sobre o qual refletiam sem cessar, tinha apenas o gosto do arrependimento. Na verdade, gostariam de poder acrescentar-lhe tudo quanto lamentavam 
no ter feito, quando ainda podiam faz-lo, junto a esse ou aquela que esperavam
          - assim como misturavam o ausente a todas as circunstncias de sua vida de prisioneiros, mesmo as relativamente felizes, e o resultado no podia satisfaz-los. 
Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro, parecamo-nos assim efetivamente com aqueles que a justia ou o dio humano fazem viver atrs 
das grades. Para terminar, o nico meio de escapar a essas frias insuportveis era, atravs da imaginao, recolocar em movimento os trens e encher as horas com 
os repetidos sons de uma campainha que, no entanto, se obstinava no silncio.
          Mas, se havia exlio, na maior parte dos casos era o exlio em casa. E, embora o narrador s tenha conhecido o exlio de todos, no deve esquecer aqueles, 
como o jornalista Rambert ou outros, para quem, pelo contrrio, as agruras da separao se intensificam, porque viajantes surpreendidos pela peste e retidos na cidade 
se encontravam afastados, ao mesmo tempo, do ente a que no podiam juntar-se e de seu prprio pas. No exlio geral, eram os mais exilados, pois se o tempo despertava 
neles, como em todos, a angstia que lhe  prpria, estavam tambm presos ao espao e chocavam-se sem cessar de encontro aos muros que separavam o seu refgio empestado 
da ptria perdida. Eram esses, sem dvida, que vamos vagando a todas as horas do dia pela cidade poeirenta, chamando em silncio pelas noites que s eles conheciam 
e pelas manhs de seu pas. Alimentavam ento a sua dor com sinais imponderveis e mensagens desconcertantes, como um voo de andorinha, um orvalho de poente ou os 
estranhos raios que o sol s vezes abandona nas ruas desertas. Fechavam os olhos sobre esse mundo exterior que pode sempre salvar de tudo, obstinados em acariciar 
suas quimeras demasiado reais e, em perseguir com todas as foras as imagens de uma terra em que uma certa luz, duas ou trs colinas, a rvore favorita e rosto de 
mulheres .compunham um ambiente para eles insubstituvel.
          Afinal, falemos mais expressamente dos amantes: so os de mdior interesse e deles o narrador est talvez mais habilitado a falar. Encontravam-se eles ainda 
atormentados por outras angstias, entre as quais  preciso assinalar o remorso. Essa situao, na verdade, permitia-lhes analisar o seu sentimento com uma espcie 
de objetivdade febril. E era raro que nessas ocasies suas prprias fraquezas no lhes aparecessem mais claramente. A primeira ocasio que encontravam para isso 
estava na dificuldade que tinham em imaginar com preciso os atos e os gestos do ausente. Lamentavam o desconhecimento de como empregava o seu tempo, acusavam-se 
de seu descuido em informar-se disso e de como haviam fingido acreditar que, para um ser que ama, o emprego do tempo do ser amado no  a fonte de todas as alegrias. 
Era-lhes fcil, a partir desse momento, recordar o seu amor e examinar-lhe as imperfeies. Em pocas normais, sabamos todos, conscientemente ou no, que no h 
amor que no se possa superar e aceitvamos, no entanto, com maior ou menor tranqilidade, que o nosso permanecesse medocre. Mas a recordao  mais exigente. E, 
muito logicamente, essa desgraa que nos vinha do exterior e que atingia toda uma cidade no nos trazia apenas um sofrimento injusto, com que teramos podido indignar-nos: 
levava-nos a incitar mais sofrimentos em ns mesmos, fazendonos, assim, consentir na dor. Essa era uma das maneiras que a doena tinha de desviar a ateno e de 
baralhar as cartas.
          Assim, cada um teve de aceitar viver o dia-a-dia, s, diante do cu. Esse abandono geral que podia, com o tempo, fortalecer o carter, comeava no entanto 
por torn-lo ftil. Para alguns de nossos concidados, por exemplo, eles eram 'ento submetidos a uma outra servido que os punha a servio do sol e da chuva. Ao 
v-los, parecia que recebiam pela primeira vez, diretamente, a impresso do tempo que fazia. Suas fisionomias alegravam-se  simples visita de uma luz dourada, enquanto 
os dias de chuva lhes punham um vu espesso sobre o rosto e os pensamentos. Haviam escapado h algumas semanas dessa fraqueza e dessa escravido absurdas porque 
no estavam ss diante do mundo e porque, numa certa medida, o ser que vivia com eles se colocava diante do seu universo. A partir desse instante, pelo contrrio, 
ficaram aparentemente entregues aos caprichos do cu, o que significa que sofreram e esperaram sem razo.
          Enfim, nesses extremos da solido ningum podia contar com o auxlio do vizinho, e cada um ficava s com sua preocupao. Se algum, por acaso, tentava 
fazer confidncias ou dizer alguma coisa do seu sentimento, a resposta que recebia, qualquer que fosse, magoava na maior parte das vezes. Compreendia ento que ele 
e o interlocutor no falavam da mesma coisa. com efeito, ele se exprimia do fundo de longos dias de ruminao e de sofrimentos, e a imagem que queria transmitir 
ardera muito tempo no fogo da espera e da paixo. O outro, pelo contrrio, imaginava uma emoo convencional, a dor que se vende nos mercados, uma melancolia em 
srie. Amvel ou hostil, a resposta caa sempre no vazio, era preciso renunciar a ela. Ou, pelo menos, para aqueles a quem o silncio era insuportvel, j que os 
outros no conseguiam encontrar a verdadeira linguagem do corao, resignavam-se a adotar a lngua dos mercados e a falar, tambm eles, de maneira convencional, 
a do simples relato e do noticirio, da crnica cotidiana, de certo modo. Ainda nesse caso, as dores mais verdadeiras adquiriram o hbito de se traduzir em frmulas 
banais de conversao. S por esse preo podiam os prisioneiros da peste obter a compaixo dos porteiros ou o interesse dos ouvintes.
          Entretanto, e o que  mais importante, por mais dolorosas que fossem essas angstias, por mais pesado que estivesse esse corao, apesar de vazio, pode-se 
dizer efetivamente que esses exilados, no primeiro perodo da peste, foram privilegiados. Na verdade, no prprio momento em que a populao comeava a afligir-se, 
seu pensamento estava inteiramente voltado para o ser que esperavam. No desespero geral, o egosmo do amor os preservava e, se pensavam na peste, era apenas na medida 
em que ela trazia  sua separao o risco de se tornar eterna. Tinham, no meio da epidemia, uma distrao salutar que se era tentado a considerar como sangue-frio. 
O desespero salvava-os do pnico, havia algo de bom na sua desgraa. Por exemplo, se acontecia que um deles fosse levado pela doena, era quase sempre sem que tivesse 
tido tempo de se precaver contra isso. Arrancado a essa longa conversa interior que mantinha com uma sombra, era ento lanado, sem transio, para o mais espesso 
silncio da terra. No tivera tempo para nada.
          Enquanto nossos concidados tentavam acomodar-se a esse sbito exlio, a peste colocava guardas s portas e desviava os navios que faziam rota para Oran. 
Depois do fechamento das portas, nem um nico veculo entrara na cidade. A partir desse dia, teve-se a impresso de que os automveis andavam sempre em crculos. 
O porto apresentava tambm um aspecto singular para aqueles que o olhavam do alto das avenidas. A animao habitual que o tornava um dos primeiros portos da costa 
extinguira-se bruscamente. Viam-se ainda alguns navios, mantidos em quarentena. Mas nos cais, grandes guindastes desarmados, pequenos vages deitados de lado, as 
pilhas solitrias de barris ou de sacos testemunhavam que tambm o comrcio tinha morrido de peste.
          Apesar desses espetculos inditos, parece que nossos concidados tinham dificuldade em compreender o que lhes acontecia. Havia os sentimentos comuns, 
como a separao ou o medo, mas continuavam a colocar em primeiro plano as preocupaes pessoais. Ningum aceitara ainda verdadeiramente a doena. A maior parte 
era sobretudo sensvel ao que perturbava seus hbitos ou atingia seus interesses. Impacientavam-se, irritavam-se, e esses no so sentimentos que se possam contrapor 
 peste. A primeira reao, por exemplo, era culpar as autoridades. A resposta do prefeito, diante das crticas de que a imprensa se fazia eco - "No se poderiam 
propor medidas mais flexveis que as adotadas?" - foi bastante imprevista. At ento nem os jornais nem a Agncia Ransdoc tinham recebido qualquer estatstica oficial 
sobre a doena. O prefeito passou a comunic-la, diariamente,  agncia, pedindo-lhe a publicao de uma nota semanal.
          Mesmo nesse caso, contudo, a reao do pblico no foi imediata. Na verdade, o anncio de que a terceira semana de peste somava trezentos e dois mortos 
no falava  imaginao. Por um lado, talvez nem todos tivessem morrido de peste. Por outro lado, ningum na cidade sabia quantas pessoas morriam por semana em tempos 
normais. A cidade tinha duzentos mil habitantes. Ignorava-se se essa proporo de bitos era normal.  esse o gnero de detalhes com que nunca nos preocupamos, apesar 
do interesse evidente que apresentam. Ao pblico faltavam, de algum modo, pontos de referenciai Foi s com o tempo, ao constatar o aumento das mortes, que a opinio 
pblica tomou conscincia da verdade. com efeito, a quinta semana deu trezentos e vinte e um mortos e a sexta, trezentos e quarenta e cinco. O aumento, pelo menos, 
era eloquente. Mas no era bastante forte para impedir que nossos concidados, em meio  sua inquietao, tivessem a impresso de que se tratava de um acidente, 
sem dvida desagradvel, mas, apesar de tudo, temporrio.
          Continuavam assim a circular nas ruas e a sentar-se s mesas dos cafs. No conjunto, no eram covardes, trocavam mais gracejos que lamrias e aparentavam 
aceitar com bom humor inconvenientes evidentemente passageiros. As aparncias estavam salvas. No fim do ms, no entanto, mais ou menos durante a semana de preces 
de que se falar mais adiante, transformaes mais graves modificaram o aspecto da nossa cidade. Para comear, o prefeito tomou medidas relativas  circulao dos 
veculos e ao abastecimento. Este foi limitado e a gasolina, racionada. Prescreveu-se at a economia de eletricidade. S os produtos indispensveis chegavam por 
terra e pelo ar a Oran. Foi assim que se viu o trnsito diminuir progressivamente, at ficar quase nulo, as lojas de luxo fecharem de um dia para o outro, outras 
guarnecerem as vitrines com cartazes negativos, enquanto filas de compradores se formavam diante de suas portas.
          Oran assumiu assim um aspecto singular. O nmero de pedestres tornou-se mais considervel e, at nas horas mortas, muitas pessoas, reduzidas  inao pelo 
fechamento dos armazns ou de certos escritrios, enchiam as ruas e os cafs. Por ora, no estavam ainda desempregadas, mas de licena. Oran dava ento, por volta 
das trs horas da tarde, por exemplo, e sob um belo cu, a impresso ilusria de uma cidade em festa, cujo trnsito e comrcio tivessem sido fechados para permitir 
a realizao de uma manifestao pblica e cujos habitantes tivessem invadido as ruas para participar do regozijo.
          Naturalmente, os cinemas se aproveitavam dessas frias generalizadas e faziam um bom negcio. Mas os circuitos que os filmes cumpriam normalmente eram 
interrompidos. Ao fim de duas semanas, os cinemas foram obrigados a trocar os programas e, algum tempo depois, acabavam projetando sempre o mesmo filme. Suas receitas 
contudo no diminuam.
          Finalmente os cafs, graas ao considervel estoque a :umulado numa cidade onde o comrcio de vinhos e lcool ocupa o primeiro lugar, puderam igualmente 
servir os clientes. A bem da verdade, bebia-se muito. Como um caf tivesse anunciado que "quem vinho bebe, mata a febre", a ideia, j natural no pblico, de que 
o lcool evitava doenas infecciosas reforou-se na opinio geral. Todas as noites, por volta de dez horas, um nmero considervel de bbados expulsos dos cafs 
enchia as ruas, espalhando afirmaes otimistas.
          Todas essas modificaes porm, em certo sentido, eram to extraordinrias e tinham-se realizado to rapidamente, que no era fcil consider-las normais 
e duradouras. O resultado era que continuvamos a colocar em primeiro lugar nossos sentimentos pessoais.
          Ao sair do hospital, dois dias depois de fechadas as portas, o Dr. Rieux encontrou Cottard, que levantou para ele um rosto que era a prpria imagem da 
satisfao. Rieux felicitou-o pela aparncia.
          - Sim, as coisas vo muito bem - respondeu o homenzinho. - Diga-me, doutor, e essa maldita peste, hem? A coisa est comeando a ficar sria.
          O mdico concordou. E o outro acrescentou, com uma espcie de prazer:
          - Agora no h razo para que ela pare. Vai ficar tudo de pernas para o ar.
          Caminharam um momento juntos. Cottard contou que um grande merceeiro do seu bairro armazenara gneros alimentcios para vend-los mais caro, e que tinham 
encontrado latas de conservas debaixo da cama quando foram busc-lo para lev-lo ao hospital. "Morreu l. A peste no compensa." Cottard estava assim, cheio de histrias, 
falsas ou verdadeiras, sobre a epidemia. Por exemplo, dizia-se que, no centro, certa manh, um homem que apresentava os sinais da peste, no delrio da doena, tinha-se 
precipitado para a rua, atirando-se sobre a primeira mulher que encontrara, abraando-a, enquanto gritava que contrara a peste.
          - Bem - observava Cottard, num tom amvel que no combinava com sua afirmao -, vamos todos ficar loucos, com toda a certeza.
          Da mesma forma, na tarde do mesmo dia, Joseph Grand acabara fazendo confidncias pessoais ao Dr. Rieux. Vira a fotografia da Sra. Rieux em cima da mesa 
e olhara para o mdico. Rieux respondeu que sua mulher estava se tratando fora da cidade. "Em certo sentido", dissera Grand, " uma sorte." O mdico respondeu que 
sem dvida era uma sorte e que era apenas necessrio ter esperana de que sua mulher se curasse.
          - Ah! - exclamou Grand. - Compreendo.
          E, pela primeira vez desde que Rieux o conhecia, ps-se a falar com exuberncia. Embora procurasse ainda as palavras, conseguia quase sempre encontr-las, 
como se tivesse pensado h muito no que estava dizendo.
          Tinha-se casado muito jovem com uma moa pobre da vizinhana. Fora justamente para se casar que interrompera os estudos e arranjara um emprego. Jeanne 
e ele nunca saam do bairro. Ia v-la em casa, e os pais de Jeanne riam-se um pouco desse pretendente silencioso e desajeitado. O pai era ferrovirio. Quando estava 
de folga, viam-no sempre sentado a um canto, perto da janela, pensativo, olhando o movimento da rua, com as mos enormes pousadas nas coxas. A me cuidava sempre 
da casa e Jeanne ajudava. Era to pequena, que Grand no podia v-la atravessar uma rua sem sentir angstia. Os veculos pareciam-lhe, ento, desproporcionados. 
Um dia, diante de uma loja enfeitada para o Natal, Jeanne, que olhava a vitrine, maravilhada, voltara-se para ele, dizendo: "Como  bonito". Ele apertara-lhe o pulso. 
Foi assim que o casamento foi decidido.
          O resto da histria, segundo Grand, era muito simples.  o mesmo para todos: a gente se casa, ama ainda um pouco, trabalha. Trabalha tanto que se esquece 
de amar. Jeanne trabalhava tambm, j que as promessas do chefe da repartio no tinham sido cumpridas. Aqui, era preciso um pouco de imaginao para compreender 
o que Grand queria dizer. com a ajuda do cansao, ele deixara correr as coisas, tinha-se calado cada vez mais e no cultivava na jovem mulher a ideia de que era 
amada. Um homem que trabalha, a pobreza, o futuro lentamente fechado, o silncio das tardes em redor da mesa - no h lugar para a paixo num tal universo. Provavelmente, 
Jeanne tinha sofrido. Contudo, ficara: acontece que se sofre muito tempo sem saber. Os anos tinham passado. Mais tarde, ela partira. Na verdade, no partira s. 
"Gostei muito de voc, mas agora estou cansada. . . No me sinto feliz por partir, mas no  necessrio ser feliz para recomear." Eis, em resumo, o que ela lhe 
escrevera.
          Joseph Grand, por sua vez, tinha sofrido. Teria podido recomear, como observou Rieux. Mas faltava-lhe f.
          Simplesmente, continuava a pensar nela. O que teria desejado seria escrever-lhe uma carta para se justificar. "Mas  difcil", dizia. "H muito tempo que 
penso nisso. Enquanto somos amados, somos compreendidos sem palavras. -Mas uma pessoa no ama sempre. Em dado momento, eu devia ter encontrado palavras para ret-la, 
mas no consegui." Grand assoava-se numa espcie de guardanapo xadrez. Depois, limpou o bigode. Rieux o observava.
          - Desculpe, doutor - disse o velho -, mas como dizer? Tenho confiana no senhor. Sinto que posso falar. De modo que isso me comove.
          Visivelmente, Grand estava a mil lguas da peste.
           noite, Rieux telegrafou para a mulher a fim de dizerlhe que a cidade estava fechada, que ele estava bem, que ela devia continuar a tratar-se e que pensava 
nela.
          Trs semanas depois de a cidade ser fechada, Rieux encontrou, ao sair do hospital, um jovem que o esperava.
          - Suponho - disse-lhe este ltimo - que se lembra de mim. - Rieux julgava conhec-lo, mas hesitava. - Antes desses acontecimentos - esclareceu o outro 
- vim pedir-lhe informaes sobre as condies de vida dos rabes. Chamo-me Raymond Rambert.
          - Ah, sim - respondeu Rieux. - Bem, agora tem um belo assunto de reportagem.
          O outro parecia nervoso. Informou que no se tratava disso e que vinha pedir auxlio ao Dr. Rieux.
          - Desculpe - acrescentou -, mas no conheo ningum nesta cidade e o correspondente do meu jornal tem a infelicidade de ser imbecil.
          Rieux props-lhe caminharem at o dispensrio do centro, pois tinha algumas ordens a dar. Desceram as ruelas do bairro negro. A noite se aproximava, mas 
a cidade, antes to barulhenta a essa hora, parecia curiosamente solitria. Alguns toques de clarim no cu ainda dourado testemunhavam apenas que os militares se 
davam ares de cumprir o dever. Durante esse tempo, ao longo das ruas ngremes, entre os muros axuis, cor de ocre ou roxos das casas mouriscas, Rambert falava, muito 
agitado. Deixara a mulher em Paris. Para dizer a verdade, no era sua mulher, mas era a mesma coisa. Telegrafara-lhe logo que a cidade foi fechada. Pensara, primeiro, 
que se tratava de um acontecimento provisrio e procurara apenas corresponder-se com ela. Os colegas de Oran tinham-lhe dito que nada podiam fazer, os correios tinham-no 
mandado voltar da porta, um secretrio da prefeitura rira-se na sua cara. Depois de esperar duas horas numa fila, acabara fazendo com que aceitassem mandar um telegrama, 
onde tinham escrito: "Tudo vai bem. At breve".
          Mas de manh, ao levantar-se, viera-lhe bruscamente o pensamento de que afinal no sabia quanto tempo aquilo podia durar. Decidira partir. Como era recomendado 
(na sua profisso, tem-se certas facilidades), conseguira falar com o chefe do gabinete do prefeito e dissera-lhe que no tinha nenhuma ligao com Oran, que no 
tinha nada que ficar, que se encontrava l por acaso e que era justo que o deixassem ir embora, ainda que, uma vez l fora, o obrigassem a fazer uma quarentena. 
O chefe do gabinete respondera-lhe que compreendia muito bem, mas no podiam abrir excees, ia ver, mas que, em resumo, a situao era grave e no podia decidir 
nada.
          - Mas, afinal - dissera Rambert -, eu sou um estranho nesta cidade.
          - Sem dvida, mas, apesar de tudo, esperemos que a epidemia no dure muito.
          Para concluir, tinha tentado consolar Rambert, observando que podia encontrar em Oran matria para uma reportagem interessante e que todo acontecimento 
tinha o seu lado bom. Rambert encolhia os ombros. Chegavam ao centro da cidade.
          -  uma estupidez, doutor, compreenda. Eu no vim ao mundo para fazer reportagens. Mas talvez tenha vindo ao mundo para viver com uma mulher. No  a ordem 
natural das coisas?
          Rieux respondeu que pelo menos isso lhe parecia razovel.
          Nas ruas do centro no havia a multido habitual. Alguns transeuntes dirigiam-se apressadamente para suas casas distantes. Nenhum sorria. Rieux pensou 
que era o resultado da comunicao que a Ransdoc fizera nesse dia. Ao fim de vinte e quatro horas, nossos concidados recomeavam a ter esperana. Nesse mesmo dia, 
porm, os nmeros estavam ainda muito frescos na memria.
          -  que - disse Rambert sem mais nem menos eu e ela encontramo-nos h pouco e entendemo-nos muito bem.
          Rieux no dizia nada.
          - Mas eu o estou amolando - continuou Rambert.
          - Queria apenas perguntar-lhe se podia passar-me um atestado, em que se afirmasse que no tenho essa maldita doena. Creio que isso me seria til.
          Rieux acenou afirmativamente com a cabea, agarrou um rapazinho que se atirava nas suas pernas e recolocou-o suavemente de p. Partiram de novo e chegaram 
 Place d'Armes. Os ramos de fcus e das palmeiras pendiam, imveis, cinzentos de poeira,  volta de uma esttua da Repblica empoeirada e suja. Rieux bateu no cho 
os ps cobertos de uma camada esbranquiada. Olhou para Rambert. com o chapu ligeiramente para trs, o colarinho desabotoado debaixo da gravata, mal-barbeado, o 
jornalista tinha um ar teimoso e irritado.
          - Pode ter certeza de que o compreendo - disse por fim Rieux -, mas seu raciocnio no  correto. No posso passar-lhe o atestado, pois, na verdade, ignoro 
se o senhor tem ou no essa doena, e porque, mesmo nesse caso, no posso atestar que entre o segundo em que sair do meu consultrio e aquele em que entrar na prefeitura, 
no a tenha contrado. E ainda que. . .
          - E ainda que...? - interrompeu Rambert.
          - Ainda que eu lhe desse esse atestado, ele no lhe serviria para nada.
          - Por qu?
          - Porque h na cidade milhares de homens na sua situao que no podem, apesar de tudo, ser autorizados a sair.
          - Mas e se eles no tiverem a peste?
          - No  razo suficiente. Essa histria  tola, bem sei, mas diz respeito a todos.  preciso aceit-la como .
          - Mas no sou daqui!
          - A partir de agora, infelizmente, ser daqui, eximo todo mundo.
          O outro animava-se.
          -  uma questo de humanidade, juro. Talvez no compreenda o que significa uma separao como esta para duas pessoas que se entendem bem.
          Rieux no respondeu imediatamente. Depois disse que julgava compreender. com todas as suas foras, desejava que Rambert voltasse e reencontrasse a mulher 
e que todos os que se amavam se reunissem, mas havia decretos e leis, havia a peste e o seu papel era fazer o que era necessrio.
          - No - insistiu Rambert, com amargura -, o senhor no pode compreender. O senhor fala a linguagem da razo, fala de modo abstrato.
          O mdico levantou os olhos para a esttua da Repblica e esclareceu que no sabia se falava a linguagem da razo, mas que falava a linguagem da evidncia, 
o que no era obrigatoriamente a mesma coisa. O jornalista ajeitou a gravata.
          - Ento isso significa que tenho de arranjar-me de outra maneira? Mas - prosseguiu com uma espcie de desafio - vou deixar esta cidade.
          O mdico respondeu-lhe que o compreendia ainda, mas que no tinha nada com isso.
          - Sim, tem - afirmou Rambert, com um sbito lampejo. - Dirigi-me ao senhor porque me disseram que tinha um papel importante nas decises tomadas. Pensei 
ento que, ao menos em um caso, o senhor poderia desfazer o que fora feito com sua contribuio. Mas isso lhe  indiferente. No pensou em ningum. No levou em 
conta os que estavam separados.
          Rieux reconheceu que, em certo sentido, isso era verdade, que no quisera lev-lo em conta.
          - Ah! Compreendo - respondeu Rambert. - Vai falar do servio pblico. Mas o interesse pblico  feito da felicidade de cada um.
          - Vamos - disse o mdico, que parecia sair de um devaneio. - No  s isso. No se deve julgar ningum. Mas o senhor no tem razo em se zangar. Se puder 
encontrar uma soluo, ficarei profundamente feliz. Simplesmente, h coisas que minhas funes me probem de fazer.
          O outro abanou a cabea com impacincia.
          - Sim, fao mal em me zangar. E roubei-lhe muito tempo.
          Rieux pediu-lhe que o mantivesse a par das suas providncias e que no lhe guardasse rancor. Havia, certamente, um plano em que podiam encontrar-se. Rambert 
pareceu subitamente perplexo.
          - Acho que sim - murmurou, depois de um silncio. - Sim, apesar de tudo o que me disse. - Hesitou. Mas no posso concordar com o senhor.
          Puxou o chapu para a testa e partiu com um passo rpido. Rieux viu-o entrar no hotel onde vivia Jean Tarrou.
          Logo depois, o mdico abanou a cabea. O jornalista tinha razo na sua impacincia de felicidade. Mas teria razo quando o acusava? "O senhor vive na abstraco." 
Eram realmente abstraco esses dias passados no hospital, onde a peste se saciava em dobro, elevando a quinhentas a mdia de vtimas por semana? Sim, havia na desgraa 
uma parte -y) de abstraco e de irrealidade. Mas quando a abstrao comea a matar-nos,  necessrio que nos ocupemos da abstraco. E Rieux sabia apenas que isso 
era o mais fcil. No era fcil, por exemplo, dirigir-se a esse hospital auxiliar - e agora havia trs - de que estava encarregado. Improvisara, num cmodo que dava 
para o consultrio, uma sala de recepo. O solo cavado formava um lago de gua com creolina, no centro do qual se encontrava uma ilhota de tijolos. O doente era 
transportado para sua ilha, despido rapidamente e as roupas caam na gua. Lavado, enxuto, coberto com a camisa spera do hospital, passava s mos de Rieux, sendo 
depois transportado para uma das salas. Tinham sido obrigados a utilizar os ptios cobertos de. uma escola, que continha agora, ao todo, quinhentos leitos, a maioria 
dos quais ocupados. Depois da recepo da manh que ele prprio dirigia, vacinados os doentes, abertos os abscessos, Rieux verificava mais uma vez a estatstica 
e voltava s consultas da tarde.  noite, enfim, fazia visitas e voltava para casa muito tarde. Na noite anterior sua me observara, ao entregar-lhe um telegrama 
da jovem Mme Rieux, que as mos do filho tremiam.
          - Sim - dissera ele. - Mas com a continuao, ficarei menos nervoso.
          Era vigoroso e resistente. Na realidade, no estava ainda cansado. Mas suas visitas, por exemplo, se tornavam insuportveis. Diagnosticar a febre epidmica 
equivalia a mandar retirar rapidamente o doente. Ento comeavam, na verdade, a abstrao e a dificuldade, pois a famlia do doente sabia que s voltaria a v-lo 
curado ou morto. "Piedade, doutor!", dizia a Sra. Loret, me da empregada que trabalhava no hotel de Tarrou. Que significava isso?  evidente que ele- tinha piedade. 
Mas isso no adiantava nada. Era preciso telefonar. Logo se ouvia ressoar a sirene da ambulncia. No incio, os vizinhos abriam as janelas e olhavam. Mais tarde, 
fechavam-nas precipitadamente. Comeavam ento as lutas, as lgrimas, a persuaso, em suma, a abstrao. Nessas casas superaquecidas pela febre e pela angstia desenrolavam-se 
cenas de loucura. Mas o doente era levado. Rieux podia partir.
          Das primeiras vezes tinha-se limitado a telefonar e a sair para atender outros doentes, sem esperar a ambulncia. Mas os parentes fechavam ento a porta, 
preferindo a convivncia com a peste a uma separao cujo resultado agora conheciam. Gritos, investidas, intervenes da polcia e, mais tarde, das foras armadas, 
e o doente era tomado de assalto. Durante as primeiras semanas, Rieux fora obrigado a esperar at a chegada da ambulncia. Depois, quando cada mdico passou a ser 
acompanhado por um inspetor voluntrio, Rieux pde correr de um doente para outro. No incio, porm, todas as noites foram corno essa em que, tendo entrado em casa 
da Sra. Loret, um pequeno apartamento decorado com leques e flores artificiais, foi recebido pela me, que lhe disse com um sorriso maldesenhado:
          - Espero que no seja essa febre de que todos falam.
          E ele, levantando o lenol e a camisa, contemplando em silncio as manchas vermelhas sobre o ventre e as coxas, a inchao dos gnglios. A me olhava para 
as pernas da filha e, sem poder dominar-se, gritava. Todas as noites as mes gritavam assim, com um ar abstrato, diante de ventres expostos com todos os sintomas 
mortais, todas as noites braos se agarravam aos de Rieux, palavras inteis, promessas e prantos se precipitavam, todas as noites as sirenes das ambulncias desencadeavam 
crises to vs quanto qualquer dor. E, ao fim de toda essa longa srie de noites sempre semelhantes, Rieux s podia esperar por uma longa srie de cenas iguais, 
indefinidamente renovadas. Sim, a peste, como abstrao, era montona. Uma nica coisa talvez mudava o prprio Rieux. Sentia-o nessa noite, junto ao monumento  
Repblica, apenas consciente da indiferena que comeava a invadi-lo, sem tirar os olhos da porta do hotel por onde Rambert desaparecera.
          Ao final dessas semanas estafantes, depois de todos esses crepsculos em que a cidade saa para as ruas para dar voltas sem rumo, Rieux compreendia que 
j no precisava defender-se contra a piedade. As pessoas cansam-se da piedade quando ela  intil. E na conscincia desse corao lentamente fechado sobre si prprio, 
o mdico encontrava o nico lenitivo desses dias esmagadores. Sabia que sua tarefa seria facilitada. Por isso se alegrava. Quando a me, recebendo-o s duas da madrugada, 
se afligia com o olhar vazio que pousava sobre ela, deplorava precisamente o nico enternecimento que Rieux podia ento encontrar. Para lutar contra a abstrao, 
 preciso assemelhar-se um pouco a ela. Mas podia isso ser sensvel a Rambert? A abstrao, para Rambert, era tudo o que se opunha  sua felicidade. E na verdade, 
Rieux sabia que o jornalista, at certo ponto, tinha razo. Mas sabia tambm que chega o momento em que a abstrao se mostra mais forte que a felicidade e que  
preciso ento, e s ento, lev-la em considerao. Era o que devia acontecer a Rambert, e o mdico pde sab-lo em pormenores pelas confidncias que o jornalista 
lhe fez posteriormente. Pde assim seguir, num novo plano, essa espcie de luta enfadonha entre a felicidade de cada homem e as abstraes da peste que constituiu 
toda a vida da nossa cidade durante esse longo perodo.
          No entanto, onde uns viam a abstrao, outros viam a verdade. De fato, o fim do primeiro ms de peste foi obscurecido por uma recrudescncia acentuada 
da epidemia e um sermo veemente do Padre Paneloux, o jesuta que assistira o velho Michel no princpio da doena. O Padre Paneloux j se havia distinguido por colaboraes 
frequentes no boletim da Sociedade de Geografia de Oran, onde suas reconstituies epigrficas constituam autoridade. Mas conquistara um auditrio mais vasto que 
o de um especialista ao fazer uma srie de conferncias sobre o individualismo moderno. Mostrara-se, ento, defensor ardoroso de um cristianismo exigente, igualmente 
distanciado da libertinagem moderna e do obscurantismo dos sculos passados. Nessa ocasio no poupara duras verdades ao seu auditrio. Da sua reputao.
          Ora, por volta do fim do ms, as autoridades eclesisticas da nossa cidade decidiram lutar contra a peste com seus prprios meios, organizando uma semana 
de preces coletivas. Essas manifestaes da devoo pblica deviam terminar no domingo com uma missa solene, sob a invocao de So Roque, o santo atacado pela peste. 
Nessa ocasio, tinham dado a palavra ao Padre Paneloux. H uns quinze dias que este abandonara seus trabalhos sobre Santo Agostinho e a Igreja africana, que lhe 
haviam granjeado um lugar  parte na sua ordem. De temperamento fogoso e apaixonado, aceitara com determinao a misso de que o encarregavam. Muito antes desse 
sermo, j se falava dele na cidade e ele marcou,  sua maneira, uma data importante na histria desse perodo.
          A semana de preces foi seguida por um pblico numeroso. No que em tempos normais os habitantes de Oran sejam particularmente piedosos. No domingo de manh, 
por exemplo, os banhos de mar fazem sria concorrncia  missa. Tampouco foram iluminados por uma sbita converso. Mas, por um lado, com a cidade fechada e o porto 
interditado, os banhos no eram possveis e, por outro lado, encontravam-se num estado de esprito bem singular em que, sem terem admitido no fundo de si prprios 
os acontecimentos surpreendentes que os atingiam, sentiam efetivamente que algo,  bvio, mudara. No entanto, muitos continuavam a esperar que a epidemia parasse 
e que eles fossem poupados, com suas famlias. Por conseguinte, no se sentiam ainda obrigados a nada. A peste nada mais era para eles do que uma visita desagradvel 
que havia de partir um dia, j que tinha vindo. Assustados, mas no desesperados, no chegara ainda o momento em que a peste lhes surgiria como a prpria forma de 
sua vida e em que esqueceriam a existncia que at agora tinham podido levar. Em suma, estavam na expectativa. No que se refere  religio, como a muitos outros 
problemas, a peste tinha-lhes dado uma singular disposio de esprito, to afastada da indiferena como da paixo, que podia definir-se pela palavra "objetividade". 
A maior parte dos que seguiram a semana de preces poderia ter feito sua a frase que um dos fiis havia proferido diante do Dr. Reux: "De qualquer maneira, mal no 
pode fazer". O prprio Tarrou, depois de ter anotado em seus cadernos que os chineses, em casos semelhantes, vo tocar tambor diante do gnio da peste, observava 
que era absolutamente impossvel saber se, na realidade, o instrumento se mostrava mais eficaz que as medidas profilticas. Acrescentava, apenas, que para decidir 
a questo seria preciso estar informado sobre a existncia de um gnio da peste e que a nossa ignorncia sobre esse ponto tornava estreis todas as opinies que 
se pudessem ter.
          De qualquer modo, a catedral de nossa cidade esteve quase cheia de fiis durante toda a semana. Nos primeiros dias, muitos habitantes ficavam ainda nos 
jardins de palmeiras e romzeiras que se estendem diante do prtico para ouvir a mar de invocaes e de preces que refluam at as ruas. Pouco a pouco, com o auxlio 
do exemplo, os mesmos ouvintes decidiram-se a entrar e a mesclar uma voz tmida aos responsos da assistncia. E, no domingo, uma multido considervel invadiu a 
nave, transbordando at o adro e os ltimos degraus da escadaria. Desde a vspera, o cu tinha-se toldado, a chuva caa pesadamente. Os que estavam do lado de fora 
tinham aberto os guarda-chuvas. Um cheiro de incenso e de molhado flutuava na catedral quando o Padre Paneloux subiu ao plpito.
          Era de estatura mediana, mas robusto. Quando se apoiou ao rebordo do plpito, apertando a madeira entre as mos grandes, no se via nele seno uma forma 
espessa e negra, encimada pelas manchas de duas faces rubicundas sob os culos de metal. Tinha uma voz forte, apaixonada, que alcanava longe, e quando atacou a 
assistncia com uma nica frase veemente e martelada: "Irmos, castes em desgraa, irmos, vs o merecestes", a assistncia se tumultuou.
          Logicamente, o que se seguiu no parecia estar de acordo com esse exrdio pattico. S a sequncia do discurso fez compreender aos nossos concidados que, 
por um hbil processo oratrio, o padre tinha dado de uma s vez, como um golpe que se desfecha, o tema de todo o seu sermo. Logo depois dessa frase, Paneloux citou 
o texto do xodo relativo  peste do Egito e disse: "A primeira vez em que esse flagelo aparece na histria  para atacar os inimigos de Deus. O fara ope-se aos 
desgnios eternos, e a peste o faz ento cair de joelhos. Desde o princpio de toda a histria, o flagelo de Deus pe a seus ps os orgulhosos e os cegos. Meditai 
sobre isso e ca de joelhos".
          A chuva redobrava l fora e esta ltima frase pronunciada no meio de um silncio absoluto, que se tornou ainda mais profundo pelo crepitar da tempestade 
sobre os vitrais, ressoou com tal inflexo, que alguns ouvintes, depois de um segundo de hesitao, deixaram-se deslizar da cadeira para o genuflexrio. Outros julgaram 
que era necessrio seguir o exemplo, de tal modo que, de vizinho a vizinho, sem outro rudo que no fosse o ranger de alguma cadeira, todo o auditrio se encontrou 
logo ajoelhado. Paneloux endireitou-se ento, respirou profundamente e continuou, num tom mais veemente: "Se hoje a peste vos olha,  porque chegou o momento de 
refletir. Os justos no podem tem-la, mas os maus tm razo para tremer. Na imensa granja do universo, o flagelo implacvel bater o trigo humano at que o joio 
se separe do trigo. Haver mais joio que trigo, mais chamados que eleitos e essa desgraa no foi desejada por Deus. Por longo tempo, este mundo compactuou com o 
mal, repousou na misericrdia divina. Bastava arrepender-se, tudo era permitido. E para se arrependerem, todos se sentiam fortes. Chegado o momento, o arrependimento 
viria por certo. At l, o mais fcil era deixar-se levar, a misericrdia divina faria o resto. Pois bem! Isso no podia durar. Deus, que durante tanto tempo baixou 
sobre os homens desta cidade seu rosto de piedade, cansado de esperar, desiludido na sua eterna esperana, acabara de afastar o olhar. Privados da luz de Deus, eis-nos 
por muito tempo nas trevas da peste!"
          Na sala, algum resfolegou como um cavalo impaciente. Depois de uma curta pausa, o padre continuou, num tom mais baixo: "L-se na Legende dore que no 
tempo do Rei Humberto, na Lombardia, a Itlia foi devastada por uma peste to violenta que os vivos mal chegavam para enterrar os mortos. Essa peste castigava sobretudo 
Roma e Pavia. E um anjo bom apareceu nitidamente dando ordens ao anjo mau, que trazia uma lana de caa, ordenando-lhe que batesse nas casas. E tantas vezes quantas 
uma casa recebia pancadas, tantos mortos havia que dela saam".
          Paneloux estendeu aqui os dois braos curtos na direo do adro, como se mostrasse alguma coisa por detrs da cortina mvel da chuva. "Meus irmos", disse 
com fora, " a mesma caada mortal que hoje prossegue nas nossas ruas. Vede-o, esse anjo da peste, belo como Lcifer e brilhante como o prprio mal, erguido acima 
dos vossos telhados, empunhando a lana vermelha  altura da cabea, designando com a mo esquerda uma de vossas casas. Nesse mesmo instante, talvez, o seu dedo 
se estende para a vossa porta, a lana ressoa sobre a madeira: mais um instante e a peste entra em vossa casa, senta-se no vosso quarto e espera o vosso regresso. 
Ela est l, paciente e atenta, segura como a prpria ordem do mundo. Essa mo que ela vos estender, nenhum poder humano, nem sequer, vede bem, a v cincia humana, 
pode fazer com que a eviteis. E, batidos na eira sangrenta da dor, sereis repelidos como a palha."
          Aqui, o padre retomou, com mais amplido ainda, a imagem pattica do flagelo. Evocou a imensa lana volteando por cima da cidade, atacando ao acaso e erguendo-se 
de novo, ensanguentada; espalhando, enfim, o sangue e a dor humana "para as sementeiras que preparariam as searas da verdade".
          Ao fim desse longo perodo, o Padre Paneloux parou, com os cabelos cados sobre a fronte, o corpo agitado por um tremor que as mos comunicavam ao plpito, 
e prosseguiu, mais surdamente mas em tom acusador: "Sim, chegou a hora de refletir. Pensastes que vos bastaria visitar Deus aos domingos para ficardes com vossos 
dias livres. Pensastes que algumas genuflexes bastariam para pagar vosso desleixo criminoso. Mas Deus no  fraco. Essas atenes espaadas no bastavam  sua ternura 
devoradora. Ele queria ver-vos mais tempo,  a sua maneira de vos amar que , a bem dizer, a nica maneira de amar. Eis por que, cansado de esperar vossa vinda, 
deixou que o flagelo vos visitasse, corn~. visitou todas as cidades do pecado desde que os horns tm histria. Sabeis agora o que  o pecado, como o souberam Caim 
e seus filhos, os de antes do Dilvio, os de Sodoma e Gomorra, o fara e J e tambm todos os malditos. E, como esses o fizeram,  um olhar novo que lanais sobre 
os seres e as coisas, desde o dia em que esta cidade fechou seus muros em torno de vs e do flagelo. Sabeis agora, finalmente, que  preciso chegar ao essencial".
          Um vento mido infiltrava-se agora na nave e as chamas dos crios curvavam-se, crepitando. Um cheiro espesso de cera, tosses, um espirro chegaram at o 
Padre Paneloux, que, voltando  sua exposio com uma sutileza que foi muito apreciada, prosseguiu com voz calma: "Muitos dentre vs, bem o sei, perguntaram a si 
prprios aonde quero chegar. Quero fazer-vos chegar  verdade e ensinar-vos a vos regozijar, apesar de tudo o que vos disse. Passou o tempo em que os conselhos, 
uma mo fraterna eram os meios de vos guiar para o bem. Hoje, a verdade  uma ordem. E o caminho da salvao  uma lana vermelha que vos aponta e vos conduz.  
aqui, meus irmos, que se manifesta, enfim, a misericrdia divina que colocou em todas as coisas o bem e o mal, a clera e a piedade, a peste e a salvao. Este 
mesmo flagelo, que vos aflige, vos eleva e vos mostra o caminho. H muito tempo, os cristos da Abissnia viam na peste um meio eficaz, de origem divina, para alcanar 
a eternidade. Os que no eram atingidos enrolavam-se nas roupas contaminadas para terem a certeza de morrer. Sem dvida, essa fria de salvao no  recomendvel. 
Ela revela uma precipitao lamentvel, bem prxima do orgulho. No se deve ser mais apressado que Deus, e tudo o que pretende acelerar a ordem imutvel que Ele 
estabeleceu de uma vez para sempre conduz  heresia. Mas, ao menos, esse exemplo comporta uma lio. Para nossos espritos mais clarividentes, ele faz apenas valer 
esse claro sublime de eternidade que j az no fundo de todo sofrimento. Ele ilumina esse claro, os caminhos crepusculares que conduzem  libertao. Ele manifesta 
a vontade divina que, sem fraquejar, transforma o mal em bem. Hoje ainda, atravs dessa caminhada de morte, de angstias e de clamores, Ele nos guia para o silncio 
essencial e para o princpio de toda a vida. Eis, meus irmos, o imenso consolo que queria vos trazer para que no leveis daqui apenas palavras que castigam, mas 
tambm um verbo de paz".
          Sentia-se que o Padre Paneloux terminara. L fora a chuva havia cessado. Um cu mesclado de gua e de sol derramava sobre a praa uma luz mais brilhante. 
Da rua, chegavam rudos de vozes, o deslizar de veculos, toda a linguagem de uma cidade que desperta. Os ouvintes juntavam discretamente seus pertences, com um 
sussurro surdo. Entretanto, o padre retomou a palavra e disse que, depois de ter mostrado a origem divina da peste e o carter punitivo desse flagelo, tinha terminado 
e no faria apelo, para concluir, a uma eloquncia que seria inoportuna em matria to trgica. Parecia-lhe que tudo devia ser claro para todos. Lembrou apenas que, 
por ocasio da grande peste de Marselha, o cronista Mathieu Marais se queixara de estar mergulhado no inferno, vivendo assim sem socorro e sem esperana. Pois bem! 
Mathieu Marais era cego! Nunca, mais que hoje, pelo contrrio, o Padre Paneloux tinha sentido o socorro divino e a esperana crist que eram oferecidos a todos. 
Ele esperava, contra toda a esperana, que, a despeito do horror desses dias e dos gritos dos agonizantes, nossos concidados dirigissem ao cu a nica palavra que 
era crist e que era de amor. Deus faria o resto.
           difcil dizer se esse sermo produziu efeito sobre nossos concidados. O Sr. Othon, o juiz de instruo, disse ao Dr. Rieux que tinha achado a exposio 
do Padre Paneloux "absolutamente irrefutvel". Nem todos, porm, tinham uma opinio to categrica. Simplesmente, o sermo tornou mais evidente para alguns a ideia, 
vaga at ento, de que estavam condenados, por um crime desconhecido, a uma priso inimaginvel. E enquanto uns continuavam a sua vidinha e se adaptavam  clausura, 
para outros, pelo contrrio, a nica ideia foi, a partir desse momento, evadirem-se dessa priso.
          A princpio, as pessoas tinham aceito estar isoladas do exterior como teriam aceito qualquer outro inconveniente temporrio que apenas perturbasse alguns 
de seus hbitos. Mas, subitamente conscientes de uma espcie de sequestro, sob a tampa do cu em que o vero comeava a crepitar, sentiam confusamente que essa recluso 
lhes ameaava toda a vida e, chegada a noite, a energia que recuperavam com o frescor os lanava por vezes a atos de desespero.
          Em primeiro lugar, quer seja ou no por efeito de uma coincidncia, foi a partir desse domingo que houve em nossa .idade uma espcie de medo generalizado 
e bastante profundo para que se pudesse suspeitar que nossos concidados comeavam verdadeiramente a tomar conscincia da sua situao. Sob esse ponto de vista, 
a atmosfera de nossa cidade modificou-se um pouco. A questo, porm,  saber se na verdade a modificao estava na atmosfera ou nos coraes.
          Poucos dias depois do sermo, Rieux, que comentava o acontecimento com Grand, ao dirigir-se para os subrbios, chocou-se na escurido contra um homem que 
cambaleava diante deles, sem procurar avanar. Nesse mesmo momento as luzes de nossa cidade, que se acendiam cada vez mais tarde, resplandeceram bruscamente. O alto 
lampio por trs deles iluminou subitamente o homem, que ria sem rudo, de olhos fechados. Em seu rosto esbranquiado, distendido por uma hilaridade muda, o suor 
corria em grossas gotas.
          -  um louco - disse Grand.
          Rieux, que acabava de peg-lo pelo brao para arrast-lo, sentiu que o empregado municipal tremia de nervoso.
          - Dentro em pouco, no haver seno loucos dentro de nossos muros - concordou Rieux. com o cansao, sentia a garganta seca. Vamos tomar qualquer coisa.
          No pequeno caf em que entraram, iluminado por um nico lampio em cima do balco, as pessoas falavam em voz baixa, sem razo aparente, no ar espesso e 
avermelhado.
          No balco, Grand, para grande surpresa do mdico, pediu aguardente, que bebeu de um trago, e declarou ser muito forte. Depois quis sair. L fora, parecia 
a Rieux que a noite estava cheia de gemidos. Em qualquer parte, no cu negro, um sibilar surdo lembrou-lhe o invisvel flagelo que agitava incansavelmente o ar quente.
          - Ainda bem, ainda bem - murmurava Grand. Rieux perguntava a si prprio o que ele queria dizer. - Ainda bem - continuava o outro - que tenho meu trabalho.
          - Sim - disse Rieux -, isso  uma vantagem.
          E, decidido a no escutar o sibilar, perguntou a Grand se estava contente com esse trabalho.
          - Sim, creio que estou no bom caminho.
          - Ainda lhe falta muito?
          Grand pareceu animar-se, com o calor do lcool transparecendo na voz.
          - No sei. Mas a questo no  essa, doutor. No, a questo no  essa.
          Na obscuridade, Rieux adivinhava que ele agitara os braos. Parecia preparar qualquer coisa, que veio bruscamente, com volubilidade.
          - O que eu quero, sabe, doutor,  que no dia em que o manuscrito chegar ao editor, ele se levante depois de ter lido e diga aos seus colaboradores: "Meus 
senhores, tirem o chapu".
          Esta brusca declarao surpreendeu Rieux. Parecia-lhe que o companheiro fazia o gesto de se descobrir, levando a mo  cabea e trazendo o brao  posio 
horizontal. L em cima, o estranho silvo parecia redobrar de intensidade.
          -  verdade - dizia Grand -,  necessrio que seja perfeito.
          Embora pouco a par dos hbitos literrios, Rieux tinha no entanto a impresso de que as coisas no se deviam passar to simplesmente e que, por exemplo, 
os editores, nos seus gabinetes, deviam estar de cabea descoberta. A verdade, porm,  que nunca se sabia, e Rieux preferiu calar-se. Contra a vontade, escutava 
os rumores misteriosos da peste. Chegavam ao bairro de Grand e, como este se situava num ponto alto, uma ligeira brisa refrescava-os, limpando ao mesmo tempo a cidade 
de todos os seus rudos. No entanto, Grand continuava a falar, e Rieux no compreendia tudo o que o homenzinho dizia. Comprendeu apenas que a obra em questo tinha 
j muitas pginas, mas que o esforo a que seu autor se submetia para a levar  perfeio lhe era muito doloroso. Noites, semanas inteiras com uma palavra. . . s 
vezes com uma simples conjuno. Nesse ponto, Grand deteve-se e agarrou o mdico por um boto do casaco. As palavras saam trpegas de sua boca malguarnecida.
          - Compreenda bem, doutor. A rigor,  fcil escolher entre "mas" e "e". J  mais difcil optar entre "e" e "depois". A dificuldade aumenta com "depois" 
e "em seguida". Porm, o que h, sem dvida, de mais difcil,  saber se se deve ou no colocar o e.
          - Compreendo - disse Rieux.
          Recomeou a andar. O outro pareceu confuso e deu alguns passos para alcan-lo.
          - Desculpe - gaguejou. - No sei o que tenho esta noite.
          Rieux bateu-lhe suavemente no ombro e disse que desejava ajud-lo e que sua histria lhe interessava muito. O outro pareceu acalmar-se um pouco e, chegando 
a casa, depois de hesitar, convidou o mdico a subir um momento. Rieux aceitou.
          Na sala de jantar, Grand convidou-o a sentar-se diante de uma mesa coberta de papis cheios de emendas feitas numa letra microscpica.
          - Sim,  isto - disse Grand ao mdico, que o interrogava com o olhar. - Quer beber alguma coisa? Tenho um pouco de vinho. - Rieux recusou. Olhava para 
as folhas de papel.
          - No olhe - pediu Grand. -  minha primeira frase. Faz-me mal; faz-me muito mal.
          Tambm ele contemplava todas as folhas, e sua mo pareceu incontrolavelmente atrada para uma delas, que levantou e colocou em transparncia, diante da 
lmpada eltrica sem cpula. A folha tremia-lhe na mo. Rieux notou que o empregado municipal tinha a testa mida.
          - Sente-se - pediu o mdico - e leia.
          O outro olhou para ele e sorriu com uma espcie de gratido.
          - Acho, realmente, que estou com vontade de ler.
          Esperou um pouco, sempre olhando para a folha, depois sentou-se. Rieux escutava ao mesmo tempo uma espcie de zumbido confuso que, na cidade, parecia responder 
ao silvo do flagelo. Nesse momento preciso, tinha uma percepo extraordinariamente aguda dessa cidade que se estendia a seus ps, do mundo fechado que ela formava 
e dos uivos terrveis que ela sufocava na noite. A voz de Grand elevou-se surdamente: "Numa bela manh do ms de maio, uma elegante amazona percorria, numa soberba 
gua alaz, as alias floridas do Bois de Boulogne". O silncio voltou e com ele o rumor indistinto da cidade, que sofria. Grand pousara a folha e continuava a contempl-la. 
Ao fim de um momento, levantou os olhos.
          - Que acha?
          Rieux respondeu que o princpio lhe despertava a curiosidade de conhecer o resto. Mas o outro afirmou com animao que esse ponto de vista no era bom 
e bateu nos papis com a palma da mo.
          - Isso  apenas uma aproximao. Quando eu conseguir transmitir perfeitamente o quadro que tenho na imaginao, quando a minha frase tiver o prprio ritmo 
deste passeio a trote um-dois-trs, um-dois-trs, ento o resto ser mais fcil e, sobretudo, a iluso ser tal, desde o princpio, que ser possvel dizer: "Tirem 
o chapu".
          Mas para isso faltava muito trabalho. Nunca consentiria em entregar aquela frase, tal como estava, a um editor, pois, apesar da satisfao que lhe trazia, 
por vezes se dava conta de que ela ainda no se ajustava perfeitamente  realidade, e que, de certo modo, mantinha uma facilidade de tom que se assemelhava de longe, 
mas que se assemelhava, em todo caso, a um chavo. Era esse pelo menos o sentido do que ele dizia quando ouviram homens correr sob as janelas. Rieux levantou-se.
          - Vai ver o que vou fazer dela - dizia Grand. E, voltado para a janela, acrescentou: - Quando tudo isso tiver acabado.
          Mas o barulho de passos precipitados recomeava. Rieux j descia, e dois homens passaram por ele quando chegou  rua. Aparentemente, iam para as portas 
da cidade. Na verdade, alguns de nossos concidados, perdendo a cabea entre o calor e a peste, deixavam-se arrastar  violncia e tinham tentado burlar a vigilncia 
das barreiras para fugir da cidade.
          Outros, como Rambert, tentavam tambm fugir dessa atmosfera de pnico nascente, mas com mais obstinao e habilidade, se no com mais xito. Em primeiro 
lugar, Rarr> bert prosseguira suas diligncias oficiais. Segundo ele prprio dizia, a obstinao acaba por triunfar sobre tudo e, de um certo ponto de vista, ser 
desembaraado era sua profisso.
          Visitara, pois, uma grande quantidade de funcionrios e de pessoas cuja competncia habitualmente no se discutia. No entanto, nesse caso, tal competncia 
de nada lhes servia. Eram, a maior parte das vezes, homens que tinham ideias precisas e bem classificadas sobre tudo o que se refere aos bancos,  exportao, s 
laranjas e limes, ou ainda, ao comrcio dos vinhos; que possuam indiscutveis conhecimentos sobre os problemas de contencioso ou de seguros, sem contar os diplomas 
slidos e uma boa vontade evidente. Era at a boa vontade o que de mais impressionante havia em todos. Porm, em matria de peste, seus conhecimentos eram quase 
nulos.
          Diante de cada um deles, entretanto, e sempre que isso fora possvel, Rambert defendera sua causa. Sua argumentao principal consistia sempre em dizer 
que era estrangeiro na nossa cidade e que, por conseguinte, seu caso devia merecer um exame especial. Em geral, os interlocutores do jornalista admitiam de bom grado 
esse ponto, mas diziamlhe que era tambm o caso de um certo nmero de pessoas e que, conseqentemente, seu problema no era to particular quanto imaginava. Ao que 
Rambert podia retrucar que o fato no mudava em nada a essncia de sua argumentao, e replicavap-lhe que mudava alguma coisa nas dificuldades administrativas que 
se opunham a toda medida de favor, que corria o risco de criar aquilo a que chamavam, com uma expresso de grande repugnncia, um precedente. Segundo a classificao 
que Rambert props ao Dr. Rieux, esse gnero de argumentadores constitua a categoria dos formalistas. Ao lado deles podiam encontrar-se os bem-falantes, que asseguravam 
ao suplicante que nada daquilo podia durar e que, prdigos de bons conselhos quando s se lhes pediam decises, consolavam Rambert decidindo que se tratava apenas 
de um problema momentneo. Havia tambm os importantes, que pediam ao visitante que deixasse uma nota resumindo seu caso, informando que decidiriam sobre o pedido; 
os fteis, que lhe propunham vales de alojamento ou endereos de penses econmicas; os metdicos, que o faziam preencher uma ficha e arquivavam-na em seguida; os 
exaltados, que levantavam os braos e os aborrecidos, que desviavam os olhos; havia, enfim, os tradicionais, de longe os mais numerosos, que indicavam a Rambert 
outra repartio ou nova diligncia a fazer.
          O jornalista tinha assim se esgotado em visitas e formara uma ideia justa do que podia ser uma cmara ou uma prefeitura, de tanto esperar num banco estofado 
diante de grandes cartazes que o convidavam a subscrever obrigaes do Tesouro, isentas de impostos, ou a alistar-se no exrcito colonial, de tanto entrar em reparties 
onde as fisionomias eram to previsveis quanto o arquivo e os fichrios. A vantagem, como Rambert dizia a Rieux com uma ponta de amargura, era que tudo isso mascarava 
a verdadeira situao. Os progressos da peste escapavam-lhe praticamente, sem contar que os dias assim se passavam mais depressa e, na situao em que a cidade inteira 
se encontrava, podia-se dizer que cada dia que passava aproximava os homens, com a condio de que no morressem ao fim de suas provaes. Rieux teve de reconhecer 
que esse ponto de vista era verdadeiro, mas que se tratava, em todo caso, de uma verdade demasiado genrica.
          Em dado momento, Rambert alimentou uma esperana. Tinha recebido da prefeitura um boletim de informaes em branco que lhe pediam que preenchesse com exatido. 
O boletim inquietava-se com sua identidade, a situao da famlia, seus recursos, antigos e atuais, e o que chamava de seu curriculum vitae. Teve a impresso de 
que se tratava de um inqurito destinado a recensear as pessoas suscetveis de serem enviadas para a sua residncia habitual. Algumas informaes confusas colhidas 
numa repartio confirmaram essa suspeita. No entanto, depois de algumas diligncias precisas, conseguiu descobrir o servio que tinha enviado o boletim, e disseram-lhe 
ento que essas informaes tinham sido recolhidas "para o caso de virem a ser necessrias".
          - Que caso? - perguntou Rambert.
          Afirmaram-lhe ento que era para o caso de ele vir a adoecer da peste e a morrer dela, a fim de que se pudesse, por um lado, avisar a famlia e, por outro, 
saber se se deviam debitar as despesas do funeral ao oramento da cidade ou se se podia esperar que os parentes as reembolsassem. Evidentemente, isso provava que 
ele no estava inteiramente separado daquela que o esperava, visto que a sociedade se ocupava deles. Mas no era um consolo. O mais notvel, e Rambert o observou, 
era a maneira como no auge de uma catstrofe uma repartio podia continuar o seu servio e tomar iniciativas de outros tempos, muitas vezes com desconhecimento 
das autoridades mais altas, pela simples razo de que era feita para esse fim.
          O perodo que se seguiu foi para Rambert simultaneamente mais fcil e mais difcil. Era um perodo de estagnao
          Tinha visitado todas as reparties, feito todas as diligncias e todas as sadas, por esse lado, estavam agora fechadas. Vagava ento de caf em caf. 
De manh, sentava-se num terrao, diante de um copo de cerveja morna, lia um jornal com a esperana de encontrar alguns sinais do fim prximo da doena, olhava para 
o rosto dos transeuntes, desviava-se, desgostoso, com sua expresso de tristeza e, depois de ter lido, pela centsima vez, as tabuletas das lojas em frente, a publicidade 
dos grandes aperitivos que j de nada serviam, levantava-se e caminhava ao acaso pelas ruas amarelas da cidade. Em passeios solitrios para cafs e de cafs para 
restaurantes, chegava assim a noite. Rieux viu-o uma noite, precisamente  porta de um caf, onde o jornalista hesitava em entrar. Pareceu decidir-se e foi sentar-se 
ao fundo da sala. Era aquela hora em que nos cafs, por ordem superior, se retardava ao mximo o momento de acender as luzes. O crepsculo invadia a sala como uma 
gua cinzenta, o cor-de-rosa do cu poente refletia-se nas vidraas e o mrmore das mesas reluzia fracamente na obscuridade nascente. No meio da sala deserta, Rambert 
parecia uma sombra perdida, e Rieux pensou que era a hora de se sentir abandonado. Mas era tambm o momento em que todos os prisioneiros dessa cidade sentiam seu 
prprio abandono e era preciso, fazer qualquer coisa para apressar a libertao. Rieux afastou-se.
          Rambert passava tambm longos momentos na estao. O acesso s plataformas estava interditado. Mas as salas de espera, s quais se chegava por fora, permaneciam 
abertas e s vezes ali instalavam-se mendigos nos dias de calor, pois eram sombrias e frescas. Rambert ficava l, para ler velhos horrios, avisos proibindo cuspir 
e o regulamento da Polcia Ferroviria. Depois, sentava-se a um canto. A sala estava escura. Um velho fogo de ferro fundido esfriava h meses, no meio de desenhos 
em oito. Na parede alguns cartazes promoviam uma vida feliz e livre em Bandol ou em Cannes. Rambert sentia aqui essa espcie de terrvel liberdade que se experimenta 
no fundo da misria. Para ele, imagens mais difceis de suportar, segundo o que dizia Rieux, eram as de Paris. Uma paisagem de velhas pedras e das guas, os pombos 
do Palais Royal, a Gare du Nord, os bairros desertos do Panthon e alguns outros lugares de uma cidade que ele no sabia ter amado tanto, perseguiam ento Rambert 
e impediam-no de fazer qualquer coisa de preciso. Rieux pensava apenas que ele identificava essas imagens com as do seu amor. E no dia em que Rambert lhe disse que 
gostava de acordar s quatro da manh e de pensar em sua cidade, o mdico no teve dificuldade em traduzir do fundo de sua prpria experincia que ele gostava de 
imaginar a mulher que tinha deixado. com efeito, era a hora em que ele podia apoderar-se dela. At as quatro horas da manh no se faz nada, em geral, dorme-se a 
essa hora e isso  tranqilizador, j que o grande desejo de um corao inquieto  possuir interminavelmente o ser que ama e poder mergulhar esse ser, quando chega 
o tempo da ausncia, num sono sem sonhos que s possa acabar no dia do reencontro.
          Pouco depois do sermo, o calor comeou. Chegava-se ao fim do ms de junho. No dia seguinte ao da chuva tardia que marcara o domingo do sermo, o vero 
irrompeu de repente no cu e acima das casas. Levantou-se primeiro um vento forte e ardente que soprou durante um dia e ressecou as paredes. O sol fixou-se. Vagas 
incessantes de calor e de luz inundaram a cidade durante todo o dia. Fora das ruas em arcada e das casas parecia no haver um nico ponto na cidade que no estivesse 
colocado na reverberao mais ofuscante. O sol perseguia nossos concidados em todas as esquinas e, se eles paravam, atacava-os ento. Como esses primeiros calores 
coincidiram com uma subida vertiginosa do nmero de vtimas que se calculou em cerca de setecentas por semana, apoderou-se da cidade uma espcie de abatimento. Nos 
subrbios, nas ruas planas e nas casas com terraos, a animao decresceu e, nesse bairro onde toda a gente vivia sempre nas soleiras, todas as portas estavam fechadas 
e as persianas corridas, sem que se soubesse se era da peste ou do calor que as pessoas julgavam assim proteger-se. De algumas casas, contudo, saam gemidos. Antes, 
quando isso acontecia, viam-se muitas vezes curiosos que paravam na rua,  escuta. Mas depois desses longos alarmes, parecia que o corao de todos tinha endurecido 
e que caminhavam ou viviam ao lado dos queixumes como se eles fossem a linguagem natural dos homens.
          Os tumultos junto s portas da cidade, durante os quais os guardas tinham sido obrigados a servir-se de armas, criaram uma surda agitao. Tinha havido 
feridos, sem dvida, mas falava-se de mortos na cidade, onde tudo se exagerava por efeito do calor e do medo. Em todo caso,  verdade que o descontentamento no 
cessava de aumentar, que  nossas  autoridades tinham receado o pior e estudado muito a srio medidas a serem tomadas no caso de essa populao, mantida sob o flagelo, 
ser levada  revolta. Os jornais publicaram decretos que renovavam a proibio de sair e ameaavam com penas de priso os infratores. Patrulhas percorriam a cidade. 
Muitas vezes, nas ruas desertas e escaldantes viam-se avanar, anunciados em primeiro lugar pelo rudo dos cascos dos cavalos nos paraleleppedos, guardas montados 
que passavam por entre duas fileiras de janelas fechadas. Desaparecida a patrulha, um silncio pesado e cheio de desconfiana recaa sobre a cidade ameaada. De 
vez em quando, ouviam-se os disparos dos grupos especiais encarregados de matar os ces e os gatos que poderiam transmitir pulgas. Essas detonaes secas contribuam 
para estabelecer na cidade uma atmosfera de alerta.
          No calor e no silncio, e para o corao em pnico dos nossos concidados, tudo assumia, alis, uma importncia maior. Pela primeira vez todos se tornavam 
sensveis s cores do cu e aos odores da terra causados pela mudana das estaes. Cada um compreendia com terror que o calor ajudaria a epidemia e, ao mesmo tempo, 
cada um via que o vero se instalava. O grito dos gavies no cu da tarde tornava-se mais dbil por cima da cidade. No mais se enquadravam nesses crepsculos de 
junho que ampliam o horizonte em nosso pas. As flores de mercados j no chegavam fechadas em boto e, depois da venda da manh, as ptalas amontoavam-se nas caladas 
poeirentas. Via-se claramente que a primavera se extenuara, que se tinha prodigalizado em milhares de flores que desabrochavam por toda parte e que ia agora adormecer, 
esmagar-se lentamente sob o duplo peso da peste e do calor. Para todos os nossos concidados, o cu de vero, essas ruas que empalidecem sob os tons da poeira e 
do tdio, tinham o mesmo sentido ameaador que as centenas de mortos que a cada dia pesavam sobre a cidade. O sol inclemente, estas horas com gosto de sono e de 
frias, j no convidavam como antes s festas da gua e da carne. Pelo contrrio, soavam lgubres na cidade fechada e silenciosa. Tinham perdido o brilho metlico 
das estaes felizes. O sol da peste apagava todas as cores e escorraava qualquer alegria.
          Era essa uma das grandes revolues da doena. Em geral, todos os nossos concidados acolhiam o vero com alegria. A cidade abria-se ento para o mar e 
derramava sua mocidade nas praias. Nesse vero, pelo contrrio, o mar prximo estava interditado e o corpo j no tinha direito s suas alegrias. Que fazer nessas 
condies?  ainda Tarrou quem d a imagem mais fiel de nossa vida de ento. Ele seguia, a bem da verdade, os progressos da peste em geral, observando justamente 
que uma mudana da epidemia fora assinalada pelo rdio quando deixou de anunciar as centenas de bitos por semana para passar a comunicar noventa e dois, cento e 
sete e cento e vinte mortos por dia. "Os jornais e as autoridades brincam de espertos com a peste. Imaginam que lhe tiram alguns pontos porque cento e trinta  um 
nmero menos impressionante que novecentos e dez." Evocava tambm os aspectos patticos ou espetaculares da epidemia, como a mulher que, num bairro deserto, com 
as persianas fechadas, tinha subitamente aberto uma janela por cima dele e soltado dois grandes gritos antes de voltar a fechar as persianas sobre a sombra espessa 
do quarto. Mas ele anotava, alm disso, que as pastilhas mentoladas tinham desaparecido das farmcias, pois muitas pessoas as chupavam para se prevenir contra um 
contgio eventual.
          Continuava tambm a observar suas personagens favoritas. Soube-se que o velhote dos gatos vivia tambm na tragdia. Certa manh, com efeito, haviam soado 
tiros e, como escrevia Tarrou, alguns estilhaos de chumbo tinham matado a maior parte dos gatos e aterrorizado os outros, que abandonaram a rua. No mesmo dia, o 
velhote surgira na varanda,  hora habitual, mostrara uma certa surpresa, debruara-se, examinara as extremidades da rua e resignara-se a esperar. com a mo dava 
pequenas pancadas na grade da varanda. Esperava ainda, rasgara um pedao de papel, entrara e tornara a sair. Depois de um certo tempo desaparecera bruscamente, fechando, 
com rancor, as janelas. Nos dias seguintes repetiu-se a mesma cena, mas podiam ler-se no rosto do velho uma tristeza e uma perturbao cada vez mais manifestas. 
Ao fim de uma semana, Tarrou esperou em vo o aparecimento dirio, e as janelas ficaram obstinadamente fechadas sobre um desgosto bastante compreensvel. "Em tempo 
de peste,  proibido escarrar nos gatos" era a concluso das anotaes.
          Por outro lado, quando Tarrou entrava  noite em casa, tinha sempre certeza de encontrar, no vestbulo, a figura sombria do vigia, que passeava de um lado 
para outro. Ele no deixava de lembrar a todos que chegavam que tinha previsto o que estava acontecendo. A Tarrou, que reconhecia ter-lhe ouvido prever uma desgraa, 
mas que lhe recordava sua ideia de terremoto, o velho guarda respondia: "Ah, se fosse um terremoto? Uma boa sacudidela, e no se fala mais nisso... Contam-se os 
mortos, os vivos, e pronto. Mas essa porcaria de doena? At os que no a apanham, parecem traz-la no corao".
          O proprietrio no andava menos desanimado. A princpio, os viajantes, impedidos de deixar a cidade, tinham sido mantidos no hotel quando as portas da 
cidade se fecharam. Mas, pouco a pouco, como a epidemia se prolongasse, muitos tinham preferido instalar-se em casa de amigos. E as mesmas razes que tinham enchido 
todos os quartos do hotel mantinham-nos vazios desde ento, j que no chegavam novos viajantes a nossa cidade. Tarrou era um dos raros hspedes, e o gerente no 
perdia oportunidade para lhe fazer notar que, se no fosse seu desejo de ser agradvel aos seus ltimos clientes, teria h muito fechado o estabelecimento. Pedia 
muitas vezes a Tarrou que calculasse a durao provvel da epidemia. "Dizem", observava Tarrou, "que o frio  inimigo dessa espcie de doena." O gerente exasperava-se: 
"Mas aqui nunca faz realmente frio, meu caro senhor. De qualquer modo, ainda faltam alguns meses". Tinha certeza alis de que os visitantes continuariam durante 
muito tempo a evitar a cidade. Essa peste era a runa do turismo. No restaurante, d pois de uma curta ausncia, viuse reaparecer o Sr. Othon, o homem-coruja, mas 
seguido apenas pelos dois cachorrinhos comportados. Colhidas as informaes, soube-se que a mulher tinha tratado e enterrado a prpria me e que estava, nesse momento, 
de quarentena.
          - No gosto disso - disse o gerente a Tarrou. com quarentena ou sem quarentena, ela  suspeita, e, conseqentemente, eles tambm.
          Tarrou fez-lhe notar que, sob esse ponto de vista, todos eram suspeitos. Mas o outro era categrico e tinha sobre a questo opinies bem definidas:
          - No, senhor, nem o senhor nem eu somos suspeitos. Eles so.
          Mas o Sr. Othon no se alterava por to pouco e, dessa vez, a peste no ia levar vantagem alguma. Entrava da mesma maneira na sala do restaurante, sentava-se 
antes dos filhos e continuava a dirigir-lhes frases distintas e hostis. Apenas o garoto mudara de aspecto. Vestido de preto como a irm, um pouco mais curvado sobre 
si prprio, parecia uma pequena sombra do pai. O vigia, que no gostava do Sr. Othon, dissera a Tarrou:
          - Ah! Aquele vai morrer todo vestido, nem ser preciso arrum-lo. Vai direitinho.
          O sermo de Paneloux era tambm relatado, mas com o seguinte comentrio: "Compreendo esse simptico ardor. No comeo dos flagelos e quando eles terminam, 
sempre se faz um pouco de retrica. No primeiro caso, no se perdeu ainda o hbito, e no segundo, ele j retornou.  no momento da desgraa que a gente se habitua 
 verdade, quer dizer, ao silncio. Esperemos".
          Tarrou anotava, enfim, que tivera uma longa conversa com o Dr. Rieux, da qual recordava apenas que dera bons resultados e esclarecia, a propsito disso, 
a cor castanho-clara dos olhos da me do mdico, afirmava estranhamente que um olhar onde se lia tanta bondade seria sempre mais forte que a peste e consagrava, 
por fim, longas pginas ao velho asmtico tratado por Rieux.
          Tinha ido v-lo, com o mdico, depois da entrevista. O velho acolhera Tarrou com risinhos, esfregando as mos. Estava na cama, encostado ao travesseiro, 
por cima das suas duas panelas de gros-de-bico. "Ah, mais um", dissera ele ao ver Tarrou. " o mundo s avessas, mais mdicos que doentes.  que a coisa anda depressa, 
hem? O padre tem razo,  bem merecido." No dia seguinte, Tarrou voltara sem avisar. Se se der crdito s suas anotaes, o velho asmtico, lojista de profisso, 
tinha decidido aos cinquenta anos que j trabalhara bastante. Metera-se na cama e no voltara a levantar-se desde ento. No entanto, a sua asma conciliavase com 
o tempo em que estivera em p. Uma pequena renda o mantivera at os setenta e cinco anos, cujo peso ele carregava alegremente. No conseguia tolerar relgios e, 
na verdade, no havia um nico em toda a casa. "Um relgio  um objeto caro e bobo", dizia ele. Calculava o tempo, e sobretudo a hora das refeies, a nica que 
lhe importava, com suas duas panelas, uma das quais estava cheia de grosde-bico quando acordava. Enchia a outra, uma a uma, com o mesmo movimento aplicado e regular. 
Encontrava assim seus pontos de referncia, num dia medido por panelas. "De quinze em quinze panelas", dizia ele, " hora de comer.  muito simples."
          Alis, a se acreditar na mulher, desde muito novo dera sinais dessa vocao. Na verdade, nada lhe interessara jamais: nem o trabalho, nem os amigos, nem 
os cafs, nem a msica, nem as mulheres, nem os passeios. Nunca saa da cidade, exceto num dia em que, obrigado a ir a Argel para cuidar de negcios da famlia, 
tinha descido na estao mais prxima de Oran, incapaz de levar mais adiante a aventura, e voltara no primeiro trem.
          A Tarrou, que parecera admirar-se da vida enclausurada que ele levava, tinha mais ou menos explicado que, segundo a religio, a primeira metade da vida 
de um homem era uma ascenso e a outra, um declnio; que no declnio, os dias do homem j no lhe pertenciam, que lhe podiam ser arrebatados a qualquer momento, 
que ele nada podia fazer deles, e que o melhor, justamente, era no fazer nada. A contradio, alis, no o assustava, pois tinha pouco depois dito a Tarrou que 
certamente Deus no existia, j que, de outro modo, os padres seriam inteis. No entanto, por certas reflexes que se seguiram, Tarrou compreendeu que essa filosofia 
estava estreitamente ligada ao estado de esprito que lhe davam os peditrios frequentes da sua parquia. Mas o que completava o retraio do velho era um desejo que 
parecia profundo, e que ele exprimiu vrias vezes perante seu interlocutor: esperava morrer muito velho.
          "Ser um santo?", perguntava Tarrou a si prprio. E respondia: "Sem dvida, se a santidade  um conjunto de hbitos". 
          Mas, ao mesmo tempo, Tarrou dedicava-se  descrio bastante minuciosa de um dia na cidade tomada pela peste, dando assim uma justa ideia das ocupaes 
e da vida de nossos concidados durante esse vero. "Ningum ri, a no ser os bbados", dizia Tarrou, "e esses riem demais." Depois, retomava sua descrio:
          "De madrugada, brisas leves percorrem a cidade ainda deserta. A essa hora que fica entre as mortes da noite e as agonias do dia, parece que a peste suspende 
por um instante seu esforo e toma flego. Todas as lojas esto fechadas. Mas, em algumas, o aviso 'Fechada por causa da peste' atesta que no abriro dentro em 
pouco como as outras. Vendedores de jornais meio adormecidos no gritam mais as notcias, mas, encostados s esquinas das ruas, oferecem sua mercadoria aos lampies 
com gestos de sonmbulos. Daqui a pouco, despertados pelos primeiros bondes, vo espalhar-se por toda a cidade, oferecendo de brao estendido as folhas onde se destaca 
a palavra 'peste'. 'Haver um outono de peste?' O Professor B. . . responde: 'No'. Cento e vinte e quatro mortos, e eis o balano depois de noventa e quatro dias 
de peste'.
          Apesar da crise de papel, que se torna cada vez mais acentuada, e j forou alguns peridicos a diminurem o nmero de pginas, criou-se mais um jornal, 
O Correio da Epidemia, que se impe como tarefa 'informar nossos concidados, com a preocupao de uma escrupulosa objetividade, dos progressos ou retrocessos da 
doena; fornecer as opinies mais categorizadas sobre o futuro da epidemia; prestar o apoio de suas colunas a todos os que, conhecidos ou desconhecidos, estejam 
dispostos a lutar contra o flagelo; levantar o moral da populao, transmitir as diretrizes das autoridades e, numa palavra, reunir todos os esforos para lutar 
de modo eficaz contra o mal que nos assola'. Na realidade, esse jornal limitou-se muito rapidamente a publicar anncios de novos produtos infalveis para evitar 
a peste. Por volta das seis horas da manh, todos esses jornais comeam a ser vendidos nas filas que se instalam s portas das lojas mais de uma hora antes da sua 
abertura, depois nos bondes que chegam, apinhados, dos subrbios. Os bondes tornaram-se o nico meio de transporte e avanam com grande dificuldade, os estribos 
sobrecarregados. Coisa curiosa, no entanto: todos os ocupantes, na medida do possvel, voltam as costas aos outros para evitar um contgio mtuo. Nas paradas, o 
bonde despeja uma carga de homens e de mulheres cheios de pressa de se afastarem e de se isolarem. Frequentemente, ocorrem cenas devidas apenas ao mau humor, que 
se torna crnico.
          Depois da passagem dos primeiros bondes, a cidade desperta pouco a pouco, as primeiras cervejarias abrem as portas, com os balces carregados de avisos: 
'No h mais caf', 'Traga o seu acar', etc. . . Depois, abrem-se as lojas, as ruas animam-se. Ao mesmo tempo, a luz sobe e o calor aumenta pouco a pouco no cu 
de julho.  a hora em que aqueles que no fazem nada se arriscam pelas avenidas. A maior parte parece ter-se encarregado de conjurar a peste pela ostentao do seu 
luxo. Todos os dias, por volta de onze horas, nas artrias principais, h um desfile de homens e de mulheres jovens, em que se pode sentir essa paixo de viver que 
cresce no seio das grandes desgraas. Quanto mais a epidemia se estender, mais o moral se tomar elstico. Voltaremos a ver as saturnais milanesas  beira das sepulturas.
          Ao meio-dia, os restaurantes enchem-se num abrir e fechar de olhos. Muito depressa, formam-se  porta pequenos grupos que no conseguiram encontrar lugar. 
O cu comea a perder a luz por excesso de calor.  sombra dos grandes toldos, os candidatos  comida esperam a vez,  beira da rua estalam ao sol. Se os restaurantes 
so invadidos,  porque simplificam muito o problema do abastecimento. Mas deixam intacta a angstia do contgio. Os convivas perdem longos minutos limpando pacientemente 
os talheres. No h muito tempo, certos restaurantes anunciavam: 'Aqui escaldam-se os talheres'. Pouco a pouco, porm, renunciaram a qualquer publicidade, j que 
os clientes eram forados a vir. Alis, o cliente gasta de bom grado. Os vinhos finos ou assim considerados, os suplementos mais caros, so o comeo de uma corrida 
desenfreada. Parece tambm que houve cenas de pnico num restaurante, porque um cliente, indisposto, empalidecera, levantara-se cambaleando e dirigira-se rapidamente 
para a sada.
          Por volta de duas horas, a cidade esvazia-se pouco a pouco e  ento o momento em que o silncio, a poeira, o sol e a peste se encontram na rua. Ao longo 
das grandes casas cinzentas, o calor desliza sem cessar. So longas horas prisioneiras que acabam nas tardes inflamadas que se abatem sobre a cidade populosa e tagarela. 
Durante os primeiros dias de calor, uma vez ou outra, e sem que se saiba por qu, as tardes eram desertas. Mas agora a primJira friagem traz uma trgua, se no uma 
esperana. Todos descem ento para as ruas, falam para se atordoar, discutem ou desejam-se e, sob o cu vermelho de julho, a cidade, carregada de casais e de clamores, 
deriva em direo  noite ofegante. Em vo, todas as tardes nas avenidas, um velho inspirado, com um chapu de feltro e gravata esvoaante, atravessa a multido, 
repetindo sem cessar: 'Deus  grande, vinde a Ele'. Todos se precipitam, pelo contrrio, para qualquer coisa que mal conhecem ou que lhes parece mais urgente que 
Deus. A princpio, quando achavam que era uma doena como as outras, a religio tinha prestgio. Mas quando viram que o caso era srio, lembraram-se do prazer. Toda 
a angstia que se pinta durante o dia nos rostos se dissolve ento, no crepsculo ardente e poeirento, numa espcie de excitao desvairada, numa liberdade desajeitada 
que inflama todo um povo.
          E tambm eu sou como eles. Puro engano! A morte nada  para os homens como eu.  um acontecimento que lhes d razo."
          Foi Tarrou que pediu a Rieux a entrevista de que fala nos seus cadernos. Na noite em que Rieux o esperava, o mdico contemplava a me, placidamente sentada 
a um canto da sala de jantar. Era a que ela passava seus dias quando a arrumao da casa a deixava livre. com as mos juntas sobre os joelhos, esperava. Rieux no 
tinha sequer a certeza de que fosse ele quem ela esperava. No entanto, qualquer coisa se alterava no seu rosto quando ele aparecia. Tudo que uma vida laboriosa nele 
colocara de mutismo parecia ento animar-se. Depois, recaa no silncio. Nessa noite, olhava atravs da janela para a rua deserta. A iluminao tinha sido diminuda 
de dois teros. E, aqui e ali, uma lmpada muito fraca punha alguns reflexos nas sombras da cidade.
          - Vo manter a iluminao reduzida durante toda a peste? - perguntou a Sra. Rieux.
          - Provavelmente.
          - Contanto que isso no dure at o inverno. . . Seria muito triste.
          -  verdade - disse Rieux.
          Viu o olhar da me pousar-lhe na fronte. Sabia que a inquietao e o excesso de trabalho dos ltimos dias lhe haviam vincado o rosto.
          - O dia no correu bem? - perguntou a Sra. Rieux.
          - Oh, como de costume.
          Como de costume! Quer dizer que o novo soro enviado de Paris parecia ser menos eficaz que o primeiro, e as estatsticas subiam. Continuava a no haver 
a possibilidade de inocular o soro preventivo a no ser nas famlias j atingidas. Teriam sido necessrias quantidades industriais para generalizar sua utilizao. 
A maior parte dos abscessos recusavam-se a abrir-se, como se tivesse chegado a poca do seu endurecimento, e torturavam os doentes. Desde a vspera, havia na cidade 
dois casos de uma nova forma da epidemia. A peste tornava-se ento pulmonar. Nesse mesmo dia, no decurso de uma reunio, os mdicos, exaustos diante de um prefeito 
desorientado, tinham pedido e obtido novas medidas para evitar o contgio que na peste pulmonar se fazia de boca a boca. Como sempre, no se sabia nada.
          Olhou para a me. O belo olhar castanho revolveu nele anos de ternura.
          - Est com medo, mame?
          - Na minha idade, j no se teme muita coisa.
          - Os dias so muito compridos e eu agora nunca estou em casa.
          - Para mim  indiferente esperar, desde que saiba que vai chegar. E quando voc no est, penso no seu trabalho. Tem notcias?
          - Sim, vai tudo bem, se posso acreditar no ltimo telegrama. Mas sei que ela diz isso para me tranqilizar.
          A campainha da porta tocou. O mdico sorriu para a me e foi abrir. Na penumbra do patamar, Tarrou, vestido de cinzento, parecia um grande urso. Rieux 
fez o visitante sentar-se diante da secretria. Ele prprio ficou em p, atrs da poltrona. Estavam separados pela nica lmpada acesa em cima da secretria.
          - Sei - disse Tarrou, sem prembulos - que posso lhe falar com franqueza. - Rieux aprovou em silncio. Dentro de quinze dias ou um ms, o senhor j no 
ter aqui qualquer utilidade; estar superado pelos acontecimentos.
          -  verdade - respondeu o mdico.
          - A organizao do servio sanitrio  m. Faltam-lhe homens e tempo.
          Rieux reconheceu ainda que era verdade.
          - Soube que a prefeitura est planejando uma espcie de servio civil para obrigar os homens vlidos a participarem no salvamento geral. 
          - Est bem informado. Mas o descontentamento j  grande, e o prefeito hesita.
          - Por que no se pedem voluntrios?
          - Isso foi feito, mas os resultados foram insignificantes.
          - Fez-se por via oficial e sem muita f no que faziam. O que lhes falta  imaginao. Nunca esto  altura dos flagelos. Se os deixarmos agir, acabaro 
por morrer, e ns com eles.
          -  provvel - retorquiu Rieux. - Devo dizer que pensam tambm nos presos para os chamados trabalhos pesados.
          - Gostaria mais que fossem homens livres.
          - Eu tambm. Mas por qu, afinal?
          - Tenho horror s condenaes  morte. Rieux olhou para Tarrou.
          - Ento? - perguntou.
          - Ento, tenho um plano de organizao de equipes sanitrias voluntrias. Autorize-me a ocupar-me disso e deixemos as autoridades de lado. Alis, as autoridades 
esto suplantadas. Tenho amigos por toda parte e eles formaro o primeiro ncleo. E naturalmente, participarei dele.
          - Est bem - disse Rieux -, aceito com alegria. Temos necessidade de ser ajudados, sobretudo nesta profisso. Encarrego-me de fazer a prefeitura aceitar 
a ideia. Alis, no h outra opo. Mas. . .
          Rieux refletiu.
          - Mas esse trabalho pode ser mortal, como sabe. Em todo caso  preciso que eu o previna. Pensou bem?
          Tarrou olhava-o com seus olhos cinzentos e tranqilos.
          - Que pensa do sermo de Paneloux, doutor?
          A pergunta foi feita naturalmente, e Rieux respondeu naturalmente:
          - Vivi demais nos hospitais para gostar da ideia de castigo coletivo. Mas, como sabe, os cristos falam s vezes assim, sem que realmente o pensem. So 
melhores do que parecem.
          - Pensa ento, como Paneloux, que a peste tem o seu lado bom, que abre os olhos, que obriga a pensar?
          O mdico sacudiu a cabea com impacincia.
          - Como todas as doenas deste mundo. Mas o que  verdade em relao aos males deste mundo  tambm verdade em relao  peste. Pode servir para engrandecer 
alguns. No entanto, quando se v a misria e a dor que ela traz  preciso ser louco, cego ou covarde para se resignar  peste.
          Rieux apenas erguera um pouco o tom de voz. Mas Tarrou fez um gesto com a mo como para acalm-lo. Sorria.
          - Sim - continuou Rieux, dando de ombros. - Mas no me respondeu. Refletiu bem?
          Tarrou empertigou-se um pouco na cadeira e esticou a cabea para a luz.
          - Acredita em Deus, doutor?
          De novo, a pergunta fora feita naturalmente. Mas desta vez Rieux hesitou.
          - No, mas que quer dizer isso? Estou nas trevas e tento ver claro. H muito que deixei de achar isso original.
          - No  isso o que o separa de Paneloux?
          - No acho. Paneloux  um estudioso. No viu a morte o suficiente, e  por isso que fala em nome de uma verdade. Mas o mais modesto padre de aldeia, que 
cuida dos seus paroquianos e que ouviu a respirao de um moribundo, pensa como eu. Ele trataria da misria antes de querer demonstrar-lhe a excelncia.
          Rieux levantou-se. Seu rosto estava agora na sombra.
          - Vamos deixar isso - disse -, j que no quer responder.
          Tarrou sorriu, sem se mexer na poltrona.
          - Posso responder com uma pergunta? Foi a vez de o mdico sorrir.
          - Gosta do mistrio. Vamos l.
          -  isso - disse Tarrou. - Por que o senhor mesmo demonstra tanta dedicao, j que no acredita em Deus? Sua resposta talvez me ajude a responder.
          Sem sair da sombra, o mdico disse que j respondera e que, se acreditasse num Deus todo-poderoso, deixaria de curar os homens, deixando a ele esse cuidado. 
Mas que ningum no mundo, no, nem mesmo Paneloux, que julgava acreditar, acreditava num Deus desse gnero, j que ningum se entregava totalmente e que nisso, ao 
menos ele, Rieux, julgava estar no caminho da verdade, lutando contra a criao tal como ela era.
          - Ah! - exclamou Tarrou. - Ento  essa a ideia que tem da sua profisso?
          - Mais ou menos - respondeu o mdico, voltando-se para a luz.
          Tarrou assobiou baixinho, e o mdico olhou para ele.
          - Bem sei - continuou. - Diz a - J prprio que para isso  preciso ter orgulho. Mas eu no tenho seno o orgulho necessrio, acredite. No sei o que me 
espera, nem o que vir depois de tudo isto. No momento, h doentes, e  preciso cur-los. Em seguida, eles refletiro e eu tambm. Mas o mais urgente  cur-los. 
Eu os defendo como posso,  tudo.
          - Contra quem?
          Rieux voltou-se para a jane^. Adivinhava ao longe o mar por uma condensao mais escura do horizonte. Sentia apenas seu cansao e lutava ao mesmo tempo 
contra um desejo sbito e irracional de se abrir um pouco mais com esse homem um pouco singular, mas que sentia fraternal.
          - No sei, Tarrou, juro-lhe que no sei. Quando entrei para essa profisso eu o fiz abstratamente, de certo modo, porque tinha necessidade, porque era 
uma situao como as outras, uma das que os jovens se propem. Talvez tambm porque era particularmente difcil para um filho de operrio corno eu. E depois foi 
necessrio ver morrer. Sabe que h pessoas que se recusam a morrer? J ouviu alguma vez uma mulher gritar "Nunca!" no momento de morrer?
          Eu j. E descobri ento que no conseguia me habituar. Era novo, nesse tempo, e minha repugnncia julgava dirigir-se  prpria ordem do mundo. Depois tornei-me 
mais modesto. Simplesmente, no me habituei a ver morrer. No sei mais nada. Mas, afinal. . . - Rieux calou-se e voltou a sentar-se. Sentia a boca seca.
          - Afinal?... - perguntou suavemente Tarrou.
          - Afinal... - continuou o mdico, e voltou a hesitar, olhando para Tarrou com ateno. -  uma coisa que um homem como o senhor consegue compreender, no 
 verdade? J que a ordem do mundo  regulada pela morte, talvez convenha a Deus que no acreditemos nele e que lutemos com todas as nossas foras contra a morte, 
sem erguer os olhos para o cu, onde ele se cala.
          - Sim - concordou Tarrou -, compreendo. Mas suas vitrias sero sempre efmeras; mais nada.
          O semblante de Rieux pareceu anuviar-se.
          - Sempre, bem sei. No  uma razo para deixar de lutar.
          - No, no  uma razo. Mas imagino ento o que essa peste significa para o senhor.
          -  verdade - tornou Rieux. - Uma interminvel derrota.
          Tarrou fixou um momento o mdico. Depois levantou-se e caminhou pesadamente para a porta. Rieux seguiu-o. Alcanava-o j quando Tarrou, que parecia olhar 
para os ps, lhe perguntou:
          - Quem lhe ensinou tudo isso, doutor? A resposta veio imediatamente.
          - A misria.
          Rieux abriu a porta do escritrio e, no corredor, disse a Tarrou que ia descer tambm, pois precisava ver um de seus doentes no subrbio. O outro props 
acompanh-lo, e o mdico aceitou. No fim do corredor, encontraram a Sra. Rieux, a quem o mdico apresentou Tarrou.
          - Um amigo - disse.
          - Ah! - exclamou a Sra. Rieux. - Muito prazer em conhec-lo.
          Quando se afastou, Tarrou voltou-se mais uma vez para ela. No patamar, o mdico tentou em vo acender a luz. As escadas continuaram mergulhadas na noite. 
O mdico perguntava a si mesmo se seria o efeito de uma nova medida de economia. Mas no se podia saber. J h algum tempo que tudo nas casas e na cidade se estragava. 
Era talvez apenas  porque os porteiros e nossos concidados em geral j no tomavam cuidado com coisa alguma. Mas o mdico no teve tempo de continuar a interrogar-se 
porque a voz de Tarrou ressoava atrs dele:
          - Mais uma palavra, doutor, ainda que lhe parea ridcula: o senhor tem toda a razo.
          No escuro, Rieux encolheu os ombros para si prprio.
          - No sei, realmente. Mas o senhor, o que acha?
          - Oh - disse o outro, sem se perturbar -, tenho poucas coisas a aprender.
          O mdico parou, e o p de Tarrou, atrs dele, escorregou num degrau. Tarrou equilibrou-se, apoiando-se no ombro de Rieux.
          - Julga saber tudo da vida? - perguntou este.
          A resposta veio do escuro, trazida pela mesma voz tranqila.
          - Sim.
          Quando saram para a rua, compreenderam que era bastante tarde, onze horas, talvez. A cidade estava muda, povoada apenas de rumores. Muito longe, ouvia-se 
a sirene de uma ambulncia. Entraram no carro, e Rieux ligou o motor.
          -  preciso que v amanh ao hospital, por causa da vacina preventiva. Mas, para terminar e antes de entrar nessa histria, pense que tem ^ma probabilidade 
contra duas de sair disso.
          - Esses clculos, doutor, no tm sentido, sabe to bem quanto eu. H cem anos, uma epidemia de peste matou todos os habitantes de uma cidade da Prsia, 
exceto precisamente o lavador de defuntos, que nunca tinha deixado de exercer a profisso.
          - Teve sua terceira probabilidade, mais nada - disse Rieux, com uma voz subitamente mais surda. - Mas  verdade que temos ainda muito a aprender sobre 
esse assunto.
          Entravam agora nos subrbios. Os faris brilhavam nas ruas desertas. Pararam. Diante do automvel, Rieux perguntou a Tarrou se queria entrar, e o outro 
disse que sim. Um reflexo do cu iluminava os rostos. Rieux deu, de repente, um sorriso de amizade.
          - Vamos, Tarrou - disse ele. - O que o leva a ocupar-se de tudo isso?
          - No sei. Talvez minha moral.
          - Qual?
          - A compreenso.
          Tarrou voltou-se para a casa e Rieux no viu mais seu rosto at o momento de entrarem em casa do velho asmtico.
          Logo no dia seguinte, Tarrou ps-se a trabalhar e reuniu o primeiro grupo que devia ser seguido por muitos outros.
          A inteno do narrador no , entretanto, dar a essas equipes sanitrias mais importncia do que elas realmente tiveram. No seu lugar,  verdade que muitos 
de nossos concidados cederiam hoje  tentao de lhes exagerar o papel. Mas o narrador est antes tentado a acreditar que, ao dar demasiada importncia s belas 
aes, se presta finalmente uma homenagem indireta e poderosa ao mal. Pois, nesse caso, se estaria supondo que essas belas aes s valem tanto por serem raras e 
que a maldade e a indiferena so foras motrizes bem mais frequentes nas aes dos homens. Essa  uma ideia de que o narrador no compartilha. O mal que existe 
no mundo provm quase sempre da ignorncia, e a boa vontade, se no for esclarecida, pode causar tantos danos quanto a maldade. Os homens so mais bons que maus 
e, na verdade, a questo no  essa. Mas ignoram mais ou menos, e  a isso que se chama virtude ou vcio, sendo o vcio mais desesperado o da ignorncia, que julga 
saber tudo e se autoriza, ento, a matar. A alma do assassino  cega, e no h verdadeira bondade nem belo amor sem toda a clarividncia possvel.
           por isso que nossas equipes sanitrias, que se concretizaram graas a Tarrou, devem ser julgadas com uma satisfao objetiva.  por isso que o narrador 
no quer ser o propagandista por demais eloquente de uma vontade e de um herosmo a que atribui uma importncia apenas razovel. Mas continuar a ser o historiador 
dos coraes de nossos concidados que a peste tornara dilacerados e exigentes.
          com efeito, os que se dedicaram s equipes sanitrias no tiveram um mrito to grande em faz-lo, pois sabiam que era a nica coisa a fazer, e no se 
decidir faz-lo  que teria sido incrvel. Essas equipes ajudaram nossos concidados a penetrar mais na peste e persuadiram-nos, em parte, de que, uma vez que a 
doena existia, deviam fazer o necessrio para lutar contra ela. Uma vez que a peste se tornava o dever de alguns, ela surgiu realmente como era, isto , como o 
problema de todos.
          Est certo. Mas no se cumprimenta um professor por ensinar que dois e dois so quatro. Talvez o felicitemos por ter escolhido essa bela profisso. Digamos, 
pois, que era provvel que Tarrou e outros tivessem escolhido demonstrar que dois e dois eram quatro e no o contrrio, mas digamos tambm que essa boa vontade lhes 
era comum com a do professor, com a de todos aqueles que tm o corao igual ao do professor e que, para honra do homem, so mais  numerosos do que se pensa, ou 
pelo menos essa  a convico do narrador. Alis, este compreende muito bem a objeo que lhe poderia ser feita, ou seja, que esses homens arriscavam a vida. Mas 
chega sempre uma hora na histria em que l aquele que ousa dizer que dois e dois so quatro  punido l com a morte. O professor sabe muito bem disso. E a quesI to 
no  saber qual  a recompensa ou o castigo que espera esse raciocnio. A questo  saber se dois e dois so ou no quatro. Quanto a nossos concidados que ento 
arriscavam l a vida, tinham de decidir se estavam ou no na peste e se era ou no necessrio lutar contra ela.
          Muitos moralistas novos da nossa cidade diziam ento que nada servia para nada e que era preciso cair de joelhos.
          E Tarrou, Rieux e os amigos podiam responder isto ou aquilo, mas a concluso era sempre o que eles sabiam: era - preciso lutar, desta ou daquela maneira, 
e no cair de joelhos. Toda a questo residia em impedir o maior nmero possvel de homens de morrer e de conhecer a sepam rao definitiva. Para isso, havia um 
nico meio: combater a peste. Esta verdade no era admirvel, era apenas conseqente. 
          Por isso, era natural que o velho Gastei pusesse toda a sua confiana e toda a sua energia em  fabricar soros ali mesmo com material precrio. Rieux e 
ele esperavam que um soro fabricado com as culturas do prprio micrbio que infestava a cidade teria uma eficcia mais direta que os soros vindos do exterior, j 
que o micrbio diferia ligeiramente do bacilo da peste tal como era classicamente definido. Grand esperava ter em breve seu primeiro soro.
          Por isso era natural que Grand, que nada tinha de heri, assumisse agora uma espcie de secretaria das equipes  sanitrias. com efeito, parte dos grupos 
formados por Tarrou dedicava-se a um trabalho de assistncia preventiva nos bairros muito populosos. Tentava-se introduzir a a higiene necessria, contando-se as 
guas-furtadas e os pores que a desinfeco no tinha visitado. Uma outra parte dos grupos ajudava os mdicos nas visitas domiciliares, garantindo o transporte 
dos doentes e at, mais tarde, na ausncia de pessoal especializado, dirigia os carros dos doentes e dos mortos. Tudo isso exigia um trabalho de registro de estatstica 
que Grand aceitara fazer.
          Desse ponto de vista e mais que Rieux ou Tarrou, o narrador considera que Grand era o verdadeiro representante dessa virtude tranqila que animava as equipes 
sanitrias. Aceitara sem hesitao, com a boa vontade que o caracterizava. Manifestara apenas o desejo de se tornar til em pequenos trabalhos. Estava velho demais 
para o resto. Das dezoito s vinte horas podia dar seu tempo. E, como Rieux lhe agradecesse calorosamente, ele se admirava: "No  o mais difcil. H peste,  preciso 
nos defendermos, evidente. Ah, se tudo fosse to simples!" E repetia sua frase. Por vezes,  noite, quando o trabalho das fichas terminava, Rieux conversava com 
Grand. Tinham acabado por juntar Tarrou s suas conversas, e Grand se abria com um prazer cada vez mais evidente aos dois companheiros. Estes acompanhavam com interesse 
o trabalho paciente que Grand continuava, em meio  peste. Tambm eles, por fim, encontravam nisso uma espcie de repouso.
          "Como vai a amazona?", perguntava muitas vezes Tarrou. E Grand respondia invariavelmente, com um sorriso: "Vai trotando, vai trotando". Uma noite, Grand 
disse que tinha posto definitivamente de lado o adjetivo elegante para a sua amazona e que a classificava agora de esbelta. " mais concreto", acrescentara. Outra 
vez, leu para os dois ouvintes a primeira frase, assim modificada: "Numa bela manh de maio, uma esbelta amazona, montada numa soberba gua alaz, percorria as alias 
floridas do Bois de Boulougne".
          - No  verdade - disse Grand - que a vemos melhor assim? E eu preferi: "numa manh de maio, " porque "ms de maio" alongava um pouco o trote.
          Mostrou-se em seguida muito preocupado com o adjetivo "soberba". Era pouco sugestivo, em sua opinio, e ele procurava o termo que fotografasse imediatamente 
a gua faustosa que ele imaginava. "Gorda" no podia ser. Era concreto, mas um pouco pejorativo. "Reluzente" o havia tentado por um instante, mas o ritmo no se 
prestava. Certa noite, anunciou triunfalmente que tinha encontrado: "Uma negra gua alaz". O negro indicava discretamente a elegncia, em sua opinio.
          - No  possvel - disse Rieux.
          - E por qu?
          - Alaz no indica raa, mas a cor.
          - Que cor?
          - Bem, uma cor que, em todo caso, no  preto. Grand pareceu muito impressionado.
          - Muito obrigado - disse ele. - Ainda bem que o senhor est aqui. Mas veja como  difcil.
          - Que acha de "suntuosa"? - perguntou Tarrou. Grand olhou para ele, e refletiu.
          - Sim - disse. - Sim!
          E, pouco a pouco, esboava um sorriso.
          Algum tempo depois, confessou que a palavra "floridas" o constrangia. Como s conhecera Oran e Montlimar, s vezes pedia aos amigos indicaes sobre a 
forma como as alias do Bois eram floridas. A bem dizer, elas nunca tinham dado a impresso, a Rieux ou a Tarrou, de serem floridas, mas a convico do funcionrio 
os abalava. Ele estranhava aquela incerteza. S os artistas sabem olhar. Mas certa vez, o mdico encontrou-o numa grande excitao. Tinha substitudo "floridas" 
por "cheias de flores". Esfregava as mos. "Afinal, podemos v-las e cheir-las. Tirem o chapu, meus senhores!" Leu triunfalmente a frase: "Numa bela manh de maio, 
uma esbelta amazona, montada numa suntuosa gua alaz, percorria as alias cheias de flores do Bois de Boulogne". No entanto, 1:dos em voz alta, os trs genitivos 
que terminavam a frase soaram mal e Grand gaguejou um pouco. Acabrunhado, sentou-se. Depois, pediu ao mdico licena para ir embora. Tinha necessidade de refletir 
um pouco.
          Foi nessa poca, como se soube depois, que ele deu na repartio certos sinais de distrao considerados lamentveis num momento em que a prefeitura enfrentava, 
com um pessoal reduzido, obrigaes avassaladoras. O servio ressentiu-se disso, e o chefe da repartio repreendeu-o severamente, lembrando-lhe que era pago para 
executar um trabalho que precisamente no cumpria. "Parece", disse o chefe da repartio, "que o senhor faz servio voluntrio nas equipes sanitrias, fora do seu 
trabalho. Nada tenho com isso. O que me diz respeito  o seu trabalho aqui. E a primeira maneira de se tornar til nessas terrveis circunstncias  fazer bem seu 
trabalho. Ou seno o resto no serve para nada."
          - Ele tem razo - disse Grand a Rieux.
          - Sim, tem razo - concordou o mdico.
          - Mas eu ando distrado e no sei como sair do fim da minha frase.
          Tinha pensado em suprimir "de Boulogne", calculando que todos compreenderiam. Mas ento a frase parecia relacionar-se com "flores", o que, na realidade, 
se relacionava com "alias". Examinara tambm a possibilidade de escrever: "As alias do Bois cheias de flores". Mas a situao de "Bois" entre um substantivo e 
um adjetivo que ele separava arbitrariamente era como um espinho na carne. Certas noites,  bem verdade que ele parecia mais cansado que Rieux.
          Sim, estava fatigado por essa busca que o absorvia por completo, mas nem por isso deixava de fazer as somas e as estatsticas de que precisavam as equipes 
sanitrias. Pacientemente, todas as noites passava fichas a limpo, juntavalhes curvas e esforava-se lentamente por apresentar quadros to precisos quanto possvel. 
Muitas vezes, ia encontrar-se com Rieux em um dos hospitais e pedia-lhe uma mesa em algum gabinete ou enfermaria. Instalava-se l com seus papis, exatamente como 
se instalava  sua mesa na prefeitura, e no ar que os desinfetantes e a prpria doena tornavam espesso agitava as folhas para fazer secar a tinta. Tentava ento 
honestamente no pensar mais na sua amazona e fazer apenas o que era necessrio.
          Sim, se  verdade que os homens insistem em propor-se exemplos e modelos a que chamam heris, e se  absolutamente necessrio que haja um nesta histria, 
o narrador prope justamente esse heri insignificante e apagado que s tinha um pouco de bondade no corao e um ideal aparentemente ridculo. Isso dar  verdade 
o que lhe  devido,  adio de dois e dois o seu total de quatro, e ao herosmo o lugar secundrio que lhe cabe, logo depois, e nunca antes, da exigncia generosa 
da felicidade. Isso dar tambm a esta crnica seu carter, que deve ser o de uma relao feita com bons sentimentos, isto , sentimentos que nem so ostensivamente 
maus nem exaltadores  feia maneira de um espetculo.
          Era pelo menos a opinio do Dr. Rieux quando lia nos jornais ou ouvia no rdio os apelos e estmulos que o mundo exterior fazia chegar  cidade da peste. 
Ao mesmo tempo em que os socorros enviados por ar e por terra, todas as noites, pelas ondas ou pela imprensa, comentrios piedosos ou de admirao se abatiam sobre 
a cidade agora solitria. E todas as vezes, o tom de epopeia ou de discurso de distribuio de prmios impacientava o mdico. Naturalmente, ele sabia que essa solicitude 
no era fingida. Mas ela no se podia exprimir seno na linguagem convencional pela qual os homens tentam exprimir o que os liga  humanidade. E essa linguagem no 
se podia aplicar aos pequenos esforos dirios de Grand, por exemplo, por no poder exprimir o que Grand significava no meio da peste.
           meia-noite, por vezes, no grande silncio da cidade ento deserta, no momento de voltar  cama para um sono demasiado curto, o mdico girava o boto 
de seu aparelho. E, dos confins do mundo, atravs de milhares de quilmetros, vozes desconhecidas e fraternas tentavam desajeitadamente dizer sua solidariedade e 
diziam, de fato, mas demonstravam ao mesmo tempo a terrvel impotncia em que se encontra todo homem de compartilhar verdadeiramente uma dor que no pode ver. "Oran! 
Oran!" Em vo o apelo atravessava os mares, em vo Rieux se mantinha alerta, logo a eloquncia subia e acusava mais ainda a separao essencial que fazia de Grand 
e do orador dois estrangeiros. "Oran! Sim, Oran! Mas no", pensava o mdico, "amar ou morrer juntos, no h outro recurso. Eles esto muito longe."
          E justamente o que falta relatar antes de chegar ao auge da peste, enquanto o flagelo reunia todas as suas foras para lan-las sobre a cidade e apoderar-se 
dela definitivamente, so os longos esforos desesperados e montonos que os ltimos indivduos, como Rambert, faziam para reencontrar sua felicidade e tirar  peste 
essa parte deles mesmos que defendiam contra todos os ataques. Era essa sua maneira de recusar a servido que os ameaava, e embora essa recusa, aparentemente, no 
fosse to eficaz quanto a outra, a opinio do narrador  que ela tinha efetivamente um sentido e comprovava tambm nas suas prprias vaidades e contradies o que 
havia ento de altivez em cada um de ns.
          Rambert lutava para impedir que a peste o vencesse. Tendo adquirido a prova de que no poderia sair da cidade pelos meios legais, estava decidido, dissera 
a Rieux, a usar de outros. O jornalista comeou pelos garons dos bares. Um garom de bar est sempre a par de tudo. Mas os primeiros que ele interrogou estavam 
sobretudo a par das sanes muito graves que se aplicavam a esse gnero de empreendimento. Em certo caso, foi at tomado por um provocador.
          Foi-lhe necessrio encontrar Cottard em casa de Rieux para avanar um pouco. Nesse dia, Rieux e ele tinham falado mais uma vez nas vs diligncias que 
o jornalista fizera pelas reparties. Alguns dias depois, Cottard encontrou Rambert na rua e acolheu-o com a franqueza que sempre imprimia agora s suas relaes.
          - Nada de novo? - perguntou ele.
          - No, nada.
          - No se pode contar com as reparties. No foram feitas para a compreenso.
          -  verdade. Mas eu procuro outra coisa.  difcil.
          - Ah! - disse Cottard. - Compreendo.
          Ele conhecia um caminho, e a Rambert, que se admirava, explicou que h muito frequentava os cafs de Oran, onde tinha amigos e que estava informado sobre 
a existncia de uma organizao que se ocupava desse tipo de operao. A verdade  que Cottard, cujas despesas ultrapassavam agora as receitas, tinha se metido em 
negcios de contrabando de produtos racionados. Assim, revendia cigarros e lcool de m qualidade cujos preos subiam sem cessar e que lhe propiciavam uma pequena 
fortuna.
          - Tem certeza? - perguntou Rambert.
          - Tenho, j que me fizeram uma proposta.
          - E no aproveitou?
          - No seja desconfiado - disse Cottard, com um ar bonacho. - No aproveitei porque no tenho vontade de partir. Tenho minhas razes.
          E acrescentou, depois de um silncio:
          - No me pergunta quais so as minhas razes?
          - Suponho - respondeu Rambert - que isso no seja de minha conta.
          - Em certo sentido, na verdade, isso no  de sua conta. Mas em outro. . . Enfim, a nica coisa evidente  que me sinto bem melhor aqui desde que temos 
a peste conosco.
          O outro escutou o discurso:
          - Como entrar em contato com essa organizao?
          - Ah! - disse Cottard. - No  fcil. Venha comigo.
          Eram quatro horas da tarde. Sob um cu pesado, a cidade ardia lentamente. Todas as lojas tinham baixado os toldos. As ruas estavam desertas. Cottard e 
Rambert andavam por ruas com arcadas e caminharam longo tempo sem falar. Era uma das horas em que a peste se tornava invisvel.
          Esse silncio, essa morte das cores e dos movimentos podiam ser tanto os do vero quanto os do flagelo. No se sabia se o ar estava carregado de ameaas 
ou de poeira e de ardor. Era preciso observar e refletir para chegar  peste, j que ela s se traa por sinais negativos. Cottard, que tinha afinidades com ela, 
fez notar a Rambert, por exemplo, a ausncia de ces que, normalmente, deviam estar deitados de lado,  entrada dos corredores, de lngua de fora  procura de um 
frescor impossvel.
          Seguiram pelo Boulevard ds Palmiers, atravessaram a Place d'Armes e desceram para o Quartier de Ia Marine.  esquerda, um caf pintado de verde abrigava-se 
sob um toldo oblquo, de grossa lona amarela. Ao entrar, Cottard e Rambert enxugaram o suor da testa. Sentaram-se em cadeiras dobrveis de jardim diante de mesas 
de ferro verde. A sala estava absolutamente deserta. Moscas zumbiam no ar. Numa gaiola amarela pousada no balco, um papagaio, de penas cadas, estava abatido no 
poleiro. Velhos quadros representando cenas militares pendiam das paredes, cobertos de sujeira e de teias de aranha em espessos filamentos. Em todas as mesas de 
ferro e diante do prprio Rambert, secavam excrementos de galinha, cuja origem ele no compreendia muito bem at que de um canto obscuro, depois de um certo rebulio, 
saiu saltitando um galo magnfico.
          Nesse momen'^, o calor pareceu aumentar ainda mais. Cottard tirou o casaco e bateu na mesa. Um homenzinho, perdido num comprido avental azul, saiu do fundo, 
cumprimentou Cottard logo que pde v-lo, adiantou-se afastando o galo com um vigoroso pontap e perguntou, no meio dos cacarejes da ave, o que os senhores desejavam 
que lhes servisse. Cottard pediu vinho branco e perguntou por um certo Garcia. Segundo o homenzinho, j havia vrios dias que no o viam no caf.
          - Acha que ele vir esta tarde?
          - Ora! - disse o outro. - No estou dentro dele. Mas sabe a que horas costuma vir?
          - Sei, mas no  muito importante. Quero s apresentar-lhe um amigo.
          O garom enxugou as mos midas no avental.
          - Como? O senhor tambm se ocupa de negcios? "
          - Sim - respondeu Cottard. O homenzinho fungou:
          - Ento, volte hoje  tarde. vou mandar-lhe o garoto. Ao sair, Rambert perguntou de que negcios se tratava.
          - De contrabando, naturalmente. Eles fazem passar mercadorias pelas portas da cidade. Vendem com lucro.
          - Bem - disse Rambert. - E tm cmplices?
          - Justamente.
           tarde, o toldo estava levantado, o papagaio tagarelava na gaiola, e as mesas estavam rodeadas de homens em mangas de camisa. Um deles, com o chapu de 
palha para trs, de camisa branca sobre o peito cor de terra queimada, levantou-se  entrada de Cottard. Um rosto regular e queimado, olhos negros e pequenos, dentes 
brancos, dois ou trs anis nos dedos, parecia ter uns trinta anos.
          - Salve! - disse ele. - Vamos beber no balco. Tomaram trs rodadas em silncio.
          - E se sassemos? - disse ento Garcia. Desceram em direo ao porto, e Garcia perguntou o que queriam dele. Cottard disse-lhe que no era exatamente para 
negcios que queria apresentar-lhe Rambert, mas apenas para o que chamou "uma sada". Garcia caminhava reto em frente e ia fumando. Fez perguntas, dizendo "ele" 
ao falar de Rambert, sem parecer dar-se conta de sua presena.
          - Para qu? - perguntava.
          - A mulher est na Frana.
          - Ah!
          E algum tempo depois:
          - Qual  sua profisso?
          - Jornalista.
          -  uma profisso em que se fala muito. Rambert no dizia nada.
          -  um amigo - afirmou Cottard.
          Caminhava em silncio. Tinham chegado ao cais, cujo acesso estava interditado por grandes grades. Mas dirigiram-se a uma pequena taverna onde se vendiam 
sardinhas fritas, cujo cheiro chegava at eles.
          - De qualquer maneira, isso no  comigo, mas com Raoul. E  preciso que eu o encontre. No vai ser fcil.
          - Como? - perguntou Cottard, com animao. Ele est escondido?
          Garcia no respondeu. Perto da taverna, parou e voltou-se para Rambert pela primeira vez.
          - Depois de amanh, s onze horas, na esquina do prdio da Alfndega. - Fez meno de partir, mas voltou-se para os dois homens.
          - H despesas - acrescentou.
          -  claro - aprovou Rambert.
          Pouco depois, o jornalista agradeceu a Cottard:.
          - Oh! no - disse o outro com jovialidade. - Tenho prazer em prestar-lhe um servio. E depois voc  jornalista, qualquer dia me retribui isso.
          Dois dias depois, Rambert e Cottard subiam as grandes ruas sem sombra que levam ao alto da nossa cidade. Uma parte do prdio da Alfndega tinha sido transformada 
em enfermaria e, diante da grande porta, postavam-se pessoas vindas na esperana de uma visita que no podia ser autorizada ou  procura de informaes que, de uma 
hora para outra, caducariam. Em todo caso, esse ajuntamento permitia muitas idas e vindas, e podia supor-se que essa circunstncia no era diferente da maneira como 
o encontro de Garcia e de Rambert tinha sido marcado.
          -  curiosa - disse Cottard - essa obstinao em partir. Em suma, o que se passa  bem interessante.
          - No para mim - respondeu Rambert.
          - Oh!  claro que se arrisca alguma coisa. Mas, afinal, arriscava-se a mesma coisa, antes da peste, ao atravessar uma rua muito movimentada.
          Nesse momento, o automvel de Rieux parou junto deles. Tarrou dirigia, e Reux parecia meio adormecido. Acordou para fazer as apresentaes.
          - J nos conhecemos - disse Tarrou. - Moramos no" mesmo hotel.
          Ofereceu a Rambert lev-lo para a cidade.
          - No, temos um encontro aqui. Rieux olhou para Rambert:
          - Sim - disse este.
          - Ah! - admirou-se Cottard - o doutor est a par?
          - A vem o juiz de instruo - avisou Tarrou, olhando para Cottard.
          Este mudou de expresso. com efeito, o Sr. Othon descia a rua e avanava para eles, num passo vigoroso e compassado. Tirou o chapu ao passar pelo pequeno 
grupo.
          - Bom dia, senhor juiz - cumprimentou Tarrou.
          O juiz cumprimentou os ocupantes do automvel e, olhando para Cottard e Rambert, que tinham ficado atrs, saudou-os gravemente com a cabea. Tarrou apresentou 
o capitalista e o jornalista. O juiz olhou para o cu por um segundo e suspirou, dizendo que era uma poca bem triste.
          - Disseram-me, Sr. Tarrou, que se ocupa da aplicao de medidas profilticas. Permita-me que o felicite. Pensa, doutor, que a doena vai se propagar?
          Rieux respondeu que era necessrio esperar que no e o juiz repetiu que era preciso esperar sempre, que os desgnios da Providncia eram insondveis. Tarrou 
perguntou-lhe se os acontecimentos lhe haviam trazido um aumento de trabalho.
          - Pelo contrrio, os casos que chamamos de direito comum diminuem. S tenho que instruir infraes graves s novas disposies. Nunca se respeitaram tanto 
as leis antigas.
          -  que, em comparao - disse Tarrou -, elas parecem boas, necessariamente.
          O juiz abandonou o ar sonhador que assumira, com o olhar como que suspenso do cu. E examinou Tarrou com um ar frio:
          - Que diferena faz? - perguntou. - No  a lei que conta,  a condenao. Nada podemos contra isso.
          - Aquele - disse Cottard, quando o juiz partiu  o inimigo nmero um.
          O carro arrancou.
          Um pouco mais tarde, Rambert e Cottard viram Garcia chegar. Avanou para eles sem lhes fazer sinal e disse,  guisa de cumprimento:
          -  preciso esperar.
           volta deles, a multido, em que predominavam mulheres, esperava num silncio total. Quase todas carregavam cestos que tinham a v esperana de poder 
fazer passar aos parentes doentes e a ideia, ainda mais louca, de que estes poderiam utilizar suas provises. A porta estava guardada por soldados armados e, de 
vez em quando, um grito estranho atravessava o ptio que ficava em frente da porta. Na assistncia, rostos inquietos voltavam-se para a enfermaria.
          Os trs homens contemplavam esse espetculo quando, s suas costas, um "bom dia" claro e grave os fez voltarem-se. Apesar do calor, Raoul estava vestido 
muito corretamente. Alto e forte, vestia um terno jaqueto de cor escura e um chapu de abas reviradas. Tinha o rosto bastante plido. com os olhos castanhos e a 
boca cerrada, Raoul falava de uma maneira rpida e precisa:
          - Vamos descer para a cidade - ordenou. - Garcia, voc pode nos deixar.
          Garcia acendeu um cigarro e deixou-os afastarem-se. Caminharam rapidamente, acertando o passo pelo de Raoul, que se colocara no meio.
          - Garcia explicou-me - disse. - A coisa pode ser arranjada. De qualquer maneira, vai custar-lhe de  mil francos.
          Rambert respondeu que aceitava.
          - Almoce comigo, amanh, no restaurante espanhol do Quartier de Ia Marine.
          Rambert concordou e Raoul apertou-lhe a mo, sorrindo pela primeira vez. Depois de sua partida, Cottard desculpou-se. No estaria livre no dia seguinte 
e, alm disso, Rambert no precisava dele.
          Quando, no dia seguinte, o jornalista entrou no restaurante espanhol, todas as cabeas se voltaram  sua passagem. O poro sombrio, situado numa pequena 
rua amarela e seca pelo sol, s era frequentado por homens, a maior parte de tipo espanhol. Mas logo que Raoul, instalado a uma mesa no fundo, fez um sinal ao jornalista 
e este se dirigiu para ele, a curiosidade desapareceu dos rostos, que voltaram aos seus pratos. Raoul tinha  sua mesa um sujeito alto, magro e mal barbeado, de 
ombros desmedidamente largos, rosto cavalar e cabelos espessos. Os braos compridos e delgados, cobertos de plos negros, saam de uma camisa de mangas arregaadas. 
Acenou com a cabea trs vezes quando Rambert lhe foi apresentado. O seu nome no havia sido pronunciado, e Raoul referia-se a ele como "nosso amigo".
          - Nosso amigo acha possvel ajud-lo. Ele vai. . . Raoul calou-se, pois a empregada aproximava-se para servir Rambert. - Ele vai p-lo em contato com dois 
de nossos amigos que o apresentaro a dois guardas que trabalham conosco. Mas a coisa no termina a. Os prprios guardas  que devem indicar o momento propcio. 
O mais simples seria o senhor instalar-se durante algumas noites em casa de um deles que mora perto das portas. Antes, porm, nosso amigo vai facilitar-lhe os contatos 
necessrios. Quando tudo estiver arranjado,  a ele que deve pagar.
          O amigo mais uma vez sacudiu a cabea de cavalo, sem parar de mastigar a salada de tomate e pimentes que engolia. Depois, falou com um leve sotaque espanhol. 
Props a Rambert que se encontrassem dois dias depois, s oito horas da manh, debaixo do prtico da catedral.
          - Mais dois dias - observou Rambert, 
          -  que no  fcil - disse Raoul. -  preciso encontrar as pessoas.
          O cavalo concordou mais uma vez e Rambert aprovou sem entusiasmo. O resto do almoo desenrolou-se na procura de um assunto. Mas tudo se tornou muito fcil 
quando Rambert descobriu que o cavalo era jogador de futebol. Ele prprio praticara esse esporte. Falou-se, portanto, no campeonato da Frana, do valor dos times 
profissionais ingleses e da ttica em W. No fim do almoo, o cavalo estava totalmente animado e tratava Rambert por tu, para persuadi-lo de que no havia lugar mais 
belo num time que o de centromdio. "Compreendes", dizia ele, "o centro-mdio  quem distribui o jogo. E distribuir o jogo, isso  futebol." Rambert era da mesma 
opinio, embora tivesse sempre jogado como centro-avante. A discusso foi interrompida apenas por um aparelho de rdio que, depois de ter entoado em surdina melodias 
sentimentais, anunciou que na vspera a peste fizera cento e trinta e sete vtimas. Ningum reagiu na sala. O homem de cabea de cavalo encolheu os ombros e levantou-se. 
Raoul e Rambert imitaram-no.
          Ao partir, o centro-mdio apertou a mo de Rambert com energia.
          - Chamo-me Gonzlez - disse.
          Esses dois dias pareceram interminveis a Rambert. Dirigiu-se  casa de Rieux e contou-lhe com detalhes suas diligncias. Depois, acompanhou o mdico em 
uma de suas visitas e despediu-se dele  porta da casa, onde o esperava um doente suspeito. No corredor, um barulho de corridas e de vozes: avisavam  famlia da 
chegada do mdico.
          - Espero que Tarrou no demore - disse Rieux. Parecia cansado.
          - A epidemia est andando muito rpido? - perguntou Rambert.
          Rieux disse que no era isso e que at a curva da estatstica subia mais devagar. Simplesmente, os meios de luta contra a peste no eram ainda suficientes.
          - Falta-nos material - disse. - Em todos os exrcitos do mundo, substitui-se geralmente a falta de material por homens. Mas tambm h falta de homens.
          - Vieram mdicos do exterior e sanitaristas.
          - Sim - disse Rieux -, dez mdicos e uma centena de homens. Aparentemente,  muito. Mal chega para o estgio atual da doena. Ser insuficiente, se a epidemia 
se propagar.
          Rieux apurou o ouvido aos rudos do interior, depois sorriu para Rambert.
          - Sim - disse -, deve apressar-se para resolver logo o caso.
          Uma sombra passou pelo rosto do jornalista.
          - Sabe, no  isso que me faz partir. - Rieux respondeu que sabia, mas Rambert continuou: - Creio que no sou covarde, pelo menos no sempre. J tive ocasio 
de prov-lo. S qu h ideias que no consigo suportar.
          O mdico olhou-o de frente.
          - Vai encontr-la - disse.
          - Talvez, mas no consigo suportar a ideia de que isso vai demorar muito e que ela vai envelhecer  durante todo este tempo. Aos trinta anos, comea-se 
a envelhecer, e  preciso aproveitar tudo. No sei se consegue me entender.
          Rieux murmurava que julgava compreender, quando Tarrou chegou, muito animado.
          - Acabo de pedir a Paneloux que se junte a ns.
          - E ento? - perguntou o mdico.
          - Ele refletu e concordou.
          - Fico satisfeito - disse o mdico. - Fico satisfeito em saber que ele  melhor que seu sermo.
          - Todos so assim - afirmou Tarrou. -  preciso apenas dar-lhes uma oportunidade.
          Sorriu e piscou o olho para Rieux.
          - E a minha funo na vida  dar oportunidades.
          - Desculpe-me - disse Rambert -, mas preciso chegar a tempo.
          Na quinta-feira do encontro, Rambert dirigiu-se ao prtico da catedral cinco minutos antes das oito horas. O ar estava ainda bastante fresco. No cu avanavam 
pequenas nuvens brancas e redondas que a vinda do calor logo desfaria. Um vago cheiro de umdade subia ainda do gramado, no entanto seco. O sol, por detrs das casas 
do leste, aquecia apenas o capacete da Joana d'Are toda dourada que guarnecia a praa. Um relgio deu oito badaladas. Rambert ensaiou alguns passos sob o prtico 
deserto. Vagas salmodias chegavam-lhe do interior com velhos perfumes de poro e de incenso. De repente, os cnticos cessaram. Uma dezena de pequenos vultos negros 
saram da igreja e puseram-se a caminhar em direo  cidade. Rambert comeava a impacientar-se. Outros vultos negros faziam a ascenso das grandes escadas e dirigiam-se 
para o prtico. Acendeu um cigarro, mas depois pensou que talvez no fosse permitido naquele lugar.
          s oito e quinze, os rgos da catedral comearam a tocar em surdina. Rambert penetrou na abbada escura. Ao fim de um instante conseguiu distinguir na 
nave os pequenos vultos negros que tinham passado por ele. Estavam todos reunidos a um canto, em frente a uma espcie de altar improvisado, onde acabavam de instalar 
um So Roque executado s pressas numa das oficinas da cidade. Ajoelhados, pareciam ter-se encolhido ainda mais, perdidos entre os tons cinzentos como pedaos de 
sombra coagulada, pouco mais espessos, aqui e ali, que a bruma na qual flutuavam. Por cima deles, os rgos executavam variaes sem fim.
          Quando Rambert saiu, Gonzlez j descia as escadas e dirigia-se  cidade.
          - Pensei que tinha ido embora - disse ele ao jornalista. - Seria natural.
          Explicou que tinha esperado os amigos num outro encontro que marcara, no longe dali, s dez para as oito. Mas esperara por eles vinte minutos, em vo.
          - Naturalmente, h algum problema. Nem sempre se fica  vontade no trabalho que fazemos.
          Propunha um outro encontro para o dia seguinte,  mesma hora, junto do monumento aos mortos. Rambert suspirou e atirou o chapu para a nuca.
          - No  nada - concluiu Gonzlez, rindo. - Pensa s em todos os deslocamentos, os ataques e os passes que  preciso fazer para marcar um gol.
          - Claro - disse, ainda, Rambert -, mas a partida s dura hora e meia.
          O monumento aos mortos de Oran encontra-se no nico lugar de onde se pode ver o mar, uma espcie de passeio que ladeia, numa distncia bastante curta, 
as falsias que dominam o porto. No dia seguinte, Rambert, o primeiro a chegar, lia com ateno a lista dos mortos no campo de batalha. Alguns minutos depois, aproximaram-se 
dois homens, olharam-no com indiferena, depois foram encostar-se ao parapeito da avenida e pareciam inteiramente absorvidos na contemplao dos cais vazios e desertos. 
Eram ambos da mesma estatura, vestidos com as mesmas calas azuis e idntica camiseta de malha azul-marinho de mangas curtas. O jornalista afastou-se um pouco, depois 
sentou-se num banco e pde observ-los  vontade. Viu ento que, com certeza, no tinham mais de vinte anos. Nesse momento viu Gonzlez, que caminhava em direo 
a ele, desculpando-se.
          - Estes so nossos amigos - disse, conduzindo-o na direo dos dois rapazes, que apresentou com os nomes de Mareei e Louis. De frente, pareciam-se muito, 
e Rambert calculou que fossem irmos.
          - Pronto - disse Gonzlez. - Agora a apresentao est feita. Falta fazer o negcio.
          Mareei ou Louis disse ento que seu planto comearia dentro de dois dias, duraria uma semana e que seria preciso escolher o dia mais conveniente. Eram 
quatro a guardar a porta de oeste e os dois outros eram militares de carreira. No havia condies de envolv-los no negcio. No eram de confiana e, alm disso, 
s viriam aumentar as despesas. Mas s vezes, em determinadas noites, os dois colegas iam passar uma parte da noite na sala dos fundos de um bar que eles conheciam. 
Mareei ou Louis propunha assim a Rambert que fosse instalar-se em casa deles, prximo das portas, e que esperasse que viessem busc-lo. A passagem seria ento muito 
fcil. Mas era preciso no perder tempo, porque se falava ultimamente em instalar postos duplos no exterior da cidade.
          Rambert concordou e ofereceu alguns dos seus ltimos cigarros. O rapaz que ainda no tinha falado perguntou ento a Gonzlez se a questo do pagamento 
estava resolvida e se podiam receber um adiantamento.
          - No - disse Gonzlez. - No vale a pena,  um conhecido. As despesas sero pagas na sada.
          Combinaram novo encontro. Gonzlez props um jantar no restaurante espanhol, dois dias depois. De l, poderiam seguir para a casa dos guardas.
          - Na primeira noite - disse ele a Rambert -, eu te fao companhia.
          No dia seguinte, Rambert, ao subir ao seu quarto, cruzou com Tarrou na escada do hotel.
          - Vou encontrar-me com Rieux - disse. - Quer vir?
          - Nunca sei se o estou incomodando - disse Rambert, depois de uma hesitao.
          - No acho. Ele falou-me muito em voc. O jornalista refletia:
          - Oua - disse. - Se dispuserem de um momento depois do jantar, mesmo tarde, venham os dois ao bar do hotel.
          - Isso depende dele e da peste - disse Tarrou.
          No entanto, s onze horas da noite Rieux e Tarrou entraram no bar, pequeno e estreito. Umas trinta pessoas acotovelavam-se l, falando muito alto. Recm-chegados 
do silncio da cidade infestada, os dois pararam, um pouco aturdidos. Compreenderam a agitao ao verem que ainda serviam bebidas alcolicas. Rambert estava numa 
ponta do balco e fazia-lhes sinais do alto de seu banco. Eles o cercaram, Tarrou empurrando, com tranqilidade, um fregus barulhento.
          - O lcool no os assusta?
          - No - respondeu Tarrou. - Pelo contrrio.
          Rieux aspirou o cheiro de ervas amargas do seu copo. Era difcil nesse tumulto, mas Rambert parecia sobretudo ocupado em beber. O mdico no podia julgar 
ainda se ele estava bbado. Numa das duas mesas que ocupavam o resto do local onde se encontravam, um oficial da Marinha, com uma mulher em cada brao, relatava 
a um gordo interlocutor congestionado uma epidemia de tifo no Cairo. "Acampamentos", dizia ele, "tinham feito acampamentos para os indgenas, com tendas para doentes 
e, em toda a volta, um cordo de sentinelas que atiravam contra a famlia quando ela tentava trazer clandestinamente remdios caseiros. Era duro, mas era certo." 
Na outra mesa, ocupada por rapazes elegantes, a conversa era incompreensvel e perdia-se nos compassos do Saint James Infirmary, derramados por um pick-up colocado 
no alto.
          - Est contente? - perguntou Rieux, elevando a voz.
          - Est prximo - disse Rambert. - Talvez esta semana.
          -  pena - gritou Tarrou.
          - Por qu?
          Tarrou olhou para Rieux.
          - Oh! - disse este. - Tarrou diz isso porque acha que voc podia nos ser til aqui. Mas eu compreendo muito bem o seu desejo de partir.
          Tarrou ofereceu outra rodada. Rambert desceu do banco e olhou-o de frente pela primeira vez:
          - Em que poderia eu ser-lhes til?
          - Bem - disse Tarrou, estendendo a mo para o copo, sem pressa. - Nas nossas equipes sanitrias.
          Rambert retomou o ar de profunda reflexo que lhe era habitual e subiu de novo no banco.
          - Essas equipes no lhe parecem teis? - perguntou Tarrou, que acabava de beber e olhava para Rambert com ateno.
          - Muito teis - respondeu o jornalista. E bebeu. Rieux notou que sua mo tremia. Pensou que com toda a certeza, sim, ele estava totalmente bbado.
          No dia seguinte, quando Rambert entrou pela segunda vez no restaurante espanhol, passou no meio de um pequeo grupo de homens que tinham puxado cadeiras 
para a calada e saboreavam uma tarde verde e dourada em que o calor comeava apenas a abrandar. Fumavam um tabaco de cheiro acre. No interior, o restaurante estava 
quase deserto. Rambert foi sentar-se  mesa do fundo, onde encontrara Gonzlez j pela primeira vez. Disse  empregada que esperaria. Eram l sete e meia. Pouco a 
pouco, os homens voltaram  sala de] jantar e instalaram-se. Comearam a servi-los, e a abbada j muito baixa encheu-se de rudos de talheres e de conversas! surdas. 
s oito horas, Rambert ainda esperava. Acenderam a luz. Novos clientes instalaram-se  mesa. Pediu o jantar. s oito e meia, terminara sem ter visto Gonzlez nem 
os dois rapazes. Fumou. A sala esvaziava-se lentamente. L fora, a noite caa muito rapidamente. Uma brisa morna que vinha do mar levantava suavemente as cortinas 
das janelas. s nove horas, Rambert viu que a sala estava vazia e que a empregada olhava para ele com espanto. Pagou e saiu. Em frente ao restaurante um caf estava 
aberto. Rambert instalou-se no balco para vigiar a entrada do restaurante. s nove e meia dirigiu-se ao seu hotel, procurando imaginar como havia de encontrar Gonzlez, 
cujo endereo no tinha, com o corao desanimado por todas as providncias que teria de retomar.
          Foi nesse momento, na noite atravessada por ambulncias apressadas, que ele compreendeu, como viria a dizer ao Dr. Rieux, que durante todo esse tempo tinha 
de algum modo esquecido a mulher, para dedicar-se inteiramente <  busca de uma abertura nos muros que o separavam dela. Mas foi nesse momento tambm que, com todos 
os caminhos mais uma vez fechados, ele a encontrou de novo no centro do seu desejo e com uma irrupo to sbita de dor que comeou a correr para o hotel a fim de 
fugir a essa queimadura atroz que, no entanto, levava consigo e que lhe devorava as tmporas.
          Entretanto, no dia seguinte muito cedo, procurou Rieux para perguntar-lhe como poderia encontrar Cottard.
          - Tudo o que me resta fazer - disse -  seguir de novo a pista.
          - Venha amanh  noite - disse Rieux. - Tarrou pediu-me que convidasse Cottard, no sei para qu. Ele deve chegar s dez horas. Venha s dez e meia.
          Quando, no dia seguinte, Cottard chegou  casa do mdico, Tarrou e Rieux falavam de uma cura inesperada que ocorrera no servio deste ltimo.
          - Um em dez. Teve sorte - dizia Tarrou.
          - Bem! - exclamou Cottard. - Ento no era peste. Garantiram-lhe que se tratava efetivamente da doena.
          - No  possvel, j que est curado. Sabem to bem quanto eu que a peste no perdoa.
          - Em geral, no - disse Rieux. - Mas, com um pouco de obstinao, tem-se surpresas.
          Cottard ria.
          - No me parece. Ouviu os nmeros, esta tarde? Tarrou, que olhava para o capitalista com benevolncia, respondeu que conhecia os nmeros e que a situao 
era grave, mas que provava isso? Provava que eram necessrias medidas ainda mais excepcionais.
          - O senhor j as tomou.
          - J, mas  preciso que cada um as tome por conta prpria.
          Cottard olhava para Tarrou sem compreender. Este disse que homens demais continuavam inativos, que a epidemia dizia respeito a todos e que cada um devia 
cumprir seu dever. As equipes voluntrias estavam abertas a todos.
          -  uma ideia - disse Cottard -, mas isso no servir para nada. A peste  forte demais.
          - Vamos saber - retorquiu pacientemente Tarrou quando tivermos tentado tudo.
          Durante esse tempo Rieux,  sua secretria, copiava fichas. Tarrou continuava a olhar para o capitalista, que se agitava na cadeira.
          - Por que no se junta a ns, Sr. Cottard?
          O outro levantou-se com ar ofendido e pegou o chapu redondo:
          - No  minha profisso. - Depois, num tom de bravata, acrescentou: - Alm disso, sinto-me bem na peste. No vejo por que haveria de me empenhar em faz-la 
cessar.
          Tarrou bateu na testa, como que iluminado por uma verdade sbita.
          - Ah!  verdade, ia me esquecendo, sem isso, o senhor seria preso.
          Cottard estremeceu e agarrou-se  cadeira, como se fosse cair. Rieux tinha parado de escrever e olhava-o com um ar srio e interessado.
          - Quem lhe disse isso? - gritou o capitalista. Tarrou mostrou-se surpreso e respondeu:
          - Mas o senhor mesmo. Ou, pelo menos, foi o que o doutor e eu julgamos compreender.
          E como Cottard, invadido de repente por uma raiva forte demais para ele, gaguejasse palavras incompreensveis, acrescentou:
          - No se irrite. No ser o doutor nem eu que vamos denunci-lo. A sua histria no nos diz respeito. E, alm disso, a polcia  algo de que jamais gostamos. 
Vamos, sente-se.
          O capitalista olhou para a cadeira e sentou-se, aps uma hesitao. Um momento depois, suspirou.
          -  uma velha histria - reconheceu - que eles desenterraram. Achei que estava esquecida. Mas houve um que falou. Mandaram chamar-me e disseram que me 
mantivesse  disposio deles at o fim do inqurito. Compreendi que acabariam por me prender.
          -  grave? - perguntou Tarrou.
          - Depende da interpretao. De qualquer forma, no  um assassinato, em todo caso.
          - Priso ou trabalhos forados? Cottard parecia muito abatido.
          - Priso, se tiver sorte...
          Mas logo depois, recomeou, com veemncia:
          - Foi um erro. Todos erram. E no consigo suportar a ideia de ser preso por isso, de ser separado da minha casa, dos meus hbitos, de todos os que conheo.
          - Como? - perguntou Tarrou. - Foi por isso que resolveu enforcar-se?
          - Foi. Uma bobagem,  claro.
          Rieux falou pela primeira vez e disse a Cottard que compreendia a sua inquietao, mas que talvez tudo se solucionasse.
          - Ah! Por ora, sei que nada tenho a temer.
          - Vejo - disse Tarrou - que no entrar para nossas equipes.
          O outro, que fazia girar o chapu entre as mos, levantou para Tarrou um olhar incerto.
          - No me queiram mal por isso.
          - Claro que no. Mas tente, ao menos - disse Tarrou, sorrindo -, no propagar voluntariamente o micrbio.
          Cottard protestou que no tinha querido a peste, que ela viera espontaneamente e que no era culpa sua se ela o beneficiava no momento. E quando Rambert 
chegou  porta, o capitalista acrescentou com muita energia na voz:
          - De resto, minha ideia  que no conseguir nada. Rambert soube que Cottard desconhecia o endereo de Gonzlez, mas que podiam sempre voltar ao pequeno 
caf. Marcaram encontro para o dia seguinte. E, como Rieux manifestasse o desejo de ser informado, Rambert convidou-o a ir com Tarrou ao seu quarto, no fim da semana, 
a qualquer hora da noite.
          De manh, Cottard e Rambert foram ao caf e deixaram recado para Garcia marcando encontro para a tarde, ou no dia seguinte, em caso de impedimento.  tarde, 
esperaram em vo. No dia seguinte, Garcia estava l. Ouvia em silncio a histria de Rambert. No estava a par, mas sabia que haviam fechado bairros inteiros, durante 
vinte e quatro noras, a fim de proceder a verificaes domiciliares. Era possvel que Gonzlez e os dois rapazes no tivessem conseguido atravessar as barreiras. 
Tudo o que podia fazer era coloc-lo de novo em contato com Raoul. Naturalmente, no seria antes de dois dias.
          - Compreendo - disse Rambert. -  preciso recomear tudo.
          Dois dias depois, na esquina de uma rua, Raoul confirmou a hiptese de Garcia: os bairros inferiores tinham sido fechados. Era preciso entrar novamente 
em contato com Gonzlez. Dois dias depois, Rambert almoava com o jogador de futebol.
          -  uma idiotice - dizia. - Devamos ter combinado uma maneira de nos encontrarmos.
          Essa era tambm a opinio de Rambert.
          - Amanh de manh, iremos  casa dos garotos e trataremos de resolver tudo.
          No dia seguinte, os garotos no estavam em casa. Deixaram-lhe recado para que aparecesse no dia seguinte, ao meio-dia, na Place du Lyce. E Rambert voltou 
para casa com uma expresso que impressionou Tarrou quando o encontrou  tarde:
          - Algum problema? - perguntou-lhe.
          - Fui obrigado a recomear - respondeu Rambert. E renovou o convite:
          - Aparea esta noite.
           noite, quando os dois homens penetraram no quarto de Rambert, ele estava estendido na cama. Levantou-se e encheu os copos que tinha preparado. Rieux, 
pegando o seu, perguntou-lhe se as coisas estavam bem encaminhadas. O jornalista respondeu que tinha feito tudo de novo, que chegara ao mesmo ponto e que teria em 
breve o seu ltimo encontro. Bebeu e acrescentou:
          - Naturalmente, eles no viro.
          -  preciso no fazer disso um princpio - disse Tarrou.
          - Os senhores no compreenderam ainda - respondeu Rambert, encolhendo os ombros.
          - O qu?
          - A peste.
          - Ah! - exclamou Rieux.
          - No, no compreenderam que consiste em recomear.
          Rambert foi a um canto do quarto e abriu um pequeno fongrafo.
          - Que disco  este? - perguntou Tarrou. - Conheo a msica.
          Rambert respondeu que era o Saint James Infirmary. No meio do disco, ouviram-se dois tiros dispararem ao longe.
          - Um co ou uma fuga - disse Tarrou.
          Um momento depois, o disco acabou e a sirene de uma ambulncia se definiu, aumentou, passou sob as janelas do hotel, diminuiu e finalmente extinguiu-se.
          - Este disco no  nada bom - disse Rambert. E alm disso, j o ouvi pelo menos dez vezes hoje.
          - Gosta tanto assim dele?
          - No, mas s tenho este, 
          E um momento depois, acrescentou:
          - Eu no disse que tudo consiste em recomear? Perguntou a Rieux como iam as equipes. Havia cinco grupos trabalhando. Esperavam criar outros. O jornalista 
tinha se sentado na cama e parecia preocupado com as unhas. Rieux examinava-lhe a silhueta curta e robusta, curvada  beira da cama. Descobriu de repente que Rambert 
o fitava.
          - Sabe, doutor, pensei muito na sua organizao. Se no estou nela,  porque tenho minhas razes. Quanto ao resto, creio que saberia ainda sacrificar a 
minha vida: fiz a guerra na Espanha.
          - De que lado? - perguntou Tarrou.
          - Do lado dos vencidos. Mas desde ento, pensei um pouco.
          - Em qu? - insistiu Tarrou.
          - Na coragem. Agora, sei que o homem  capaz de grandes aes. Mas se no for capaz de um grande sentimento, no me interessa.
          - Temos a impresso de que ele  capaz de tudo disse Tarrou.
          - No.  incapaz de sofrer ou de ser feliz por muito tempo. Portanto, no  capaz de nada que preste.
          Olhou para eles e continuou:
          - Vejamos, Tarrou, voc  capaz de morrer por um amor?
          - No sei, mas parece-me que no, agora.
          - Est vendo? Voc  capaz de morrer por uma ideia,  visvel a olho nu. Pois bem, estou farto das pessoas que morrem por uma ideia. No acredito em herosmo. 
Sei que  fcil e aprendi que  criminoso. O que me interessa  que se viva e que se morra pelo que se ama.
          Rieux escutara o jornalista com ateno. Sem deixar de olhar para ele, disse, suavemente:
          - O homem no  uma ideia, Rambert.
          O outro saltou da cama com o rosto inflamado de paixo.
          -  uma ideia, e uma ideia curta, a partir do momento em que se desvia do amor. E, justamente, ns j no somos capazes de amar. Resignemo-nos, doutor. 
Esperemos vir a s-lo e, se verdadeiramente no for possvel, esperemos a libertao geral sem brincar de heri. No irei mais longe.
          Rieux levantou-se com um ar de sbito cansao.
          - Tem razo, Rambert, tem toda a razo, e por nada deste mundo eu gostaria de demov-lo do que vai fazer, que me parece justo e bom. Mas devo dizer-lhe 
uma coisa: no se trata de herosmo. Trata-se de honestidade.  uma ideia que talvez faa rir, mas a nica maneira de lutar contra a peste  a honestidade.
          -  que  honestidade? - perguntou Rambert, com um ar subitamente srio.
          - No sei o que ela  em geral. Mas no meu caso, sei que consiste em fazer o meu trabalho.
          - Ah! - disse Rambert com raiva. - No sei qual  o meu trabalho. Na verdade, talvez esteja errado ao escolher o amor.
          Rieux o enfrentou:
          - No - disse com energia -, no est errado. Rambert olhava-os, pensativo.
          - Creio que ambos nada tm a perder em tudo isso.  mais fcil ficar do lado bom.
          Rieux esvaziou o copo.
          - Vamos - disse. - Temos muito que fazer. E saiu.
         
          Tarrou seguiu-o, mas pareceu mudar de ideia no movimento de sair; voltou-se para o jornalista e disse: 
          - Sabe que a mulher de Rieux se encontra numa casa de sade a algumas centenas de quilmetros daqui?
          Rambert fez um gesto de surpresa, mas Tarrou j sara. 1 Muito cedo, no dia seguinte, Rambert telefonou para o mdico.
          - Aceitaria que eu trabalhasse com o senhor at encontrar um meio de deixar a cidade?
          Houve um silncio do outro lado da linha, e depois Rieux disse:
          - Sim, Rambert. Muito obrigado, 
          Assim, durante semanas, os prisioneiros da peste debateram-se como puderam. E alguns, como Rambert, chegavam at a imaginar, como se v, que ainda agiam 
como homens livres, que ainda podiam escolher. Mas, na realidade, podia-se dizer nesse momento, nos meados do ms de agosto, que a peste tudo dominara. J no havia 
ento destinos individuais, mas uma histria coletiva que era a peste e sentimentos compartilhados por todos. O maior era a separao e o exlio, com o que isso 
comportava de medo e de revolta. Eis por que o narrador acha conveniente, no auge do calor e da doena, descrever de maneira geral e a ttulo de exemplo as violncias 
dos nossos concidados vivos, os enterros dos defuntos e o sofrimento dos amantes separados.
          Foi no meio desse ano que o vento se ergueu e soprou durante vrios dias na cidade empestada. O vento  particularmente temido pelos habitantes de Oran, 
pois no encontra nenhum obstculo natural no planalto em que ela est construda e invade assim as ruas com toda a violncia. Depois desses longos meses em que 
nem uma gota de gua refrescara a cidade, ela se recobrira de uma camada cinzenta que se descamava ao sopro do vento. Esse levantava assim ondas de poeira e de papis 
que batiam nas pernas dos transeuntes, agora mais raros. Passavam apressados pelas ruas, curvados para a frente, com a mo ou um leno sobre a boca.  noite, em 
lugar das reunies em que se tentava prolongar o mais possvel esses dias em que cada um podia ser o ltimo, encontravam-se pequenos grupos de pessoas com pressa 
de voltar para casa ou de entrar nos cafs, se bem que durante alguns dias, com o crepsculo que chegava bem mais rpido nessa poca, as ruas ficavam desertas e 
s o vento soltava lamrias contnuas. Do mar agitado e sempre invisvel, vinha um cheiro de algas e de sal. Essa cidade deserta, branca de poeira, saturada de odores 
marinhos, toda sonora dos gritos do vento, gemia ento corno uma ilha infeliz.
          At aqui, a peste tinha feito muito mais vtimas nos bairros perifricos, mais povoados e menos confortveis do que no centro da cidade. Mas ela pareceu 
de repente aproximar-se e instalar-se tambm nos bairros comerciais. Os habitantes acusavam o vento de transportar os germes da infeco. "Ele baralha as cartas", 
dizia o gerente do hotel. Fosse como fosse, porm, os bairros do centro sabiam que sua vez tinha chegado ao ouvirem vibrar muito perto deles, na noite, e cada vez 
mais frequentemente, a sirene das ambulncias que faziam ressoar sob suas janelas o apelo montono e desapaixonado da peste.
          At no prprio interior da cidade, teve-se a ideia de isolar certos bairros particularmente castigados e de s autorizar a sada dos homens cujos servios 
eram indispensveis. Os que ali viviam at ento no puderam deixar de considerar essa medida como uma pea que lhes havia sido pregada especialmente e, em todo 
caso, pensavam, por contraste, nos habitantes dos outros bairros como homens livres. Estes, por outro lado, nos seus momentos difceis, consolavam-se ao imaginar 
que outros eram ainda menos livres que eles. "H sempre algum mais prisioneiro que eu", era a frase que resumia ento a nica esperana possvel.
          Mais ou menos nessa poca, houve tambm uma recrudescncia de incndios, sobretudo nos bairros residenciais  porta oeste da cidade. As informaes revelaram 
que se tratava de pessoas egressas da quarentena e que, enlouquecidas pelo luto e pela desgraa, ateavam fogo s suas casas na iluso de dizimar a peste. Foi muito 
difcil combater esses empreendimentos, cuja frequncia submetia bairros inteiros a um perigo constante devido  violncia do vento. Depois de ter demonstrado em 
vo que a desinfeco das casas, feita pelas autoridades, bastava para excluir qualquer risco de contgio, foi necessrio instituir penas severas contra os incendirios 
inocentes. E sem dvida, no era a pena de priso que fazia recuar esses infelizes, mas a certeza, comum a todos os habitantes, de que uma pena de priso equivalia 
a uma pena de morte em consequncia da excessiva mortalidade verificada na penitenciria municipal. Evidentemente, essa crena no era destituda de fundamento: 
por motivos bvios, parecia que a peste se empenhara em atacar particularmente aqueles que tinham adquirido o hbito de viver em grupo: soldados, religiosos e prisioneiros. 
Apesar do isolamento de certos detidos, uma priso  uma comunidade e a prova disto  que na nossa priso municipal os guardas, tanto quanto os presos, pagavam seu 
tributo  doena. Do ponto de vista superior da peste, todos aqueles homens, desde o diretor ao ltimo dos detidos, estavam condenados e, talvez pela primeira vez, 
reinava na priso uma justia absoluta.
          Foi em vo que as autoridades tentaram introduzir hierarquia nesse nivelamento, concebendo a ideia de condecorar os guardas da priso mortos no exerccio 
de suas funes. Como fora decretado o estado de stio e, de certa forma, podia-se considerar que os guardas da priso estavam mobilizados, a medalha militar lhes 
era concedida a ttulo pstumo. No entanto, se os detidos no fizeram ouvir nenhum protesto, os meios militares no aceitaram bem a ideia e fizeram notar, com razo, 
que se podia estabelecer no esprito do pblico uma lamentvel confuso. Fez-se justia ao seu pedido e pensou-se que o mais simples era atribuir aos guardas a medalha 
da epidemia. Para os primeiros, porm, o mal estava feito, no se podia pensar em retirar-lhes as condecoraes, e os meios militares continuaram a manter, o seu 
ponto de vista. Por outro lado, no que se refere  medalha da epidemia, ela apresentava o inconveniente de no produzir o efeito moral que se obtivera atravs da 
atribuio de uma condecorao militar, j que, em tempo de epidemia, era banal obter uma condecorao desse gnero. Todos ficaram descontentes.
          Alm disso, a administrao da penitenciria no pde atuar como as autoridades religiosas e, em menor escala, as militares. Na verdade, os monges dos 
dois nicos conventos da cidade tinham sido dispersados e alojados provisoriamente em casa de famlias piedosas. Da mesma forma, sempre que possvel, eram destacadas 
pequenas companhias das casernas para se aquartelarem em escolas e edifcios pblicos. Assim, a doena que, aparentemente, tinha forado os habitantes  solidariedade 
de sitiados quebrava ao mesmo tempo as associaes tradicionais e devolvia os indivduos  sua solido. Isso causava tumultos.
          Pode-se pensar que todas essas circunstncias, acrescentadas ao vento, levaram tambm o incndio a certos espritos. As portas da cidade foram atacadas 
de novo durante a noite e por vrias vezes, mas dessa feita por pequenos grupos armados. Houve troca de tiros, feridos e algumas fugas. Os postos de guarda foram 
reforados e essas tentativas cessaram com certa rapidez. No entanto, isso bastou para levantar na cidade um sopro de revoluo que provocou algumas cenas de violncia. 
Casas incendiadas ou fechadas por motivos sanitrios foram saqueadas. A bem da verdade,  difcil supor que esses atos tenham sido premeditados. Na maior parte das 
vezes, uma oportunidade sbita levava pessoas at ento respeitveis a aes repreensveis que eram logo imitadas. Encontraram-se, assim, indivduos furiosos capazes 
de se precipitar numa casa ainda em chamas na presena do prprio proprietrio, imbecilizado pela dor. Diante de sua indiferena, o exemplo dos primeiros foi seguido 
por muitos espectadores e nessa rua obscura,  luz do incndio, viram-se fugir por todos os lados sombras deformadas pelas chamas moribundas e pelos objetos ou mveis 
que carregavam nos ombros. Foram incidentes que foraram as autoridades a assimilar o estado de peste ao estado de stio e a aplicar as leis decorrentes. Fuzilaram-se 
dois ladres, mas no  certo que isso impressionasse os outros, pois no meio de tantos mortos, as duas execues passaram despercebidas: eram uma gota de gua no 
oceano. E na verdade, cenas semelhantes se desenrolaram com bastante frequncia sem que as autoridades fizessem meno de intervir. A nica medida que pareceu impressionar 
os habitantes foi a instituio do toque de recolher. A partir de onze horas, mergulhada na noite completa, a cidade era de pedra.
          Sob os cus enluarados, ela alinhavava os muros esbranquiados e suas ruas retilneas, jamais manchadas pela massa negra de uma rvore, jamais perturbadas 
pelos passos de um transeunte ou pelo latido de um co. A grande cidade silenciosa no passava ento de um aglomerado de cubos macios e inertes, entre os quais 
as efgies taciturnas de benfeitores esquecidos ou de grandes homens antigos, sufocados para sempre no bronze, tentavam sozinhos, com seus falsos rostos de pedra 
ou de bronze, evocar uma imagem degradada do que fora o homem. Esses dolos medocres reinavam sob um cu espesso nas encruzilhadas sem vida, brutos insensveis 
que bem representavam o reino imvel em que havamos entrado ou pelo menos, a sua ordem ltima, a de uma necrpole em que a peste, a pedra e a noite teriam feito 
calar, enfim, todas as vozes.
          Mas a noite tambm estava em todos os coraes, e as verdades, como as lendas que se contavam sobre os enterros, no eram feitas para tranqilizar nossos 
concidados. Porque  efetivamente necessrio falar dos enterros, e o narrador pede desculpas. Sente naturalmente a crtica que lhe poderia ser feita a respeito, 
mas a nica justificativa  que houve enterros durante toda essa poca e que, de certo modo, o obrigaram, como obrigaram a todos os nossos concidados, a preocupar-se 
com enterros. No  que ele goste desse tipo de cerimnias, preferindo, pelo contrrio, a sociedade dos vivos, e, para dar um exemplo, os banhos de mar. Mas, afinal, 
os banhos de mar tinham sido suprimidos, e a sociedade dos vivos receava durante todo o dia ser obrigada a ceder lugar  sociedade dos mortos. Era a evidncia. Na 
verdade era sempre possvel esforar-se por no v-la, fechar os olhos e recus-la, mas a evidncia tem uma fora terrvel que acaba sempre vencendo. Qual o meio, 
por exemplo, de recusar os enterros no dia em que nossos entes queridos precisam ser enterrados?
          Pois bem, o que caracterizava no incio nossas cerimnias era a rapidez! Todas as formalidades haviam sido simplificadas e, de uma maneira geral, a pompa 
fnebre fora suprimida. Os doentes morriam longe da famlia e tinham sido proibidos os velrios rituais, de modo que os que morriam  tardinha passavam a noite ss 
e os que morriam de dia eram enterrados sem demora. Naturalmente, a famlia era avisada, mas, na maior parte dos casos, no podia deslocar-se por estar de quarentena, 
se tinha vivido perto do doente. No caso de a famlia no morar com o defunto, apresentava-se  hora indicada da partida para o cemitrio, depois de o corpo ter 
sido lavado e colocado no caixo.
          Suponhamos que essa formalidade se passara no hospital auxiliar de que se ocupava o Dr. Rieux. A escola tinha uma sada por trs do edifcio principal. 
Num grande cmodo que dava para o corredor, amontoavam-se os caixes. No prprio corredor a famlia encontrava um nico caixo, j fechado. Passava-se logo ao mais 
importante, quer dizer, fazia-se o chefe da famlia assinar papis. Em seguida, colocava-se o corpo num carro que podia ser um verdadeiro carro funerrio ou uma 
ambulncia transformada. Os parentes tomavam um dos txis ainda autorizados e, a toda a velocidade, os carros dirigiam-se ao cemitrio por ruas exteriores.  porta, 
os guardas faziam parar o cortejo, davam uma carimbada no salvo-conduto oficial, sem o qual era impossvel ter o que nossos concidados chamam de ltima morada, 
desapareciam, e os carros iam colocar-se perto de um quadrado onde numerosas covas esperavam que as enchessem. Um padre acolhia o corpo, pois os servios fnebres 
tinham sido suprimidos na igreja. Tiravam o caixo para as preces, passavam-lhe uma corda, era arrastado, deslizava, batia no fundo, o padre agitava o seu hissope 
e j a primeira p de terra caa sobre o esquife. A ambulncia partira urr, pouco antes para se submeter a uma desinfeco e, enquanto as ps de terra ressoavam 
cada vez mais surdas, a famlia entrava num txi. Quinze minutos depois, chegava  casa.
          Assim, tudo se passava na verdade com o mximo de rapidez e o mnimo de riscos. E, sem dvida, no princpio pelo menos,  evidente que o sentimento natural 
das famlias se ofendia. Em tempos de peste porm no  possvel levar em conta semelhantes consideraes: tinha-se sacrificado tudo  eficcia. Alm disso, se a 
princpio o moral da populao se ressentira com essas prticas, porque o desejo de ser enterrado decentemente  muito mais profundo do que se supe, pouco depois, 
por felicidade, o problema do abastecimento tornou-se delicado e o interesse dos habitantes derivou para preocupaes mais imediatas. Absorvidas pelas filas que 
era preciso fazer, pelas providncias a tomar e pelas formalidades a cumprir caso quisessem comer, as pessoas no tiveram tempo de se ocupar da maneira como se morria 
 sua volta e como elas prprias morreriam um dia. Assim, essas dificuldades materiais que deviam ser um mal revelaram-se depois um benefcio. E tudo teria corrido 
bem, se a epidemia no se tivesse alastrado, como j vimos.
          Porque os caixes escassearam, faltou pano para as mortalhas e lugar nos cemitrios. Foram necessrias algumas precaues. O mais simples, e ainda por 
razes de eficcia, pareceu ser agrupar as cerimnias e, quando a coisa era necessria, multiplicar as viagens entre o hospital e o cemitrio. Assim, no que diz 
respeito ao servio de Rieux, o hospital dispunha nesse momento de cinco caixes. Uma vez cheios, a ambulncia os transportava. No cemitrio eram esvaziados, os 
corpos cor de ferro eram colocados em macas e esperavam num local preparado para esse fim. Os caixes eram regados com uma soluo anti-sptica e levados novamente 
para o hospital, onde a operao recomeava tantas vezes quantas fossem necessrias. A organizao era, portanto, muito boa e o prefeito mostrava-se satisfeito. 
Disse at a Rieux que afinal isso valia mais que as carretas morturias conduzidas por negros, tal como se lia nas cerimnias de antigas pestes.
          - Sim - respondeu Rieux -,  o mesmo enterro, mas ns fazemos fichas. O progresso  incontestvel.
          Apesar desses xitos de administrao, o carter desagradvel de que se revestiam agora as formalidades obrigou a prefeitura a afastar os parentes da cerimnia. 
Tolerava-se apenas que viessem at a porta do cemitrio e nem isso era oficial. Sim, pois, no que se refere  ltima cerimnia, as coisas tinham mudado um pouco. 
Num extremo do cemitrio, num local coberto de lentisco, tinham sido abertas duas enormes fossas. Havia a fossa dos homens e a das mulheres. Sob esse aspecto, as 
autoridades respeitavam as convenincias, e foi s muito mais tarde que, pela fora das circunstncias, este ltimo pudor desapareceu e se enterraram de qualquer 
maneira, uns sobre os outros, sem preocupaes de decncia, os homens e as mulheres. Felizmente, essa confuso extrema marcou apenas os ltimos momentos do flagelo. 
No perodo de que nos ocupamos, a separao das fossas existia, e as autoridades eram muito exigentes em relao a isso. No fundo de cada uma delas, uma espessa 
camada de cal viva fumegava e fervilhava. Nas bordas do mesmo buraco, um montculo da mesma cal deixava suas bolhas arrebentarem ao ar livre. Depois de acabadas 
as viagens da ambulncia, levavam-se as macas em cortejo, deixavam escorregar para o fundo, mais ou menos ao lado uns dos outros, os corpos desnudados e ligeiramente 
retorcidos que, nesse momento, eram recobertos de cal viva e depois, de terra, mas s at uma certa altura, a fim de poupar espao para os futuros hspedes. No dia 
seguinte, os parentes eram convidados a assinar um registro, o que mostra a diferena que pode haver entre os homens e, por exemplo, os ces: a verificao era sempre 
possvel.
          Para todas essas operaes era preciso pessoal e este estava sempre prestes a faltar. Muitos desses enfermeiros e coveiros, primeiros-oficiais, depois 
improvisados, morreram de peste. Por mais precaues que se tomassem, o contgio acabava por se fazer um dia. No entanto, quando se pensa bem, o mais extraordinrio 
 que nunca faltaram homens para exercer essa profisso durante todo o tempo da epidemia. O perodo crtico ocorreu um pouco antes de a peste ter atingido o seu 
auge, e as inquietaes do Dr. Rieux eram ento fundamentadas. Nem para os trabalhos especializados, nem para o que se chamavam os trabalhos grosseiros, a mode-obra 
era suficiente. Mas, a partir do momento em que a peste se apossou realmente de toda a cidade, ento seu prprio excesso provocou consequncias bastante cmodas, 
pois ela desorganizou a vida econmica e suscitou assim um nmero considervel de desempregados. Na maior parte dos casos, estes no permitiam recrutamento para 
os tcnicos, mas os trabalhos grosseiros encontraram-se extremamente facilitados. A partir desse momento, na realidade, viu-se sempre a misria mostrar-se mais forte 
que o medo, tanto mais que o trabalho era pago na proporo dos riscos. Os servios sanitrios puderam dispor de uma lista de pretendentes e, logo que havia uma 
vaga, avisavam-se os primeiros da lista que, salvo no caso de terem tambm entrado em frias no intervalo, no deixavam de se apresentar. Foi assim que o prefeito 
que hesitara muito tempo em utilizar os condenados temporrios ou condenados  priso perptua, para esse gnero de trabalhos, pde evitar que se chegasse a esse 
extremo. Enquanto houvesse desempregados, ele era de opinio que se podia esperar.
          Bem ou mal, o fato  que at o fim do ms de agosto, nossos concidados, puderam, pois, ser conduzidos  sua ltima morada, se no decentemente, pelo menos 
com uma ordem suficiente para que a administrao mantivesse a conscincia de que cumpria seu dever. Mas  necessrio antecipar um pouco a sequncia dos acontecimentos 
para relatar os ltimos procedimentos a que foi preciso recorrer. com efeito, no estgio em que a peste se manteve, a partir do ms de agosto o acmulo de vtimas 
ultrapassou em muito as possibilidades que nosso pequeno cemitrio podia oferecer. De nada servira derrubar muros, abrir aos mortos uma sada para os terrenos vizinhos: 
em breve tornou-se necessrio encontrar outra coisa. Decidiu-se, em primeiro lugar, fazer os enterros  noite, o que logo dispensou certos cuidados. Puderam amontoar-se 
os corpos cada vez mais numerosos nas ambulncias. E alguns retardatrios que, contra todas as regras, ~se encontravam ainda nos bairros exteriores depois do toque 
de recolher (ou aqueles que o dever levava para l) encontravam por vezes longas ambulncias brancas que corriam a toda a velocidade, fazendo soar discretamente 
a sirene nas ruas vazias da noite. Apressadamente, os corpos eram lanados nas fossas. Mal tinham acabado de cair e j as ps de cal se abatiam sobre os rostos, 
e a terra os cobria de modo annimo, nas covas que se abriam cada vez mais profundas.
          Um pouco depois, contudo, foi preciso procurar outro lugar, tomar outras medidas. Um decreto da prefeitura expropriou os jazigos perptuos e todos os restos 
exumados foram encaminhados ao forno crematrio. Em breve, tornou-se necessrio conduzir os prprios mortos da peste para a cremao. Mas, ento, foi preciso utilizar 
o antigo forno de incinerao que se encontrava a leste da cidade, fora das portas. Afastou-se para mais longe o piquete da guarda e um empregado da prefeitura facilitou 
muito a tarefa das autoridades ao aconselhar o uso dos bondes que antigamente serviam  orla martima e que se encontravam desativados. Para esse fim, arrumou-se 
o interior dos veculos retirando-se os assentos e desviou-se a linha para o forno, que se tornou, assim, uma estao final.
           durante todo o fim do vero, como em meio s chuvas do outono, era possvel ver passar,  beira-mar, no corao de cada noite, estranhos cortejos de 
bondes sem passageiros, oscilando acima do mar. Os habitantes acabaram sabendo do que se tratava. E, apesar das patrulhas que proibiam o acesso  orla martima, 
alguns grupos conseguiam insinuar-se com certa frequncia por entre os rochedos escarpados sobre as vagas para atirar flores aos carros,  passagem dos bondes. Ouviam-se, 
ento, solavancos dos veculos, na noite de vero, com sua carga de flores e de mortos.
          Pela manh, em todo caso, nos primeiros dias, um vapor espesso e nauseabundo pairava sobre os bairros orientais da cidade. Na opinio dos mdicos, essas 
exalaes, embora desagradveis, no eram nocivas a ningum. Mas os habitantes desses bairros ameaaram imediatamente abandon-los, persuadidos de que a peste assim 
se abatia tambm sobre eles do alto dos cus, de modo que as autoridades foram obrigadas a desviar a fumaa por um sistema de canalizaes complicadas e os habitantes 
acalmaram-se. S nos dias de muito vento um vago cheiro vindo do leste lhes lembrava que estavam instalados numa nova ordem e que, todas as noites, as chamas da 
peste devoravam a sua tribo.
          Foram essas as consequncias extremas da epidemia. Mas, felizmente, ela no aumentou depois, porque se pode calcular que a engenhosidade de nossas reparties, 
as disposies da prefeitura e at mesmo a capacidade de absoro do forno poderiam ter sido ultrapassadas. Rieux sabia que se tinham previsto ento solues desesperadas, 
como o lanamento dos cadveres ao mar, e imaginava facilmente sua espuma monstruosa sobre a gua azul. Sabia tambm que, se as estatsticas continuassem a subir, 
nenhuma organizao, por melhor que fosse, resistiria; que os homens viriam a morrer amontoados e apodrecer na rua, apesar da prefeitura, e que a cidade veria, nas 
praas pblicas, os mortos agarrarem-se aos vivos, com um misto de dio legtimo e de estpida esperana.
          De qualquer forma era esse tipo de evidncia ou de apreenso que mantinha, em nossos concidados, o sentimento do exlio e. da separao. A esse respeito, 
o narrador sabe perfeitamente quanto  lamentvel no poder relatar aqui algo de verdadeiramente espetacular como, por exemplo, algum heri altrusta ou alguma ao 
brilhante, semelhantes aos que se encontram nas velhas histrias.  que nada  menos espetacular que um flagelo e, pela sua prpria durao, as grandes desgraas 
so montonas. Na lembrana dos sobreviventes, os dias terrveis da peste no surgem como grandes chamas interminveis e cruis e sim como um interminvel tropel 
que tudo esmaga  sua passagem.
          No, a peste nada tinha a ver com as grandes imagens exaltadas que tinham perseguido o Dr. Rieux no princpio da epidemia. Ela era, em primeiro lugar, 
uma administrao prudente e impecvel de bom funcionamento.  assim que, diga-se entre parnteses, para nada trair e, sobretudo, para no se trair a si prprio, 
o narrador tendeu para a objetividade. No quis modificar quase nada pelos efeitos da arte, a no ser no que diz respeito s necessidades bsicas de um relato mais 
ou menos coerente. E  a prpria objetividade que o obriga agora a dizer que, se o grande sofrimento dessa poca, tanto o mais geral quanto o mais profundo, era 
a separao, e se  indispensvel, em sua conscincia, fazer dele uma nova descrio nessa fase da peste, no deixa de ser verdade que at esse sofrimento era ento 
menos pattico.
          Teriam nossos concidados, pelo menos os que mais haviam sofrido com essa separao, se habituado  situao? No seria inteiramente justa essa afirmao. 
Seria mais exato afirmar que, tanto moral quanto fisicamente, sofriam com a desencarnao. No comeo da peste, lembravam-se nitidamente do ente que haviam perdido 
e sentiam saudade. Mas, se se lembravam nitidamente do rosto amado, de seu riso, de determinado dia que agora reconheciam ter sido feliz, tinham dificuldade de imaginar 
o que o outro podia estar fazendo no prprio momento em que o evocavam e em lugares de agora em diante to longnquos. Em suma, nesse momento, tinham memria, mas 
uma imaginao insuficiente. Na segunda fase da peste, perderam tambm a memria. No que tivessem esquecido esse rosto, mas, o que vem a dar no mesmo, ele perdera 
a carne, j no o sentiam no interior de si prprios. E, enquanto tendiam a queixarse, nas primeiras semanas, de s lhes restarem sombras das coisas amadas, compreenderam, 
com a continuao, que essas sombras podiam tornar-se ainda mais descarnadas ao perderem at as cores nfimas que a recordao conservava. Ao fim desse longo tempo 
de separao j no imaginavam essa intimidade que fora sua, nem como havia podido viver perto deles um ser em que podiam a todo momento pousar a mo.
          Desse ponto de vista, tinham entrado na prpria ordem da peste, tanto mais eficaz quanto mais medocre era. Ningum mais, entre ns, tinha grandes sentimentos. 
Mas todos experimentavam sentimentos montonos. " tempo de acabar com isso", diziam nossos concidados, porque em perodo de flagelo  normal desejar o fim dos 
sofrimentos coletivos, e na verdade desejavam que aquilo acabasse. Mas tudo isso se dizia sem o calor e sem o sentimento amargo do princpio e apenas com as poucas 
razes que nos restavam ainda claras e que eram bem pobres  Ao grande impulso feroz das primeiras semanas, sucedera um abatimento que seria erro considerar como 
resignao, mas que nem por isso deixava de ser uma espcie de aquiescncia provisria.
          Nossos concidados tinham-se adaptado, como se costuma dizer, porque no havia outro modo de proceder. Tinham ainda, naturalmente, a atitude da desgraa 
e do sofrimento, mas j no os sentiam. De resto, o Dr. Rieux, por exemplo, achava que essa era justamente a desgraa e que o hbito do desespero  pior que o prprio 
desespero. Antes, os separados no eram realmente infelizes, pois havia no seu sofrimento uma luz que acabava de se extinguir. Agora, eram vistos pelas esquinas, 
nos cafs ou em casa dos amigos, plcidos e distrados, e com um ar to entediado que, graas a eles, toda a cidade parecia uma sala de espera. Os que tinham uma 
profisso, executavam-na ao ritmo da prpria peste, meticulosamente e sem brilho. Todos eram modestos. Pela primeira vez, os separados no tinham repugnncia em 
falar dos ausentes, em usar a linguagem de todos, em examinar sua separao sob o mesmo enfoque que as estatsticas da epidemia. Enquanto, at ento, tinham subtrado 
ferozmente seu sofrimento  desgraa coletiva, aceitavam agora a confuso. Sem memrias e sem esperana, instalavam-se no presente. Na verdade, tudo se tornava presente 
para eles. A peste,  preciso que se diga, tirara a todos o poder do amor e at mesmo da amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para ns s havia instantes.
           claro que nada disso era absoluto. Pois se  verdade que todos os separados chegaram a esse estado,  justo acrescentar que no chegaram todos ao mesmo 
tempo e que, da mesma forma, uma vez instalados nessa nova atitude, lampejos, retrocessos, bruscos estados de lucidez, levavam os pacientes a uma sensibilidade mais 
nova e mais dolorosa. Eram necessrios para isso momentos de distrao, em que eles formavam algum projeto que implicava o fim da peste. Era preciso que eles sentissem, 
inopinadamente e por efeito de alguma graa, a mordida de um cime sem objeto. Outros encontravam tambm renascimentos sbitos, saam do seu torpor em certos dias 
da semana, no domingo, naturalmente, e aos sbados  tarde, porque esses dias eram consagrados a certos ritos, do tempo do ausente. Ou, ento, uma certa melancolia 
que os invadia ao fim da tarde davalhes o aviso, alis, nem sempre confirmado, de que a memria ia voltar. Essa hora da tarde, que para os crentes  a do exame de 
conscincia,  dura para o prisioneiro ou o exilado que s pode examinar o vcuo. Ela os mantinha suspensos por um momento; depois, voltavam  atonia, encerravam-se 
na peste.
          J se compreendeu que isso consistia em renunciarem ao que tinham de mais pessoal. Ao passo que nos primeiros tempos da peste eles se surpreendiam com 
a quantidade de pequenas coisas que contavam muito para eles, sem terem qualquer existncia para os outros, e faziam assim a experincia da vida pessoal; agora, 
pelo contrrio, s se interessavam por aquilo que interessava aos outros, j no tinham seno ideias gerais e seu prprio amor assumira para eles a forma mais abstrata. 
Estavam a tal ponto abandonados  peste que lhes acontecia s vezes s desejarem o sono e surpreenderem-se a pensar: "Que venham logo os tumores e se acabe com isso!" 
Mas, na realidade, j estavam dormindo, e todo esse tempo no foi mais que um longo sono. A cidade estava povoada por sonolentos acordados que s escapavam realmente 
ao seu destino nos raros momentos em que, de noite, sua ferida aparentemente fechada se reabria bruscamente. E, despertados em sobressalto, apalpavam ento, distrados, 
os bordos irritados dessa ferida, redescobrindo num lampejo seu sofrimento, subitamente rejuvenescido e com ele, a imagem perturbada do seu amor. De manh, voltavam 
ao flagelo, quer dizer,  rotina.
          Mas, perguntar-se-, que aspecto tinham esses separados? Pois bem, muito simples: no tinham aspecto nenhum. Ou, se se prefere, tinham o aspecto de todos, 
um aspecto inteiramente geral. Compartilhavam a placidez e as agitaes pueris da cidade. Perdiam as aparncias do senso crtico ao mesmo tempo em que ganhavam as 
aparncias do sanguefrio. Podia-se ver, por exemplo, os mais inteligentes fingirem procurar, como todos, nos jornais ou nas emisses radiofnicas, razes para acreditar 
num fim rpido da peste e conceberem, aparentemente, esperanas quimricas ou sentirem receios sem fundamento ao ler consideraes que um jornalista havia escrito 
um pouco ao acaso, bocejando de tdio. Os demais bebiam sua cerveja ou tratavam de seus doentes, preguiavam ou se esgotavam, arquivavam fichas ou faziam girar discos 
sem se distinguirem muito uns dos outros. Em outras palavras: j no escolhiam nada. A peste suprimira os juzos de valor. E isso se via pela maneira como ningum 
mais se ocupava da qualidade do vesturio ou dos alimentos que se compravam. Aceitava-se tudo em bloco.
          Para encerrar, pode-se dizer que os separados j no tinham esse curioso privilgio que no princpio os preservava. Tinham perdido o egosmo do amor e 
as vantagens que dele tiravam. Pelo menos agora, a situao era clara: o flagelo era problema de todos. Todos ns, no meio das detonaes que irrompiam s portas 
da cidade, dos carimbos que marcavam o compasso de nossa vida ou de nossa morte, em meio aos incndios e s fichas, ao terror e s formalidades, prometidos a uma 
morte ignominiosa, mas registrada, entre fumaas terrveis e as sirenes tranqilas das ambulncias, todos ns nos nutramos do mesmo po do exlio, esperando sem 
o saber a mesma reunio e a mesma paz perturbadoras. Nosso amor, sem dvida, estava presente ainda, mas simplesmente era inutilizvel, pesado, inerte, estril, como 
o crime ou a condenao. No era mais que uma pacincia sem futuro e uma espera obstinada. E, desse ponto de vista, a atitude de alguns de nossos concidados fazia 
pensar nas longas filas, nos quatro cantos da cidade, diante das lojas de alimentos. Era a mesma resignao e a mesma persistncia, ao mesmo tempo ilimitada e sem 
iluses. Seria apenas necessrio elevar esse sentimento a uma escala mil vezes maior no que diz respeito  separao, porque se tratava ento de uma outra fome, 
capaz de tudo devorar.
          Em todo caso, supondo que se queira ter uma ideia justa do estado de esprito em que se encontravam os separados de nossa cidade, seria preciso evocar 
de novo as eternas tardes douradas e poeirentas que caam sobre a cidade sem rvores, enquanto homens e mulheres se espalhavam por todas as ruas. Porque, estranhamente, 
o que chegava ento dos terraos ainda ensolarados, na ausncia dos rudos de veculos e de mquinas que normalmente constituem toda a linguagem das cidades, era 
apenas um rumor de passos e de vozes surdas, o doloroso deslizar de milhares de solas, ritmado pelo silvo do flagelo no cu pesado, um interminvel e sufocante arrastar 
de ps que enchia pouco a pouco toda a cidade e que, tarde aps tarde, dava sua voz mais fiel e mais melanclica  obstinao cega que, em nossos coraes, substitua 
ento o amor.
          
          
       IV
          
          Durante os meses de setembro e outubro, a peste manteve a cidade sob seu domnio. J que se tratava de marcar passo, vrias centenas de milhares de homens 
continuaram a arrastar os ps durante semanas interminveis. A bruma, o calor e a chuva sucederam-se no cu. Bandos silenciosos de estorninhos e de tordos, vindos 
do sul, passaram muito alto, mas contornaram a cidade como se o flagelo de Paneloux, a estranha pea de madeira que girava, aos silvos, por cima das casas, os mantivesse 
 distncia. No comeo de outubro grandes tempestades varreram as ruas. E durante todo esse tempo nada de importante se produziu alm desse monstruoso arrastar de 
ps.
          Rieux e seus amigos descobriram ento a que ponto estavam cansados. Na verdade, os homens dos grupos sanitrios j no conseguiam digerir esse cansao. 
O Dr. Rieux apercebia-se disso ao observar nos amigos e em si prprio a evoluo de uma curiosa indiferena. Esses homens, por exemplo, que at aqui tinham mostrado 
vivo interesse por todas as notcias que diziam respeito  peste, j no se preocupavam com elas. Rambert, que fora encarregado provisoriamente de dirigir uma das 
casas de quarentena, instalada h pouco no seu hotel, conhecia perfeitamente o nmero dos que tinha em observao. Estava a par dos mnimos pormenores do sistema 
de evacuao imediata que organizara para aqueles que mostravam subitamente sinais de doena. A estatstica dos efeitos do soro sobre os internados estava gravada 
em sua memria. Mas era incapaz de dizer o nmero semanal das vtimas da peste, ignorava se ela realmente progredia ou recuava. E, apesar de tudo, mantinha a esperana 
de uma evaso prxima.
          Quanto aos outros, absorvidos em seu trabalho dia e noite, no liam os jornais nem ouviam rdio. E se lhes anunciavam um resultado, simulavam interessar-se, 
mas acolhiamno, na verdade, com a indiferena distrada que atribumos aos combatentes das grandes guerras, esgotados pelo esforo, dedicados apenas a no desfalecer 
em seu dever cotidiano, mas j sem esperar pela operao decisiva nem pelo armistcio.
          Grand, que continuava a efetuar os clculos exigidos pela peste, teria certamente sido incapaz de indicar seus resultados gerais. Ao contrrio de Tarrou, 
de Rambert e de Rieux, visivelmente resistentes ao cansao, sua sade nunca havia sido boa. Ora, ele acumulava as funes de auxiliar da prefeitura, sua secretaria 
junto a Rieux e os trabalhos noturnos. Viam-no assim num estado contnuo de esgotamento, sustentado por duas ou trs ideias fixas, como a de se oferecer umas frias 
completas depois da peste, durante uma semana pelo menos, e de trabalhar ento de maneira positiva, "tirem o chapu, meus senhores", no que tinha  mo. Era tambm 
sujeito a bruscos enternecimentos e, nessas ocasies, falava de bom grado de Jeanne a Rieux, perguntava a si prprio onde estaria ela naquele momento e se, ao ler 
os jornais, pensaria nele. Foi com ele que Rieux se surpreendeu um dia a falar de sua prpria mulher no tom mais banal, o que nunca fizera at ento. Incerto do 
crdito que podia atribuir aos telegramas sempre tranqilizadores da mulher, resolvera telegrafar ao mdico-chefe da clnica onde ela se tratava. Em resposta, tinha 
recebido a comunicao de um agravamento do estado da paciente e a garantia de que tudo seria feito para deter a evoluo do mal. Tinha guardado para si a notcia, 
e no se explicava, a no ser pelo cansao, como tinha podido confi-la a Grand. O empregado municipal, depois de lhe ter falado de Jeanne, interrogara-o acerca 
de sua mulher e Rieux respondera. "Como sabe, isso agora se cura muito bem", dissera Grand. Rieux tinha concordado, dizendo simplesmente que a separao comeava 
a ser longa e que ele poderia talvez ter ajudado  mulher vencer a doena, ao passo que hoje ela devia sentir-se totalmente s. Depois, calara-se e s respondera 
muito evasivamente s perguntas de Grand.
          Os outros encontravam-se no mesmo estado. Tarrou resistia melhor, mas os cadernos mostram que, se a sua curiosidade no se tornara menos profunda, perdera 
em diversidade. Durante todo esse perodo, na realidade, ele aparentemente s se interessava por Cottard.  noite, em casa de Rieux, onde acabara por se instalar 
desde que o hotel fora transformado em instituio de quarentena, mal ouvia Grand ou o doutor enunciarem os resultados. Desviava imediatamente a conversa para os 
pormenores da vida de Oran que geralmente o ocupavam.
          Quanto a Gastei, no dia em que veio anunciar a Rieux que o soro estava pronto e depois de terem decidido fazer a primeira experincia no garoto do Sr. 
Othon, que acabavam de remover para o hospital e cujo caso parecia desesperador a Rieux, este comunicava ao velho amigo as ltimas estatsticas, quando reparou que 
seu interlocutor adormecera profundamente na cadeira. E, diante desse rosto, em que habitualmente um ar de ternura e de ironia punha uma perptua juventude e agora, 
subitamente abandonado, com um filete de saliva a unir-lhe os lbios entreabertos, deixava ver os estragos e a velhice, Rieux sentiu um aperto na garganta.
          Era por tais fraquezas que Rieux podia julgar seu cansao. A sensibilidade lhe fugia. Amarrada a maior parte do tempo, endurecida e seca, irrompia de vez 
em quando e abandonava-o a emoes que j no conseguia dominar. Sua nica defesa era refugiar-se neste endurecimento e apertar o n que nele se formara. Sabia efetivamente 
que essa era a melhor maneira de continuar. Quanto ao resto, no tinha muitas iluses e seu cansao tirava-lhe as que ainda conservava. Porque sabia que, durante 
um perodo cujo trmino no conseguia vislumbrar, seu papel j no era o de curar. Seu papel era diagnosticar. Descobrir, ver, descrever, registrar, depois condenar, 
essa era sua tarefa. Esposas agarravam-lhe as mos e gritavam: "Doutor, salve-o". Mas ele no estava ali para salvar a vida, estava ali para ordenar o isolamento. 
De que servia o dio que lia, ento, nas fisionomias? "O senhor no tem corao", tinham-lhe dito um dia. Sim, ele tinha um corao. Servia-lhe para suportar as 
vinte horas por dia em que via morrer homens que haviam sido feitos para viver. Servia-lhe para recomear todos os dias. De agora em diante, o corao mal dava para 
isso. Como esse corao seria suficiente para dar vida?
          No, no eram socorros que ele distribua durante todo o dia e sim informaes. Aquilo,  claro, no se podia chamar uma profisso de homem. Mas, afinal, 
a quem, ento, aquela multido aterrorizada e dizimada tinha deixado tempo para exercer a profisso de homem? Ainda bem que havia a fadiga. Se Rieux estivesse mais 
vigoroso, aquele cheiro de morte espalhado por toda a parte poderia t-lo tornado sentimental. Mas quando s se dorme quatro horas no se  sentimental. Vem-se 
as coisas como elas so, isto , vem-se segundo a justia, a horrenda e irrisria justia.
          E os outros, os condenados, sentiam o mesmo. Antes da peste, recebiam-no como um salvador. Ele ia consertar tudo com trs plulas e uma seringa, e apertavam-lhe 
o brao, ao conduzi-lo pelos corredores. Era lisonjeiro, mas perigoso. Agora, pelo contrrio, apresentava-se com soldados, era necessrio dar coronhadas para que 
a famlia se decidisse a abrir a porta. Teriam desejado arrast-lo e arrastar toda a humanidade com eles para a morte. Ah! Era bem verdade que os homens no podiam 
dispensar os homens, que ele se achava to despojado quanto esses desgraados e que merecia esse mesmo tremor de piedade que sentia crescer em si depois de deix-los.
          Eram pelo menos as ideias que o Dr. Rieux, durante essas interminveis semanas, agitava com as que se relacionavam  sua situao de separado. E eram tambm 
aquelas cujo reflexo ele lia no semblante dos amigos. Mas o efeito mais perigoso do esgotamento que vencia, pouco a pouco, todos os que continuavam a luta contra 
o flagelo no estava nessa indiferena aos acontecimentos exteriores e s emoes dos outros, e sim na negligncia a que haviam chegado. Porque tinham ento tendncia 
a evitar todos os gestos que no fossem absolutamente indispensveis e que lhes pareciam sempre acima de suas foras. Foi assim que esses homens chegaram a desprezar 
cada vez mais as regras de higiene que tinham codificado, a esquecer algumas das desinfeces que deviam praticar em si prprios, a correr por vezes, sem se prevenirem 
contra o contgio, para junto de doentes atacados de peste pulmonar, porque, alertados no ltimo momento de que deviam dirigir-se a casas infectadas, tinha-lhes 
parecido de antemo exaustivo voltarem a qualquer local para fazerem as instilaes necessrias. Nisso residia o verdadeiro perigo, pois era a prpria luta contra 
a peste que os tornava ento mais vulnerveis a ela. Apostavam em suma no acaso, e o acaso no pertence a ningum.
          Contudo, havia na cidade um homem que no parecia nem esgotado, nem desanimado e que continuava a ser a imagem viva da satisfao. Era Cottard. Continuava 
a manter-se  distncia, preservando, no entanto, suas relaes com os outros. Mas optara por visitar Tarrou sempre que o trabalho deste o permitia; por um lado, 
porque Tarrou estava bem informado sobre o seu caso, por outro, porque ele sabia acolher o pequeno capitalista com uma cordialidade inaltervel. Era um milagre perptuo, 
mas Tarrou, apesar do esforo que despendia, continuava benvolo e atencioso.
          Mesmo quando o cansao o arrasava, em certas noites, no dia seguinte ele encontrava uma nova energia. "com esse", dissera Cottard a Rambert, "pode-se conversar, 
porque  um homem."
           por isso que, nessa poca, as notas de Tarrou convergem pouco a pouco para a personagem Cottard. Tarrou tentou fazer um quadro das reaes e reflexes 
de Cottard, tal como elas lhe eram confiadas por ele ou tal como ele as interpretava. Sob a rubrica "Relaes entre Cottard e a peste", esse quadro ocupa algumas 
pginas do caderno, e o narrador acha til fazer aqui um resumo. A opinio geral de Tarrou sobre o pequeno capitalista resumia-se neste juzo: " uma personagem 
que cresce". Aparentemente, alis, ele crescia em bom humor. No lhe desagradava a feio que os acontecimentos tomavam. Exprimia, s vezes, o fundo de seu pensamento 
diante de Tarrou, por meio de observaes do gnero: " claro que a coisa no est melhor. Mas, ao menos, esto todos no mesmo barco".
          "Evidentemente", acrescentava Tarrou, "ele est ameaado como os outros, mas justamente com os outros. Depois, no est seriamente convencido, tenho certeza, 
de que possa ser atingido pela peste. Parece viver com a ideia, alis, no totalmente tola, de que um homem presa de uma grande doena, ou de uma angstia profunda, 
est dispensado, por isso mesmo, de todas as outras doenas ou angstias. 'J reparou', disse-me ele, 'que no se podem acumular doenas? Imagine que voc esteja 
com uma doena grave ou incurvel, um cncer srio ou uma boa tuberculose, nunca apanhar peste ou tifo.  impossvel. Alis, a coisa vai ainda mais longe, pois 
nunca se viu um canceroso morrer em desastre de automvel.' Falsa ou verdadeira, essa ideia deixa Cottard de bom humor. A nica coisa que ele no quer  ficar separado 
dos outros. Prefere estar sitiado com todos a estar preso sozinho. com a peste, j no  preciso inquietar-se com inquritos secretos, processos, fichas, instrues 
misteriosas ou priso iminente. Para dizer a verdade, j no h polcia, no h mais crimes, novos ou antigos, j no h culpados, h apenas condenados que esperam 
o mais arbitrrio dos perdes e entre eles, os prprios policiais." Assim, Cottard, e sempre segundo a interpretao de Tarrou, era levado a considerar os sintomas 
de angstia e de perturbao que apresentavam nossos concidados com satisfao indulgente e compreensiva que se podia exprimir por um: "Continuem falando, senti 
isso antes de vocs".
          "Em vo eu lhe disse que a nica maneira de no estar separado dos outros era afinal ter uma conscincia tranqila. Olhou-me com maldade e disse-me: 'Ento, 
desse modo, ningum est nunca com ningum'. E depois: 'Pode ter certeza, sou eu quem o digo. A nica maneira de juntar as pessoas ainda  mandar-lhes a peste. Olhe 
 sua volta'. E, na verdade, compreendo bem o que ele quer dizer e o quanto a vida de hoje deve parecer-lhe confortvel. Como no haveria ele de reconhecer reaes 
que foram suas; a tentativa que cada um faz para congregar todos  sua volta; a gentileza com que nos desdobramos para informar s vezes um transeunte perdido e 
o mau humor de que outras vezes damos prova; a precipitao das pessoas para os restaurantes de luxo, seu prazer em l se encontrarem e em l se demorarem; a afluncia 
desordenada que faz filas todos os dias no cinema, que enche todas as salas de espetculos e os prprios cabars, que se espalha como uma mar desenfreada em todos 
os lugares pblicos; o recuo diante de qualquer conta to, o apetite de calor humano que, no entanto, impele os homens uns para os outros, cotovelos para cotovelos, 
sexos para sexos? Cottard conheceu tudo isso antes deles,  evidente. Exceto as mulheres, porque, com sua cabea... E suponho que quando se sentiu tentado a frequent-las, 
recusou-se para no ganhar uma fama que poderia prejudic-lo no futuro.
          "Em resumo, a peste lhe convm. De um homem solitrio que no queria s-lo, ela fez um cmplice. Porque, visivelmente,  um cmplice e um cmplice que 
se deleita.  cmplice de tudo o que v, das supersties, dos terrores ilegtimos, das suscetibilidades dessas almas em alerta; de sua mania de querer falar da 
peste o menos possvel e, no entanto, de falar dela sem cessar; de sua aflio e de sua palidez  menor dor de cabea, desde que sabe que a doena comea por cefalias, 
e de sua sensibilidade irritada, suscetvel, instvel, enfim, que transforma em ofensa esquecimentos e se aflige com a perda de um boto."
          Acontecia muitas vezes a Tarrou sair com Cottard. Contava em seguida, em seus cadernos, como mergulhavam na multido sombria dos crepsculos ou das noites, 
ombro a ombro, imergindo numa massa branca e preta, em que uma rara lmpada brilhava, acompanhando o rebanho humano para os prazeres ardentes que o defendiam contra 
o frio da peste. O que Cottard, alguns meses antes, procurava nos lugares pblicos, o luxo e a vida ampla, aquilo com que sonhava sem poder satisfazer-se, isto , 
o gozo desenfreado, todo um povo o procurava agora. Enquanto o preo das coisas subia irresistivelmente, nunca se tinha desperdiado tanto dinheiro e, quando o essencial 
faltava  maioria, nunca se tinha dissipado to bem o suprfluo. Multiplicavam-se todos os jogos de uma ociosidade que era apenas desemprego, Tarrou e Cottard seguiam 
por vezes, durante longos minutos, um desses casais que antes se aplicavam em esconder o que os unia e que agora, apertados um contra o outro, caminhavam obstinadamente 
atravs da cidade, sem ver a multido que os rodeava, com a distrao um pouco fixa das grandes paixes. Cottard enternecia-se. "Ah! Que safados!", dizia ele. E 
falava alto, expandia-se no meio da febre coletiva, das gorjetas reais que soavam  sua volta e das intriga  que se teciam diante de seus olhos.
          Entretanto, Tarrou achava que havia pouca maldad na atitude de Cottard. Sua frase, "Conheci isto antes deL^ ', revelava mais infelicidade que triunfo. 
"Creio", dizia Tarrou, "que ele comea a amar esses homens, prisioneiros entre o cu e os muros da cidade. Por exemplo, ter-lhes-ia explicado de bom grado, se pudesse, 
que a coisa no era to terrvel como tudo isso. "Eles dizem", afirmou ele, "depois da peste, vou fazer isto, depois da peste vou fazer aquilo. . . Envenenam a prpria 
existncia, em vez de ficarem tranqilos. E nem sequer se do conta das vantagens de que desfrutam. Ser que eu poderia dizer: Depois da minha priso, vou fazer 
isto? A priso  um comeo, no  um fim. Ao passo que a peste. . . Quer a minha opinio? Eles so infelizes porque no se entregam. E sei muito bem o que estou 
dizendo." "com efeito, ele sabe o que diz", acrescentava Tarrou. "Avalia no seu justo valor as contradies dos habitantes de Oran que, ao mesmo tempo em que sentem 
profundamente necessidade do calor que os aproxima, no conseguem contudo abandonar-se a ele, por causa da desconfiana que os afasta uns dos outros.  sabido que 
no se pode ter confiana no vizinho que  capaz de nos passar a peste  nossa revelia e de aproveitar-se do nosso abandono para nos contagiar. Quando se passou 
o tempo, como Cottard, a ver indicadores possveis em todos aqueles cuja companhia, contudo, se procurava, pode-se compreender esse sentimento.  fcil ser indulgente 
com pessoas que vivem na ideia de que a peste pode, de um dia para o outro, pr-lhes a mo no ombro e de que ela se prepara, talvez, para fazer isso no momento em 
que elas se regozijam de estar ainda ss e salvas. Tanto quanto isso  possvel, ele est  vontade no terror. Mas, porque ele sentiu tudo isso antes deles, creio 
que no consegue sentir inteiramente com eles a crueldade dessa incerteza. Em suma, como todos ns que no morremos ainda da peste, ele sente efetivamente que sua 
vida e sua liberdade esto todos os dias s vsperas de ser destrudas. Mas, j que ele prprio viveu no terror, acha normal que os outros o conheam por sua vez. 
Mais exatamente, o terror parece-lhe ento menos pesado de suportar que se estivesse totalmente s.  nisso que ele est errado e que  mais difcil de compreender 
que outros. Mas, afinal,  por isso que merece mais que os outros que tentemos compreend-lo."
          Finalmente, as pginas de Tarrou terminam por uma narrativa que ilustra essa conscincia singular que vinha ao mesmo tempo a Cottard e aos atacados pela 
peste. Esse relato reconstitui aproximadamente a atmosfera difcil da poca e  por isso que o narrador lhe atribui importncia.
          Eles tinham ido  pera Municipal, onde se representava o Orfeu, de Gliick. Cottard convidara Tarrou. Tratavase de uma companhia que viera, na primavera 
da peste, fazer algumas representaes em nossa cidade. Bloqueada pela doena, a companhia se vira forada, aps um acordo com nossa pera, a repetir o espetculo 
uma vez por semana. Assim, h meses, todas as sextas-feiras, no nosso teatro municipal, ressoavam os lamentos melodiosos de Orfeu e os chamados impotentes, de Eurdice. 
No entanto, esse espetculo continuava a conhecer o interesse do pblico e tinha sempre boas bilheterias. Instalados nos lugares mais caros, Cottard e Tarrou dominavam 
uma plateia repleta pelos mais elegantes de nossos concidados. Os que chegavam esforavam-se visivelmente em fazer notar sua entrada. Sob a luz contundente da ribalta, 
enquanto os msicos afinavam discretamente os instrumentos, as silhuetas destacavam-se com preciso, passavam de uma fila a outra, inclinavam-se com graa. No ligeiro 
rumor de uma conversa de bom-tom, os homens retomavam a segurana que lhes faltara algumas horas antes, entre as ruas negras da cidade. A casaca expulsava a peste.
          Durante todo o primeiro ato, Orfeu queixou-se com facilidade, algumas mulheres de tnica comentaram com graa seu infortnio, e cantou-se o amor em pequenas 
rias. A sala reagiu com um entusiasmo discreto. Mal se notou que Orfeu introduzia na sua ria do segundo ato tremores que no figuravam e pedia, com um ligeiro 
excesso de pattico, ao Senhor dos Infernos que se deixasse comover pelo seu pranto. Certos gestos bruscos que lhe escaparam apareceram aos mais perspicazes como 
um efeito de estilizao que aumentava ainda mais o valor da interpretao do cantor.
          Foi necessrio o dueto de Orfeu e Eurdice, no terceiro ato (era o momento em que Eurdice fugia ao seu amante), para que uma certa surpresa corresse pela 
sala. E, como se o cantor tivesse apenas esperado esse movimento do pblico ou, mais certamente ainda, como se o rumor vindo da plateia tivesse confirmado o que 
ele sentia, foi esse o momento que ele escolheu para avanar para a boca da cena de uma forma grotesca, com os braos e pernas afastados no seu traje antigo, para 
vir abater-se no bucolismo do cenrio, que nunca deixara de ser anacrnico, mas que assim se tornou aos olhos dos espectadores pela primeira vez e de uma maneira 
terrvel. Isso porque, ao mesmo tempo, a orquestra calou-se, as pessoas da plateia levantaram-se e comearam lentamente a evacuar a sala, primeiro em silncio, como 
se sai de uma igreja depois de acabada a missa, ou de uma cmara morturia depois de uma visita, as mulheres segurando as saias e saindo de cabea baixa, os homens 
guiando as companheiras pelo cotovelo, evitando o choque das cadeiras. Pouco a pouco, porm, o movimento precipitou-se, o murmrio tornou-se exclamao e a multido 
afluiu s sadas, comprimindo-se, acabando por se empurrar aos gritos. Cottard e Tarrou, que apenas se tinham levantado, ficaram ss diante de uma das imagens do 
que era a sua vida de ento: a peste no palco, sob o aspecto de um histrio desarticulado, e, na sala, todo um luxo tornado intil sob a forma de leques esquecidos 
e de rendas agarradas ao vermelho das poltronas.
          Durante os primeiros dias do ms de setembro, Rambert trabalhara seriamente ao lado de Rieux. Apenas pedira uma folga no dia em que devia encontrar-se 
com Gonzlez e os dois rapazes em frente ao liceu.
          Ao meio-dia, Gonzlez e o jornalista viram chegar os dois rapazes, que riam. Disseram que no tinha havido sorte da outra vez, mas que era preciso esperar. 
Em todo caso, j no era a sua semana de planto. Era preciso ter pacincia at a semana seguinte. Ento, recomeariam. Rambert disse que era exatamente essa a palavra. 
Gonzlez props^ portanto, um encontro para a segunda-feira seguinte. Desssl vez, porm, instalariam Rambert em casa de Mareei e Louisl "Vamos marcar um encontro 
voc e eu. Se eu no aparecer J voc vai diretamente  casa deles. Vamos explicar onde mo-I ram." Mas Mareei, ou Louis, disse nesse momento que ol mais simples era 
conduzirem imediatamente o companheiro.! Se no fosse muito exigente, havia comida para os quatro.1 E, dessa forma, ele se informaria logo. Gonzlez disse quel era 
uma excelente ideia, e desceram para o porto.
          Mareei e Louis moravam no final do Quartier de la Marine, perto das portas que davam para a estrada da orla martima. Era uma pequena casa espanhola, de 
paredes espessas, janelas exteriores de madeira pintada, compartmen tos nus e sombrios. Havia arroz, servido pela me dos rapazes, uma velha espanhola, sorridente 
e cheia de rugas. Gonzlez admirou-se, pois j havia falta de arroz na cidade. "Ns o arranjamos nas portas", disse Mareei. Rambert comia e bebia, e Gonzlez afirmou 
que ele era um companheiro de verdade, enquanto o jornalista pensava unicamente na semana que tinha de passar.
          Na realidade, teve de esperar duas semanas, pois os turnos de guarda foram prolongados para quinze dias a fim de reduzir o nmero de equipes. E durante 
esses quinze dias, Rambert trabalhou sem se poupar, de maneira ininterrupta, com os olhos de certo modo fechados, desde a aurora at a noite. Tarde da noite, detava-se 
e dormia um sono profundo. A passagem brusca da ociosidade a esse trabalho esgotante deixava-o quase sem sonhos e sem foras. Falava pouco de sua prxima fuga. Um 
nico fato notvel: ao fim de uma semana confessou ao doutor que, pela primeira vez, na noite anterior, se embriagara. Ao sair do bar, teve de repente a impresso 
de que suas virilhas se inchavam e seus braos se moviam com dificuldade em torno da axila. Pensou que era a peste. E a nica reao que pde ter ento, e que concordou 
com Rieux no ser racional, foi correr ao alto da cidade e l, de uma pequena praa, de onde ainda no se divisava o mar, mas de onde se via um pouco mais de cu, 
chamar sua mulher com um grande grito, por cima dos muros da cidade. De volta a casa e no descobrindo no corpo nenhum sinal de infeco, no se orgulhara muito 
dessa crise sbita. Rieux disse que compreendia muito bem que se pudesse agir assim. "De qualquer modo", disse ele, "pode acontecer que se tenha vontade de faz-lo."
          - O Sr. Othon falou-me a seu respeito esta manh .- acrescentou subitamente Rieux, no momento em que Rambert ia deix-lo. - Perguntou-me se eu o conhecia. 
"Aconselhe-o, ento, a no frequentar os meios de contrabando", disse-me ele. "Est se expondo."
          - Que quer dizer isso?
          - Quer dizer que tem de apressar-se.
          - Obrigado - disse Rambert, apertando a mo do mdico. J  porta, voltou-se de repente. Rieux notou que, pela primeira vez desde a peste, ele sorria. 
- Por que no me impede ento de partir? Dispe de todos os meios.
          Rieux abanou a cabea com seu movimento habitual e respondeu que isso era problema de Rambert, que escolhera a felicidade, e que ele, Rieux, no tinha 
argumentos a contrapor. Sentia-se incapaz de julgar o que era bem ou mal naquele caso.
          - Nessas condies, por que me diz que devo me apressar?
          - Talvez porque tambm eu tenha vontade de fazer qualquer coisa pela felicidade.
          No dia seguinte, no falaram mais de nada, mas trabalharam juntos. Uma semana depois, Rambert estava enfim instalado na pequena casa espanhola. Tinham-lhe 
feito uma cama no compartimento comum. Como os rapazes no comiam em casa e como lhe tinham recomendado que sasse o menos possvel, vivia s a maior parte do tempo 
ou conversava com a velha me espanhola. Era seca e ativa, vestida de negro, com o rosto moreno e enrugado debaixo dos cabelos brancos muito limpos. Silenciosa, 
sorria sozinha com todo o rosto quando olhava para Rambert.
          Outras vezes, perguntava-lhe se no tinha medo de levar a peste a sua mulher. Ele pensava que era um risco que valia a pena correr, mas que afinal a probabilidade 
era mnima, ao passo que, permanecendo na cidade, arriscavam-se a ficar separados para sempre.
          - Ela  simptica? - perguntava a velha, sorrindo.
          - Muito simptica.
          - Bonita?
          - Acho que sim.
          - Ah! - dizia ela. -  por isso.
          Rambert refletia. Era, sem dvida, por isso, mas era impossvel que fosse s por isso.
          - No acredita em Deus? - perguntava a velha, que ia  missa todas as manhs.
          Rambert reconheceu que no, e a velha disse ainda que era por isso.
          - Tem razo,  preciso ir ao encontro dela. Seno, o que lhe restaria?
          O resto do tempo Rambert andava  volta das paredes nuas e caiadas, afagando os leques pregados nas paredes ou ento contava as bolas de l que franjavam 
o pano de mesa.  noite, os rapazes voltavam. No falavam muito, seno para dizer que no chegara ainda o momento. Depois do jantar, Mareei tocava guitarra e bebiam 
um licor anisado. Rambert parecia pensativo.
          Na quarta-feira, Mareei disse ao entrar: " para amanh  meia-noite. Fique preparado". Dos dois homens que guardavam o posto com eles, um estava atacado 
pela peste e o outro, que normalmente dividia o quarto com o primeiro, estava em observao. Assim, durante dois ou trs dias, Mareei e Louis estariam a ss. No 
decurso da noite, iam acertar os ltimos detalhes. No dia seguinte, seria possvel. Rambert agradeceu. "Est contente?", perguntou a velha. Ele disse que sim, mas 
pensava em outra coisa.
          No dia seguinte, sob um cu pesado, o calor era mido e sufocante. As notcias da peste eram ms. A velha espanhola conservava, contudo, a serenidade. 
"H pecado no mundo", dizia. "Por isso, forosamente. . ." Como Mareei e Louis, Rambert estava de peito nu. Porm, por mais que fizesse, o suor corria-lhe entre 
os ombros e sobre o peito. Na semipenumbra da casa, de persianas fechadas, isso lhe tornava os torsos morenos e lustrosos. Rambert dava voltas, sem falar. Bruscamente, 
s quatro horas da tarde, vestiu-se e disse que ia sair.
          - Cuidado - recomendou Mareei -,  para a meianoite. Est tudo preparado.
          O jornalista foi  casa do mdico. A me de Rieux disse-lhe que o encontraria no hospital. Diante do posto da guarda, a mesma multido continuava a girar 
sobre si prpria. "Circulem", dizia um sargento de olhos protuberantes. Os outros circulavam, mas em roda. "No h nada a esperar", dizia o sargento, cujo suor atravessava 
o dlm. Era tambm a opinio dos outros, mas ficavam, apesar de tudo, apesar do calor infernal. Rambert mostrou o salvo-conduto ao sargento que lhe indicou o gabinete 
de Tarrou. A porta dava para o ptio. Rambert cruzou com o Padre Paneloux, que saa do gabinete.
          Numa pequena sala branca que cheirava a farmcia e a pano mido, Tarrou, sentado atrs de uma secretria de madeira preta com as mangas da camisa arregaadas, 
enxugava com um leno o suor que lhe corria pela curva do brao.
          - Ainda aqui? - perguntou.
          - Ainda. Queria falar com Rieux.
          - Est na sala. Mas se isso pudesse arranjar-se sem ele, seria melhor.
          - Por qu?
          - Est esgotado. Evito tudo o que possa perturb-lo.
          Rambert olhava para Tarrou. Tinha emagrecido. O cansao turvava-lhe os olhos e os traos. Os ombros fortes estavam curvados. Algum bateu, e entrou um 
enfermeiro, de mscara branca. Colocou em cima da secretria de Tarrou um mao de fichas e, com uma voz que o pano abafava, disse apenas: "Seis". Depois, saiu. Tarrou 
olhou para o jornalista e mostrou-lhe as fichas, que abriu em leque.
          - Belas fichas, hem? Pois bem, so mortos, os mortos da noite.
          Tinha a fronte cheia de sulcos. Juntou de novo o mao de fichas.
          - A nica coisa que nos resta  a contabilidade. Tarrou levantou-se, apoiando-se na mesa.
          - Vai partir em breve?
          - Hoje,  meia-noite.
          Tarrou disse que isso o alegrava e que Rambert devia ter cuidado.
          - Diz isso sinceramente? Tarrou encolheu os ombros.
          - Na minha idade,  preciso ser sincero. Mentir  cansativo demais.
          - Tarrou - disse o jornalista -, queria falar com o doutor. Desculpe-me.
          - Eu sei. Ele  mais humano que eu. Vamos.
          - No  isso - disse Rambert, com dificuldade. E calou-se.
          Tarrou olhou para ele e, de repente, sorriu-lhe.
          Seguiram por um pequeno corredor, cujas paredes estavam pintadas de verde-claro e onde flutuava uma luz de aqurio. Pouco antes de chegarem a uma porta 
dupla envidraada, por trs da qual se via um curioso movimento de sombras, Tarrou fez Rambert entrar numa sala mu io pequena, inteiramente coberta de armrios. 
Abriu um deles, tirou de um esterilizador duas mscaras de gaze hidrfila e estendeu uma a Rambert, convidando-o a us-la. O jornalista perguntou se aquilo servia 
para alguma coisa, e Tarrou respondeu que no, mas que dava confiana aos outros.
          Empurraram a porta envidraada. Era uma sala imensa, de janelas hermeticamente fechadas, apesar da estao. No alto das paredes, ronronavam circuladores 
de ar, e suas hlices curvas agitavam o ar espesso e superaquecido por cima de duas fileiras de camas cinzentas. De todos os lados, vinham gemidos surdos ou agudos, 
que formavam apenas um lamento montono. Homens vestidos de branco deslocavam-se com lentido na luz crua que transbordava das janelas guarnecidas de grades. Rambert 
sentia-se pouco  vontade no calor terrvel da sala e teve dificuldade em reconhecer Rieux, curvado sobre uma forma que gemia. O doutor abria as virilhas do doente, 
que duas enfermeiras, uma de cada lado da cama, mantinham de pernas afastadas. Quando se reergueu, deixou cair os instrumentos numa bandeja que um ajudante lhe estendia 
e ficou por um momento imvel, a olhar para o homem em quem faziam um curativo.
          - Que h de novo? - perguntou a Tarrou, que se aproximava.
          - Paneloux aceita substituir Rambert na casa de quarentena. J fez muito. Falta a terceira brigada de prospeco, a se reagrupar sem Rambert.
          Rieux aprovou com a cabea.
          - Gastei terminou os primeiros preparados e prope uma experincia.
          - Ah! - disse Rieux. - Muito bem.
          - Finalmente, est aqui Rambert.
          Rieux voltou-se. Por cima da mscara, seus olhos se franziam ao ver o jornalista.
          - Que faz aqui? - perguntou. - Devia estar longe. Tarrou disse que era para a meia-noite e Rambert acrescentou: "Em princpio".
          A cada vez que um deles falava, a mscara de gaze inchava e ficava mida  altura da boca. Isso tornava a conversa um pouco irreal, como um dilogo de 
esttuas.
          - Queria falar-lhe - disse Rambert.
          - Vamos sair juntos, se quiser. Espere-me no gabinete de Tarrou.
          Um momento depois, Rieux e Rambert instalavam-se no banco traseiro do carro do mdico. Tarrou dirigia.
          - Acabou a gasolina - disse, ao arrancar. - Amanh, teremos de andar a p.
          - Doutor - disse Rambert -, no vou embora, fico com o senhor.
          Tarrou nem pestanejou. Continuava a dirigir. Rieux parecia incapaz de sair de seu cansao.
          - E ela? - perguntou, com uma voz surda. Rambert disse que tinha refletido, que continuava a acreditar no que acreditava, mas que se partisse teria vergonha. 
Isso perturbaria seu amor por aquela que tinha deixado. Mas Rieux endireitou-se e disse, com uma voz firme, que aquilo era tolice e que no era vergonha preferir 
a felicidade.
          - Sim - disse Rambert -, mas pode haver ^vergonha em ser feliz sozinho.
          Tarrou, que nada dissera at ento, observou, sem voltar a cabea, que, se Rambert queria compartilhar da desgraa dos homens, jamais teria tempo para 
ser feliz. Era preciso escolher.
          - No  isso - disse Rambert. - Pensei sempre que era estranho a esta cidade e que nada tinha a ver com vocs. Mas agora que vi o que vi, sei que sou daqui, 
quer queira, quer no. A histria diz respeito a todos ns.
          Ningum respondeu, e Rambert pareceu impacientar-se.
          - Alis, sabem muito bem disso. Seno, o que fariam neste hospital? Acaso fizeram a sua escolha e renunciaram  felicidade?
          Nem Tarrou nem Rieux responderam. O silncio durou muito tempo, at que se aproximaram da casa do mdico. E Rambert de novo fez sua ltima pergunta, com 
mais fora ainda. S Rieux se voltou para ele. Ergueu-se com esforo.
          - Perdoe-me, Rambert - disse -, mas no sei. Fique conosco, j que assim o deseja.
          Uma guinada do carro f-lo calar-se. Depois prosseguiu, olhando em frente.
          - Nada no mundo vale que nos afastemos daquilo que amamos. E, contudo, tambm eu me afasto, sem que possa saber por qu.
          Deixou-se cair de novo sobre a almofada.
          -  um fato,  s. Registremo-lo e aceitemos suas consequncias.
          - Que consequncias? - perguntou Rambert.
          - Ah! - disse Rieux. - No se pode, ao mesmo tempo, curar e saber. Ento, curemos, o mais depressa possvel.  o mais urgente.
           meia-noite, Tarrou e o doutor faziam para Rambert o mapa do bairro que estava encarregado de fiscalizar quando Tarrou olhou para o relgio. Ao levantar 
a cabea encontrou o olhar de Rambert.
          - No os avisou?
          O jornalista desviou o olhar.
          - Tinha mandado um recado - disse, com esforo antes de vir ao seu encontro.
          Foi nos ltimos dias de outubro que o soro de Gastei foi experimentado. Praticamente era a ltima esperana de Rieux. Em caso de novo fracasso o mdico 
estava convencido de que a cidade toda ficaria entregue aos caprichos da doena, quer a epidemia prolongasse seus efeitos durante longos meses ainda, quer decidisse 
deter-se sem razo.
          Na prpria vspera do dia em que Gastei veio visitar Rieux, o filho do Sr. Othon adoecera e toda a famlia fora posta de quarentena. A me, que sara de 
l pouco antes, viuse pois isolada pela segunda vez. Cumpridor das determinaes legais, o juiz mandara chamar o Dr. Rieux, logo que reconheceu no corpo da criana 
os sinais da doena. Quando Rieux chegou, o pai e a me estavam de p, junto  cama. A menina tinha sido afastada. O garoto estava no perodo de abatimento e deixou-se 
examinar sem se queixar. Quando o mdico levantou a cabea, encontrou o olhar do juiz e, atrs dele, o rosto plido da me, que colocara um leno na boca e seguia 
os gestos de Rieux com os olhos dilatados.
          -  isso, no  verdade? - perguntou o juiz, com uma voz fria.
          - Sim - respondeu Rieux, olhando de novo para a criana.
          Os olhos da me dilataram-se ainda mais, mas ela continuava calada. O juiz calou-se tambm e depois disse, num tom mais baixo:
          - Pois bem, doutor, temos de fazer o que est determinado.
          Rieux evitava olhar para a me, que mantinha o leno na boca.
          - Ser rpido - disse ele, hesitando -, se puder telefonar. 
          O Sr. Othon disse que ia indicar-lhe o caminho. Mas o doutor voltou-se para a mulher:
          - Lamento muito. Acho que devia preparar suas coisas. Sabe como .
          A Sra. Othon parecia perplexa. Olhava para o cho.
          - Sim - disse ela, abanando a cabea. -  o que vou fazer.
          Antes de sair, Rieux no pde deixar de perguntar se no precisavam de nada. A mulher continuava a olh-lo em silncio. Mas dessa vez o juiz desviou o 
olhar.
          - No - disse ele, engolindo a saliva -, mas salve meu filho.
          A quarentena, que a princpio era uma simples formalidade, tinha sido organizada por Rieux e Rambert de uma maneira muito rigorosa. Em especial, tinham 
exigido que os membros de uma mesma famlia fossem sempre isolados uns dos outros. Se um dos membros da famlia tivesse sido infectado sem o saber, era preciso no 
multiplicar as possibilidades da doena. Rieux explicou essas razes ao juiz, que as achou razoveis. Entretanto, a mulher e ele olharam-se de tal modo que o mdico 
sentiu at que ponto essa separao os deixava perturbados. A Sra. Othon e sua filha puderam ser alojadas num hotel de quarentena dirigido por Rambert. Para o juiz 
de instruo, porm, j no havia lugar seno no campo de isolamento que a prefeitura estava organizando, no estdio municipal, com o auxlio de barracas emprestadas 
pelo servio de vigilncia sanitria. Rieux pediu desculpas, mas o juiz disse que havia uma s regra para todos, e que era justo obedecer.
          Quanto ao garoto, foi transportado para o hospital auxiliar para uma antiga sala de aula em que haviam sido instalados dez leitos. Umas vinte horas depois, 
Rieux julgou seu caso desesperador. O pequenino corpo deixava-se devorar pela infeco, sem reagir. Pequenos tumores, dolorosos, mas ainda em formao, bloqueavam 
as articulaes dos frgeis membros. Estava de antemo vencido. Foi por isso que Rieux teve a ideia de experimentar nele o soro de Gastei. Nessa mesma noite, depois 
do jantar, eles praticaram a longa inoculao, sem obter uma nica reao da criana. No dia seguinte, de madrugada, todos se dirigiram ao leito do menino para julgar 
a experincia decisiva.
          A criana, sada do seu torpor, agitava-se convulsivamente entre os lenis. O Dr. Gastei e Tarrou estavam junto dele desde as quatro horas da manh, acompanhando 
passo a passo os progressos ou recuos da doena.  cabeceira do leito, o corpo macio de Tarrou estava um pouco curvado. Aos ps da cama, sentado junto de Rieux, 
que estava de p, Gastei lia, com toda a aparncia de tranqilidade, um velho livro. Pouco a pouco,  medida que o dia avanava na antiga sala de aula, os outros 
chegavam. Em primeiro lugar, Paneloux, que se colocou do outro lado do leito em relao a Tarrou e encostado  parede. Lia-se em seu rosto uma expresso dolorosa, 
e o cansao de todos esses dias em que ele se entregara totalmente traara-lhe rugas na fronte congestionada. Por sua vez, Joseph Grand chegou. Eram sete horas e 
o empregado municipal desculpou-se por estar esfalfado. S podia ficar um instante, mas talvez j soubessem alguma coisa de preciso. Sem falar, Rieux mostrou-lhe 
a criana, que, com os olhos fechados e o rosto transtornado, os dentes cerrados at o limite de foras, o corpo imvel, virava e revirava a cabea da direita para 
a esquerda no travesseiro sem fronha. Quando, finalmente, estava bastante claro para que no quadro-negro que ficara ao fundo da sala pudessem distinguir-se vestgios 
de antigas frmulas de equaes, chegou Rambert. Encostou-se aos ps da cama vizinha e tirou um mao de cigarros. Depois de lanar um olhar ao pequeno, no entanto, 
voltou a guardar o mao no bolso.
          Gastei, que continuava sentado, olhava para Rieux por cima dos culos.
          - Tem notcias do pai?
          - No - disse Rieux -, est no campo de isolamento.
          O mdico apertava com fora a barra do leito onde a criana gemia. No tirava os olhos do pequeno doente, que se enrijeceu bruscamente e, com os dentes 
de novo cerrados, se encolheu um pouco ao nvel da cintura, afastando lentamente os braos e as pernas. Do pequenino corpo, nu sob o cobertor militar, veio um cheiro 
de l e de suor acre. A criana descontraiu-se pouco a pouco, levou os braos e as pernas para o centro da cama e, ainda cega e muda, pareceu respirar mais depressa. 
Rieux encontrou o olhar de Tarrou, que desviou os olhos.
          Tinham visto morrer crianas, j que o terror, h meses, no escolhia, mas nunca lhes tinham seguido o sofrimento minuto a minuto, como faziam desde essa 
manh. E, naturalmente, a dor infligida a esses inocentes nunca deixara de lhes parecer o que era na verdade, isto , um eescndalo.
          Mas at ento ao menos escandalizavam-se abstratamente, de certo modo, pois nunca tinham olhado de frente, to longamente, a agonia de um inocente.
          Justamente como se lhe mordessem o estmago, a criana dobrava-se de novo com um gemido dbil. Ficou assim encolhida durante longos segundos, sacudida 
por calafrios e tremores convulsivos, como se sua frgil carcaa se curvasse sob o vento furioso da peste e estalasse aos sopros repetidos da febre. Passada a tempestade, 
ele se descontraiu um pouco, a febre pareceu retirar-se e abandon-lo ofegante num patamar mido e envenenado, em que o repouso j se parecia com a morte. Quando 
a vaga ardente o atingiu de novo pela terceira vez e o soergueu um pouco, a criana se retorceu, recuou para o fundo do leito no terror da chama que o queimava e 
agitou loucamente a cabea, repelindo o cobertor. Grossas lgrimas lhe jorravam das plpebras inflamadas e corriam pela face lvida, e, no fim da crise, exausta, 
crispando as pernas ossudas e os braos, cuja carne se fundira em quarenta e oito horas, a criana tomou no leito devastado uma atitude de grotesco crucificado.
          Tarrou curvou-se e, com a pesada mo, enxugou o pequeno rosto, encharcado de lgrimas e de suor. Gastei fechara h um momento seu livro e olhava para o 
doente. Comeou uma frase, mas foi obrigado a tossir para poder terminar, pois sua voz desafinava bruscamente.
          - No houve remisso matinal, no  verdade, Rieux? Rieux disse que no, mas que a criana resistia h mais tempo do que o normal. Paneloux, que parecia 
um pouco abatido, encostado  parede, disse ento, surdamente:
          - Se tiver de morrer, ter sofrido mais tempo. Rieux voltou-se bruscamente para ele e abriu a boca para falar, mas calou-se, fez um esforo visvel para 
se dominar e voltou a olhar para a criana.
          A luz aumentava na sala. Nas outras cinco camas, formas mexiam-se e gemiam, mas com uma discrio que parecia combinada. O nico que gritava, no outro 
extremo da sala, soltava com intervalos regulares pequenas exclamaes que pareciam traduzir mais espanto que dor. Parecia que, mesmo para os doentes, no era j 
o terror dos primeiros tempos. Agora, havia at uma espcie de aquiescncia na maneira como aceitavam a doena. S o pequeno se debatia com todas as suas foras. 
Rieux, que de vez em quando lhe tomava o pulso, sem necessidade alis, mais para sair da imobilidade impotente em que se encontrava, sentia, ao fechar os olhos, 
essa agitao misturar-se ao tumulto de seu prprio sangue. Confundia-se ento com a criana supliciada e tentava apoi-la com toda a sua fora ainda intacta. No 
entanto, reunidas um minuto, as pulsaes dos seus dois coraes desencontravam-se, a criana lhe escapava e seu esforo perdia-se no vcuo. Soltava ento o frgil 
pulso e voltava ao seu lugar.
          Ao longo das paredes caiadas, a luz passava do rosa ao amarelo. Por trs da janela, uma manh de calor comeava a crepitar. Mal se ouviu Grand sair, dizendo 
que voltaria. Todos esperavam. A criana, sempre de olhos fechados, parecia acalmar-se um pouco. As mos que agora pareciam garras raspavam suavemente os flancos 
do leito. Depois subiram, coaram o cobertor perto dos joelhos e, de repente, o pequeno dobrou as pernas, aproximou as coxas do ventre e imobilizou-se. Abriu ento 
os olhos pela primeira vez e olhou para Rieux, que se encontrava diante dele. No rosto cavado, agora como que fixado numa argila cinzenta, a boca abriu-se e, quase 
imediatamente, emitiu um nico grito contnuo que a respirao mal modulava e que encheu de sbito a sala de um protesto montono, desafinado e to pouco humano 
que parecia vir de todos os homens ao mesmo tempo. Rieux cerrou os dentes, e Tarrou voltou-se. Rambert aproximou-se do leito, perto de Gastei, que fechou o livro 
que ficara aberto sobre os joelhos. Paneloux olhou para a boca infantil, conspurcada pela doena, cheia desse grito de todas as idades. E deixou-se cair de joelhos, 
e todos acharam natural ouvi-lo dizer, com uma voz um pouco abafada, mas ntida, por detrs do lamento annimo que no cessava: "Meu Deus, salvai esta criana".
          Mas a criana continuava a gritar e,  sua volta, os doentes agitaram-se. Aquele cujas exclamaes no haviam cessado, no outro extremo da sala, precipitou 
o ritmo de seu lamento at fazer dele tambm um verdadeiro grito, enquanto os outros gemiam cada vez com mais fora. Uma mar de soluos irrompeu na sala, cobrindo 
a orao de Paneloux, e Rieux, agarrado  barra do leito, fechou os olhos, bbado de cansao e de desgosto.
          Quando voltou a abri-los, encontrou Tarrou a seu lado.
          - Preciso ir embora - disse. - No consigo mais suport-los.
          Mas, bruscamente, os outros doentes calaram-se. O mdico reconheceu ento que o grito da criana tinha enfraquecido e que enfraquecia ainda e que acabava 
de cessar.  sua volta, os lamentos recomeavam, mas surdamente e como um eco longnquo da luta que acabava de terminar. Porque a luta chegara ao fim. Gastei tinha 
passado para o outro lado do leito e disse que tudo findara. com a boca aberta, mas muda, a criana repousava no fundo dos cobertores em desordem, subitamente menor, 
com restos de lgrimas no rosto.
          Paneloux aproximou-se do leito e fez os gestos da bno. Depois, saiu pelo corredor central.
          - Ser preciso recomear tudo? - perguntou Tarrou a Gastei.
          O velho mdico abanava a cabea.
          - Talvez - disse com um sorriso crispado. - Afinal, ele resistiu muito tempo.
          Mas Rieux saa j da sala, com um passo to precipitado e com um tal aspecto que, quando passou por Paneloux, este estendeu o brao para det-lo.
          - Vamos, doutor - disse-lhe.
          Com o mesmo movimento arrebatado, Rieux voltou-se e lanou-lhe com violncia:
          - Ah! Aquele, pelo menos, era inocente, como o senhor bem sabe!
          Depois voltou-se e, atravessando a porta da sala antes de Paneloux, chegou ao fundo do ptio da escola. Sentou-se num banco, entre pequenas rvores poeirentas, 
e enxugou o suor que j lhe escorria pelos olhos. Tinha vontade de gritar mais, para desfazer enfim o n violento que lhe apertava o corao. O calor caa lentamente 
entre os ramos das rvores. O cu azul da manh cobria-se rapidamente de uma nvoa esbranquiada que tornava o ar mais abafado. Rieux deixou-se ficar no banco. Olhava 
para os galhos, para o cu, recuperava lentamente a respirao, vencendo pouco a pouco o cansao.
          - Por que me falou com tanta raiva? - disse uma voz atrs dele. - Tambm para mim o espetculo  insuportvel.
          Rieux voltou-se para Paneloux.
          -  verdade - disse. - Desculpe-me. Mas o cansao  uma loucura. E h horas, nesta cidade, em que nada sinto a no ser minha revolta.
          - Compreendo - murmurou Paneloux. - Isso  revoltante, pois ultrapassa nossa compreenso. Mas talvez devamos amar o que no conseguimos compreender.
          Rieux endireitou-se bruscamente. Olhava para Paneloux com toda a fora e toda a paixo de que era capaz e abanava a cabea.
          - No, padre - disse ele. - Tenho outra ideia do amor. E vou recusar at a morte essa criao em que as crianas so torturadas.
          No rosto de Paneloux passou uma sombra de perturbao.
          - Ah, doutor - exclamou, com tristeza -, acabo de compreender aquilo a que se chama graa.
          Mas Rieux deixara-se cair de novo em seu banco. Do fundo do cansao que lhe voltara, respondeu com mais suavidade:
          -  o que eu no tenho, bem sei. Mas no quero discutir isso com o senhor. Trabalhamos juntos para qualquer coisa que nos una para alm das blasfmias 
e das oraes. S isso  importante.
          Paneloux sentou-se junto de Rieux. Parecia comovido.
          - Sim - disse ele -,  verdade, tambm o senhor trabalha para a salvao do homem.
          Rieux tentou sorrir.
          - A salvao do homem , para mim, uma palavra demasiado grande. No vou to longe.  sua sade que me interessa, a sade em primeiro lugar.
          Paneloux hesitou.
          - Doutor. . . - disse ele.
          Mas deteve-se. Tambm sobre sua fronte o suor comeava a escorrer. Murmurou "adeus", e seus olhos brilhavam quando se levantou. Ia partir, quando Rieux, 
que rfletia, se levantou tambm e deu um passo em sua direo.
          - Perdoe-me, mais uma vez. Esse rompante no voltar a se repetir.
          Paneloux estendeu-lhe a mo e disse com tristeza:
          - E, contudo, no o convenci.
          - Que importncia tem isso? - respondeu Rieux.
          - Como sabe, o que odeio  a morte e o mal. E, quer queira, quer no, estamos juntos para sofr-los e combat-los.
          - Rieux segurava a mo de Paneloux. - Como v - disse, evitando fix-lo -, nem mesmo Deus pode nos separar agora.
          Desde que entrara para as brigadas sanitrias, Paneloux no abandonara os hospitais e os lugares onde se encontrava a peste. Tinha-se colocado, entre os 
salvadores, na posio que lhe parecia ser a sua. Quer dizer, no primeiro posto. No lhe tinham faltado os espetculos da morte. E embora, em princpio, estivesse 
protegido pelo soro, a preocupao com sua prpria morte no lhe era estranha. Aparentemente, mantivera sempre a calma. No entanto, a partir do dia em que vira, 
passo a passo, uma criana morrer, pareceu modificar-se. Lia-se no seu rosto uma tenso crescente. E, no dia em que disse a Rieux, sorrindo, que preparava nesse 
momento um curto tratado sobre o assunto "Um padre pode consultar um mdico?", o doutor teve a impresso de que se tratava de algo mais srio do que parecia dizer 
Paneloux. Como o mdico exprimisse o desejo de tomar conhecimento desse trabalho, Paneloux anunciou-lhe que devia fazer um sermo na missa dos homens e que, nessa 
ocasio, exporia pelo menos alguns de seus pontos de vista.
          - Gostaria que viesse, doutor, o assunto vai interessar-lhe.
          O padre fez seu segundo sermo num dia de grande ventania. Para dizer a verdade, a assistncia era menos numerosa que por ocasio do primeiro sermo.  
que esse gnero de espetculo j no tinha para nossos concidados a atrao da novidade. Nas circunstncias difceis que a cidade atravessava, a prpria palavra 
"novidade" tinha perdido seu sentido. Alis, a maior parte das pessoas, quando no tinha desertado inteiramente de seus deveres religiosos., ou quando no os faziam 
coincidir com uma vida pessoal profundamente imoral, havia substitudo as prticas normais por supersties pouco razoveis. Era mais fcil usar medalhas protetoras 
ou amuletos de So Roque do que ir  missa.
          Pode-se dar como exemplo o uso imoderado que nossos concidados faziam das profecias. Na primavera, com efeito, esperara-se, de um momento para outro, 
o fim da doena, e ningum pensava em pedir aos outros detalhes sobre a durao da epidemia, j que todos estavam persuadidos de que ela no duraria para sempre. 
Mas,  medida que os dias passavam, comearam a recear que essa desgraa no tivesse realmente fim e, ao mesmo tempo, o trmino da doena tornou-se o objeto de todas 
as esperanas. Era assim que passavam de mo em mo diversas profecias atribudas a magos ou a santos da Igreja Catlica. Editores da cidade viram rapidamente o 
proveito que poderiam tirar dessa mania e difundiram em numerosos exemplares os textos que circulavam. Compreendendo que a curiosidade do pblico era insacivel, 
mandaram fazer pesquisas nas bibliotecas municipais sobre todos os testemunhos do gnero que as pequenas histrias podiam fornecer e espalharam-nos pela cidade. 
Quando a prpria histria j no tinha profecias, encomendaram-nas a jornalistas que, ao menos nesse ponto, se mostraram to competentes quanto seus modelos dos 
sculos passados.
          Algumas dessas profecias apareciam at em folhetins nos jornais e no eram lidos com menos avidez que as histrias sentimentais que l se encontravam em 
tempo de sade. Algumas dessas previses baseavam-se em clculos estranhos em que intervinham o milsimo do ano, o nmero de mortos e a conta dos meses j passados 
sob o regime da peste. Outras estabeleciam comparaes com as grandes pestes da histria, tiravam delas semelhanas (que as profecias chamavam constantes) e, por 
meio de clculos no menos estranhos, pretendiam extrair delas ensinamentos relativos  presente provao. Mas as mais apreciadas pelo pblico eram, sem contestao, 
as que, numa linguagem apocalptica, anunciavam sries de acontecimentos, cada um dos quais podia ser aquele que a cidade sentia e cuja complexidade permitia todas 
as interpretaes. Nostradamus e Santa Odlia foram assim consultados diariamente e sempre com proveito. O que, de resto, se tornava comum a todas as profecias era 
o fato de elas serem, finalmente, tranqilizadoras. S a peste no o era.
          Essas supersties substituam para nossos concidados a religio, e foi por isso que o sermo de Paneloux se realizou numa igreja de que a quarta parte 
estava vaga. Na tarde do sermo, quando Rieux chegou, o vento, que se infiltrava em filetes de ar pelas portas de entrada, circulava livremente entre os ouvintes. 
E foi numa igreja fria e silenciosa, no meio de uma assistncia composta exclusivamente por homens, que ele se instalou e viu o Padre Paneloux subir ao plpito. 
Este falou num tom mais brando e mais refletido que da primeira vez, e em vrias ocasies os ouvintes notaram uma certa hesitao em seu discurso. Coisa mais curiosa 
ainda, dizia agora "ns", em vez de empregar a segunda pessoa do plural.
          No entanto, sua voz tornou-se pouco a pouco mais firme. Comeou por lembrar que a peste estava entre ns h longos meses e que, agora que a conhecamos 
melhor, por a termos visto tantas vezes sentar-se  nossa mesa ou  cabeceira dos que nos eram queridos, caminhar ao nosso lado ou esperar a nossa chegada aos lugares 
de trabalho, agora, portanto, poderamos talvez receber melhor o que ela nos dizia sem descanso e que talvez, com a primeira surpresa, no tivssemos escutado bem. 
O que o Padre Paneloux j pregara no mesmo lugar continuava verdadeiro ou era essa, pelo menos, sua convico. Ou talvez ainda, como acontecia a todos, e batia no 
peito, ele o tivesse pensado e dito sem caridade. O que continuava verdadeiro, entretanto, era que em tudo, e sempre, havia qualquer coisa a reter. A provao mais 
cruel era ainda benefcio para o cristo, e justamente o que o cristo, nesse caso, devia procurar era seu benefcio e de que era ele feito e como podia encontr-lo.
          Nesse momento,  volta de Rieux as pessoas pareceram enterrar-se entre os braos de seus bancos e instalar-se o mais confortavelmente que podiam. Uma das 
portas almofadadas da entrada bateu suavemente. Algum se deu ao trabalho de segur-la. E Rieux, distrado por essa agitao, mal ouviu Paneloux, que retomava o 
sermo. Dizia, mais ou menos, que no se devia tentar explicar o espetculo da peste, mas sim tentar aprender o que com ele se podia aprender. Rieux compreendeu 
conusamente que, segundo o padre, nada havia a explicar. Seu interesse fixou-se quando Paneloux disse vigorosamente que havia coisas que se podiam explicar em relao 
a Deus e outras que no se podiam. Havia, certamente, o bem e o mal e, geralmente, as pessoas sabiam explicar facilmente o que os distinguia. A dificuldade comeava 
porm no interior do mal. Havia, por exemplo, o mal aparentemente necessrio e o mal aparentemente intil. Havia Dom Juan mergulhado nos Infernos e a morte de uma 
criana. Pois, se  justo que um libertino seja fulminado, no se compreende o sofrimento de uma criana. E, na verdade, nada havia de mais importante sobre a terra 
que o sofrimento de uma criana e o horror que esse sofrimento traz consigo e suas razes que  preciso descobrir. No resto da vida, Deus nos facilitava tudo e, 
at ento, a religio no tinha mritos. Aqui, pelo contrrio, ele encostava-nos contra a parede. Estvamos assim sob as muralhas da peste e era  sua sombra mortal 
que era necessrio encontrar nosso benefcio. O Padre Paneloux chegava at a recusar as oportunidades que lhe permitissem escalar a muralha. Ter-lhe-ia sido fcil 
dizer que a eternidade das delcias que esperavam a criana podia compensar  seu sofrimento, mas, na verdade, ele nada sabia. Quem podia afirmar que a eternidade 
de uma alegria podia compensar um instante da dor humana? No seria um cristo, certamente, cujo Mestre conheceu a dor nos membros e na alma. No, o padre continuaria 
encostado  muralha, fiel a esse esquartejamento de que a cruz era o smbolo, diante do sofrimento de uma criana. E diria sem temor aos que o escutavam nesse dia, 
"Meus irmos, chegou a hora.  preciso crer em tudo ou tudo negar. E quem, dentre vs, ousaria negar tudo?"
          Rieux mal tivera tempo de pensar que Paneloux beirava a heresia e j o outro recomeava, com veemncia, para afirmar que essa injuno, essa pura exigncia, 
era o benefcio do cristo. Era, tambm, sua virtude. O padre sabia que o que havia de excessivo na virtude de que ia falar chocaria muitos espritos habituados 
a uma moral mais indulgente e mais clssica. Mas a religio do tempo da peste no podia ser a religio de todos os dias, e se Deus podia admitir, e mesmo desejar, 
que a alma repouse e se rejubile nos tempos de felicidade, desejava-o excessivamente nos excessos da desgraa. Deus concedia hoje s suas criaturas a graa de coloc-las 
numa desgraa tal que lhes era necessrio reencontrar e assumir a maior virtude que  a do Tudo ou Nada.
          Um autor profano, h muitos sculos, pretendera revelar o segredo da Igreja, ao afirmar que no havia Purgatrio. Subentendia, assim, que no havia meias 
medidas, que s havia o Paraso e o Inferno, e que s se podia ser salvo ou condenado, segundo o que se tinha escolhido. Era, na opinio de Paneloux, uma heresia 
que s podia nascer no seio de uma alma libertina. Pois existia um Purgatrio. Mas havia pocas, sem dvida, em que no se podia contar muito com esse Purgatrio, 
havia pocas em que no se podia falar de pecado venial. Todo pecado era mortal e toda indiferena, criminosa. Tudo ou nada.
          Paneloux deteve-se, e Rieux ouviu melhor, nesse momento, debaixo das portas, as lamrias do vento, que parecia redobrar l fora. Nesse instante, o padre 
dizia que a virtude da aceitao total de que falava no podia ser compreendida no sentido restrito que lhe era habitualmente atribudo, que no se tratava da banal 
resignao, nem mesmo da difcil humildade. Tratava-se de humilhao, mas de uma humilhao consentida pelo humilhado. Sem dvida, o sofrimento de uma criana era 
humilhante para o esprito e para o corao. Mas exatamente por isso era necessrio passar por essa prova. Era por isso - e Paneloux afirmou ao seu auditrio que 
o que iria dizer no era coisa fcil - preciso quer-la, porque Deus a queria. S assim o cristo nada se pouparia e, com todas as sadas fechadas, iria ao fundo 
da escolha essencial. Escolheria crer em tudo, para no ficar reduzido a tudo negar. E como as boas mulheres que nas igrejas, nesse momento, ao saber que os tumores 
que se formavam eram o caminho natural por onde o corpo rejeitava a infeco, diziam: "Meu Deus, dai-nos tumores", o cristo saberia abandonar-se  vontade divina, 
ainda que incompreensvel. No se podia dizer: "Isso eu compreendo, mas aquilo  inaceitvel", era preciso agarrar-se avidamente a esse inaceitvel que nos era oferecido, 
justamente para que fizssemos nossa escolha. O sofrimento das crianas era nosso po amargo, mas sem esse po, nossa alma pereceria de fome espiritual.
          Aqui, o burburinho surdo que geralmente acompanhava as pausas do Padre Paneloux comeava a fazer-se ouvir, quando, inopinadamente, o pregador recomeou 
com fora, aparentando perguntar, em lugar de seus ouvintes, qual era em suma a conduta a adotar. Receava efetivamente que eles fossem pronunciar a aterradora palavra 
"fatalismo". Pois bem, ele no recuaria diante do termo, se lhe permitissem acrescentar o adjetivo ativo. Sem dvida, e mais uma vez, no se deviam imitar os cristos 
da Abissnia de que falara. No se devia sequer pensar em imitar os persas atingidos pela peste, que lanavam seus bandos sobre os piquetes cristos, invocando o 
cu em altas vozes, para pedir que mandasse a peste a esses infiis que queriam combater o mal enviado por Deus. Mas, por outro lado, tampouco se deviam imitar os 
monges do Cairo que, nas epidemias do sculo passado, davam a comunho pegando a hstia com uma pina, para evitar o contato com aquelas bocas midas e quentes em 
que a infeco podia dormir. Os doentes persas e os monges pecavam igualmente. Isso porque, para os primeiros, o sofrimento de uma criana no contava e, para os 
outros, pelo contrrio, o receio bem humano da dor tudo invadira. Em ambos os casos, o problema era escamoteado. Todos permaneciam surdos  voz de Deus. Mas havia 
outros exemplos que Paneloux queria recordar. Segundo o cronista da grande peste de Marselha, dos oitenta e um religiosos do Convento de La Mercy, s quatro sobreviveram 
 febre. E, desses quatro, trs fugiram. Assim falavam os cronistas, e no fazia parte de seu ofcio dizer mais. Mas, ao ler isso, o pensamento do Padre Paneloux 
ia para aquele que ficara sozinho, apesar dos setenta e sete cadveres e, sobretudo, apesar do exemplo de seus trs irmos. E o padre, batendo com o punho no rebordo 
do plpito, exclamava: "Meus irmos,  preciso ser aquele que fica!"
          No se tratava de recusar as precaues, a ordem inteligente que uma sociedade introduzia na desordem de um flagelo. No se deviam escutar os moralistas 
que diziam ser preciso cair de joelhos e tudo abandonar. Era preciso, apenas, comear a caminhar para a frente, nas trevas, um pouco s cegas, e tentar praticar 
o bem. Quanto ao resto, porm, era preciso ficar e aceitar entregar-se a Deus, mesmo na morte das crianas, e sem procurar um recurso pessoal.
          Aqui, o Padre Paneloux evocou a grande figura do Bispo Belzunce durante a peste de Marselha. Lembrou que, pelo fim da epidemia, o bispo, tendo feito tudo 
o que devia fazer, julgando que j no havia remdio, se trancou com vveres em sua casa, que mandou murar; que os habitantes, de quem era o dolo, por uma reviravolta 
de sentimentos, tal como ocorre por vezes no excesso das dores, zangaram-se com ele, cercaram-lhe  casa de cadveres para infect-lo e chegaram at a atirar corpos 
por cima dos muros para faz-lo morrer com mais certeza. Assim, o bispo, numa ltima fraqueza, tinha julgado isolar-se da morte no mundo, e os mortos caam-lhe do 
cu sobre a cabea. Esse era tambm nosso caso, j que devamos persuadir-nos de que no havia ilha na peste. No, no havia meio-termo. Era preciso admitir o escndalo, 
pois era necessrio escolher entre odiar a Deus ou am-lo. E quem ousaria escolher o dio a Deus?
          - Meus irmos - disse por fim Paneloux, anunciando que ia terminar -, o amor de Deus  um amor difcil. Ele pressupe o abandono total de si mesmo e o 
menosprezo da pessoa. Mas s ele pode apagar o sofrimento e a morte das crianas, s ele, em todo caso, pode torn-la necessria, pois  impossvel compreend-la, 
e no podemos seno desej-la. Eis a difcil lio que desejava compartilhar convosco. Eis a f, cruel aos olhos dos homens, decisiva aos olhos de Deus, de quem 
 preciso nos aproximarmos. Diante dessa imagem terrvel,  preciso que nos igualemos. Nesse cume, tudo se confundir e se nivelar, a verdade brotar da injustia 
aparente.  assim que em muitas igrejas do sul da Frana os mortos da peste dormem, h sculos, sob as lajes do coro, e os padres falam por cima de seus tmulos, 
e o esprito que eles propagam brota dessa cinza para a qual as crianas deram, contudo, a sua parte.
          Quando Rieux saiu, um vento violento engolfou-se pela porta entreaberta e atingiu em pleno rosto os fiis. Trazia at a igreja um cheiro de chuva, um aroma 
de caladas molhadas que lhes deixava adivinhar o aspecto da cidade antes de sarem. Diante do Dr. Rieux, um velho padre e um jovem dicono, que saam nesse momento, 
seguravam com dificuldade os chapus. Nem por isso, o mais velho deixou de comentar o sermo. Prestava homenagem  eloquncia de Paneloux, mas mostrava-se inquieto 
com as ousadias de pensamento que o padre tinha mostrado. Achava que esse sermo indicava mais inquietao que fora e, na idade de Paneloux, um padre j no tinha 
o direito de ficar inquieto. O jovem dicono, com a cabea baixa para proteger-se do vento, afirmou que frequentava o padre, que estava a par de sua evoluo, que 
seu tratado seria ainda muito mais ousado e que no obteria o Imprimatur.
          - Qual  afinal a ideia dele? - perguntou o velho padre.
          Tinham chegado ao adro e o vento cercava-os, uivando, cortando a palavra ao mais novo. Quando conseguiu falar, disse simplesmente:
          - Se um padre consulta um mdico, h contradio. A Rieux, que lhe contava as palavras de Paneloux, disse que conhecia um padre que perdera a f durante 
a guerra ao descobrir um rosto de rapaz com os olhos vazados.
          - Paneloux tem razo - disse Tarrou. - Quando a inocncia tem os olhos vazados, um cristo deve perder a f ou aceitar que lhe furem os olhos. Paneloux 
no quer perder a f, ir at o fim. Foi isso o que quis dizer.
          Ser que essa observao de Tarrou permite esclarecer um pouco os lamentveis acontecimentos que se seguiram e em que a atitude de Paneloux pareceu incompreensvel 
aos que o cercavam?  o que se ver.
          Na verdade, alguns dias depois do sermo, Paneloux ocupou-se em mudar de casa. Era a poca em que a evoluo da doena provocava mudanas constantes na 
cidade. E, assim como Tarrou tivera de abandonar o hotel para morar em casa de Rieux, o padre teve de deixar a casa em que sua ordem o instalara para ir morar em 
casa de uma pessoa idosa, frequentadora das igrejas e ainda imune  peste. Durante a mudana, o padre sentira aumentar o cansao e a angstia. E foi assim que ele 
perdeu a estima da dona da casa. Como esta lhe tivesse louvado calorosamente os mritos da profecia de Santa Odlia, o padre demonstrara uma impacincia muito ligeira, 
devida sem dvida ao cansao. Por mais esforos que fizesse, em seguida, para obter da velha senhora pelo menos uma neutralidade benvola, no o conseguiu. Tinha 
causado m impresso. E, todas as noites, antes de voltar para o quarto cheio de rendas de croch, tinha de contemplar as costas de sua anfitri, sentada na sala 
ao mesmo tempo em que levava a recordao do "Boa noite, Padre Paneloux" que ela lhe dirigia secamente e sem se voltar. Foi numa noite dessas que, no momento de 
se deitar, com a cabea latejante, ele sentiu desencadearem-se, nos pulsos e nas tmporas, as ondas de uma febre, latente h dias.
          O que se seguiu s ficou conhecido depois, pelo relato de sua anfitri. De manh, ela se levantara cedo, como de costume. Ao fim de certo tempo, admirada 
de no ver o padre sair do quarto, decidira-se, depois de muita hesitao, bater  porta. Encontrara-o ainda deitado, depois de uma noite de insnia. Respirava com 
dificuldade e parecia mais congestionado que habitualmente. Segundo seus prprios termos, tinha-lhe proposto com cortesia chamar um mdico, mas a proposta fora repelida 
com uma violncia que ela considerava lamentvel. Nada pudera fazer, seno retirarse. Um pouco mais tarde, o padre tocara e mandara chamar Ia. Tinha-se desculpado 
pelo mau humor e declarara-lhe que no devia ser a peste, que no apresentava nenhum dos sintomas e que se tratava de um cansao passageiro. A velha senhora respondera-lhe 
com dignidade que sua proposta no nascera de nenhuma inquietao dessa ordem, que no visava a sua prpria segurana, que estava nas mos de Deus, mas que s pensara 
na sade do padre, pela qual se julgava, em parte, responsvel. Mas, como ele nada mais acrescentasse, sua anfitri, a acreditar em suas palavras, desejosa de cumprir 
inteirametne seu dever, propusera-lhe, mais uma vez, chamar o mdico. O padre recusara de novo, mas acrescentando explicaes que a velha senhora julgara muito confusas. 
Pensava apenas ter compreendido - e isso justamente lhe parecia incompreensvel - que o padre recusava essa consulta porque estava em desacordo com seus princpios. 
Conclura que a febre perturbava as ideias de seu inquilino, e que ela estava reduzida a levar-lhe um ch.
          Sempre decidida a cumprir com grande exatido as obrigaes que a situao lhe criava, visitara regularmente o doente de duas em duas horas. O que mais 
a impressionara fora a agitao incessante em que o padre passara o dia. Tirava os lenis e tornava a cobrir-se, passando incessantemente as mos sobre a testa 
mida e erguendo-se muitas vezes para tentar tossir, com uma tosse estrangulada, rouca e mida, aos arrancos. Parecia ento incapaz de extirpar do fundo da garganta 
os tampes de algodo que o teriam sufocado. Ao fim dessas crises, deixava-se cair para trs, com todos os sinais de esgotamento. Por fim, semierguia-se de novo 
e, durante um breve momento, olhava para a frente, com uma fixidez mais veemente que toda a agitao anterior. Mas a velha senhora hesitava ainda em chamar o mdico 
e contrariar o doente. Podia ser um simples acesso de febre, por mais impressionante que parecesse.
           tarde, contudo, tentou falar com o padre, recebendo como resposta apenas algumas palavras confusas. Renovou a proposta. Mas ento o padre ergueu-se e, 
meio sufocado, respondeu-lhe distintamente que no queria um mdico. Nesse momento, a anfitri decidiu que esperaria at o dia seguinte de manh e que, se o estado 
do padre no tivesse melhorado, telefonaria para o nmero que a Agncia Ransdoc repetia todos os dias uma dezena de vezes pelo rdio. Sempre atenta a seus deveres, 
pretendia visitar seu locatrio durante a noite e velar por ele. Mas  noite, depois de lhe ter dado um ch fresco, quis descansar um pouco e s acordou de madrugada. 
Ento, correu para o quarto.
          O padre estava estendido, sem um movimento.  extrema congesto da vspera, sucedera uma espcie de lividez que se acentuava pelas formas ainda cheias 
do rosto. O padre fixava o pequeno lustre de contas multicolores que pendia por cima da cama.  entrada da velha senhora, voltou a cabea em sua direo. Segundo 
ela, parecia nessa altura ter sido surrado durante toda a noite e ter perdido todas as foras para reagir. Perguntou-lhe como estava. E, numa voz em que notou o 
tom estranhamente indiferente, ele disse que ia mal, que no precisava de mdico e que bastava que o levassem para o hospital, para que tudo se fizesse segundo as 
regras. Aterrada, a velha correu para o telefone.
          Rieux chegou ao meio-dia. Diante do relato, respondeu apenas que Paneloux tinha razo e que devia ser tarde demais. O podre recebeu-o com o mesmo ar indiferente. 
Rieux examinou-o e ficou surpreso por no encontrar nenhum dos sintomas principais da peste bubnica ou pulmonar, a no ser o ingurgitamento e a opresso dos pulmes. 
De qualquer maneira, o pulso estava to baixo e o estado geral to alarmante, que havia poucas esperanas.
          - O senhor no tem nenhum dos sintomas principais da doena, mas, em todo caso, h dvidas e tenho de isol-lo.
          O padre sorriu estranhamente, como por delicadeza, mas calou-se. Rieux saiu para telefonar e voltou. Olhava para o padre.
          - Ficarei perto do senhor - disse-lhe, suavemente. O outro pareceu reanimar-se e voltou para o mdico uns olhos aos quais uma espcie de calor parecia 
ter retornado. Depois, articulou dificilmente, de maneira que era impossvel saber se o dizia com tristeza ou no:
          - Obrigado. Mas os religiosos no tm amigos. Concentraram tudo em Deus.
          Pediu o crucifixo que estava colocado  cabeceira do leito e, quando o recebeu, voltou para ele o olhar.
          No hospital, Paneloux no descerrou os dentes. Abandonou-se como uma coisa a todos os tratamentos que lhe impuseram, mas no largou o crucifixo. Entretanto, 
o caso do padre continuava a ser ambguo. A dvida persistia no esprito de Rieux. Era a peste e no era. H'algum tempo, ela parecia comprazer-se em confundir os 
diagnsticos. No caso de Paneloux, porm, o que se seguiu viria demonstrar que essa incerteza no tinha importncia.
          A febre subiu. A tosse tornou-se cada vez mais rouca e torturou o doente durante todo o dia.  noite, finalmente, o padre expectorou o algodo que o sufocava. 
Era vermelho. Em meio ao tumulto da febre, Paneloux conservava o olhar indiferente e quando, no dia seguinte de manh, o encontraram morto, meio fora do leito, seu 
olhar no exprimia nada. Na ficha, escreveram: "Caso duvidoso".
          O Dia de Todos os Santos, nesse ano, no foi o que era habitualmente. Na verdade, o tempo era o de costume. Mudara bruscamente, e os calores tardios tinham 
dado lugar de repente a uma temperatura mais baixa. Como nos outros anos, um vento frio soprava agora de modo contnuo. Grossas nuvens corriam de um lado para outro 
no horizonte e cobriam de sombra as casas, nas quais caa, aps sua passagem, a luz fria e dourada do cu de novembro. As primeiras capas de chuva tinham surgido. 
Mas notava-se um nmero surpreendente de tecidos impermeabilizados e brilhantes. Os jornais tinham contado, com efeito, que, duzentos anos antes, durante as grandes 
pestes do sul, os mdicos usavam oleados para sua prpria preservao. As lojas tinham se aproveitado disso para liquidar um estoque de roupas fora de moda, graas 
s quais todos esperavam imunizar-se.
          Mas todos esses sinais da estao no podiam fazer esquecer que os cemitrios estavam desertos. Nos outros anos, os bondes se enchiam do cheiro enjoativo 
dos crisntemos e as mulheres em bandos dirigiam-se aos locais onde estavam enterrados os seus para cobrir-lhes de flores as sepulturas. Era o dia em que se tentava 
compensar junto ao morto o isolamento do esquecimento em que fora mantido durante longos meses. Mas, naquele ano, ningum queria mais pensar nos mortos.  que, precisamente, 
j se pensava demais nisso. E no se tratava mais de voltar a eles com um pouco de pesar e muita melancolia. J no eram os abandonados junto dos quais os vivos 
vo justificar-se uma vez por ano. Eram intrusos que se desejava esquecer. Eis por que a festa dos mortos, nesse ano, foi, de certo modo, escamoteada. Segundo Cottard, 
em quem Tarrou reconhecia uma linguagem cada vez mais irnica, todos os dias eram dia dos mortos.
          E, realmente, as fogueiras da peste ardiam com uma satisfao cada vez maior no forno crematrio. De um dia para o outro, na verdade, o nmero dos mortos 
no aumentava. Mas parecia que a peste se tinha instalado confortavelmente no seu paroxismo e incorporava aos seus assassinatos dirios a preciso e a regularidade 
de um bom funcionrio. Em princpio, segundo a opinio de pessoas competentes, era bom sinal. O grfico da evoluo da peste, com sua subida incessante, depois o 
longo planalto que lhe sucedera, parecia inteiramente reconfortante ao Dr. Richard, por exemplo. " um bom grfico, um excelente grfico", dizia ele. Achava que 
a doena tinha atingido o que ele chamava de "patamar". Daqui em diante, s poderia decrescer. E ele atribua o mrito disso ao novo soro de Gastei, que acabava 
de obter, com efeito, alguns xitos imprevistos. O velho Gastei no o contradizia, mas considerava que na realidade nada se podia prever, j que a histria das epidemias 
comportava saltos imprevistos. A prefeitura, que h muito desejava tranqilizar a opinio pblica e  qual a peste no proporcionava os meios necessrios, se propunha 
a reunir os mdicos para lhes pedir um relatrio sobre o assunto, quando o prprio Dr. Richard, logo ele, foi arrebatado pela peste e precisamente no patamar da 
doena.
          A administrao, diante desse exemplo sem dvida im- j pressionante, mas que, afinal, nada provava, voltou ao pessimismo com a mesma inconsequncia com 
que acolhera, a princpio, o otimismo. Gastei limitava-se a preparar seu soro com o maior cuidado possvel. De qualquer forma, j no havia nenhum lugar pblico 
que no estivesse transformado em hospital ou em isolamento, e se a prefeitura ainda era respeitada,  porque era efetivamente necessrio manter um local de reunio. 
De um modo geral, porm, graas  relativa estabilidade da peste nessa poca, a organizao prevista por Rieux no foi de modo algum ultrapassada. Os mdicos e os 
auxiliares, que contribuam com um esforo inesgotvel, no eram obrigados a imaginar um esforo ainda maior. Deviam apenas prosseguir com regularidade, se assim 
se pode dizer, esse trabalho sobre-humano. As formas pulmonares da infeco, que j se tinham manifestado, multiplicavam-se agora nos quatro cantos da cidade, como 
se o vento acendesse e alimentasse incndios nos peitos. Em meio aos vmitos de sangue, os doentes eram arrebatados muito mais rapidamente. O contgio tinha agora 
probabilidade de ser maior, com essa nova forma de epidemia. Na realidade, as opinies dos especialistas tinham sempre sido contraditrias sobre esse ponto. Contudo, 
para maior segurana, o pessoal sanitrio continuava a respirar atravs de mscaras de gaze desinfetadas.  primeira vista, em todo caso, a doena deveria ter-se 
alastrado. No entanto, como os casos de peste bubnica diminuam, a balana mantinhase em equilbrio.
          Havia, no entanto, outros motivos de inquietao em consequncia das dificuldades de abastecimento, que cresciam com o tempo. A especulao interviera 
e oferecia, a preos fabulosos, os gneros de primeira necessidade que faltavam no mercado habitual. As famlias pobres viam-se, assim, numa situao muito difcil, 
enquanto s ricas no assim, faltava praticamente nada. A peste, que, pela imparcialidade eficaz com que exercia seu ministrio, deveria ter reforado a igualdade 
entre nossos concidados pelo jogo normal dos egosmos, tornava, ao contrrio, mais acentuado no corao dos homens o sentimento da injustia. Restava,  bem verdade, 
a igualdade irrepreensvel da morte, mas essa, ningum queria. Os pobres que sofriam de fome pensavam, com mais nostalgia ainda, nas cidades e nos campos vizinhos, 
onde a vida era livre e o po no era caro. J que no podiam aliment-los suficientemente, eles tinham o sentimento, pouco sensato alis, de que deveriam t-los 
deixado partir. De tal modo que se difundira uma divisa que se lia, s vezes, nos muros ou se gritava  passagem do prefeito: "Po ou ar". Essa frmula irnica dava 
o alarme de certas manifestaes logo reprimidas, mas cuja gravidade todos percebiam.
          Os jornais, evidentemente, obedeciam s instrues que recebiam, de otimismo a qualquer preo. Ao l-los, o que caracterizava a situao era "o exemplo 
comovente de calma e de sangue-frio" dado pela populao. Numa cidade fechada sobre si mesma, porm, em que nada conseguia ficar em segredo, ningum tinha iluses 
sobre o "exemplo" dado pela comunidade. E, para se ter uma ideia justa da calma e do sangue-frio de que se falava, bastava entrar num local de quarentena ou num 
dos campos de isolamento que haviam sido organizados pelas autoridades. Acontece que o narrador, ocupado com outros chamados, no os conheceu. Eis por que s pode 
citar aqui o testemunho de Tarrou.
          Tarrou, na verdade, relata em seus cadernos uma visita que fez com Rambert ao campo instalado no estdio municipal. O estdio fica situado quase s portas 
da cidade e d, por um lado, para a rua onde passam os bondes e, pelo outro, para os terrenos baldios que se estendem at a beira do planalto em que a cidade est 
construda. Habitualmente,  cercado por muros altos de cimento e bastara colocar sentinelas s quatro portas de entrada para dificultar a fuga. Da mesma forma, 
os muros impediam as pessoas do exterior de importunar, com sua curiosidade, os infelizes que estavam de quarentena. Em compensao, estes, durante todo o dia, ouviam, 
sem v-los, os carros que passavam e adivinhavam, pelo maior rumor que estes deixavam para trs, as horas de entrada e de sada das reparties. Sabiam, assim, que 
a vida de que estavam excludos continuava a alguns metros dali e que os muros de cimento separavam dois universos mais estranhos um ao outro do que se estivessem 
em planetas diferentes.
          Foi uma tarde de domingo que Tarrou e Rambert escolheram para se dirigir ao estdio. Acompanhava-os Gonzlez, o jogador de futebol, que Rambert voltara 
a encontrar e que acabara aceitando dirigir, por turnos, a vigilncia do estdio. Rambert devia apresent-lo ao administrador do campo. Gonzlez dissera aos dois 
homens no momento em que se tinham encontrado, que era quela hora, antes da peste, que ele se preparava para comear sua partida. Agora que os estdios estavam 
requisitados, no era mais possvel. Gonzlez sentia-se e parecia inteiramente ocioso. Essa era uma das razes pelas quais aceitara essa vigilncia, com a condio 
de exerc-la apenas nos fins de semana. O cu estava meio encoberto e Gonzlez, de nariz no ar, observou com pesar que esse tempo, nem chuvoso nem quente, era o 
mais favorvel a uma boa partida. Recordava como podia o cheiro de embrocao nos vestirios, as tribunas apinhadas, os uniformes de cores vivas sobre o terreno 
fulvo, o limo dos intervalos e a limonada que arde nas gargantas secas com mil agulhas refrescantes. Tarrou nota, alis, que durante todo o trajeto atravs das 
ruas esburacadas do subrbio, o jogador no parava de chutar todas as pedrinhas que encontrava. Procurava acertar nos bueiros e, quando conseguia, exclamava: "Um 
a zero". Quando acabava de fumar, atirava a ponta do cigarro  frente e tentava, com o p, peg-la no ar. Perto do estdio, crianas que jogavam mandaram uma bola 
para perto do grupo que passava, e Gonzlez deu-se ao trabalho de devolv-la com preciso.
          Finalmente, entraram no estdio. As tribunas estavam cheias de gente. Mas o terreno estava coberto de vrias centenas de barracas vermelhas, no interior 
das quais se avistavam, de longe, camas e embrulhos. As tribunas haviam sido conservadas, para que os internados pudessem abrigarse do calor ou da chuva. Ao anoitecer, 
deviam simplesmente retornar s barracas. Debaixo das tribunas, encontravam-se os chuveiros, que tinham sido arranjados, e os antigos vestirios dos jogadores, que 
tinham sido transformados em gabinetes e enfermarias. A maior parte dos internados .encontrava-se nas tribunas. Outros vagavam pelos corredores laterais. Outros 
ainda estavam agachados  entrada de sua barraca e passeavam sobre todas as coisas um olhar vago. Nas tribunas, muitos estavam deitados e pareciam esperar.
          - Que fazem durante o dia? - perguntou Tarrou a Rambert.
          - Nada.
          Quase todos, na verdade, tinham os braos cados e as mos vazias. Essa imensa assembleia de homens mantinhase curiosamente silenciosa.
          - Nos primeiros dias, ningum se entendia aqui - disse Rambert. - Mas,  medida em que os dias corriam, passaram a falar cada vez menos.
          A julgar por suas anotaes, Tarrou os compreendia e via-os a princpio amontoados em suas barracas, ocupados em escutar as moscas ou coar-se, uivando 
sua clera ou seu medo, quando encontravam um ouvido complacente. Mas, a partir do momento em que o campo ficara superpovoado, restava-lhes, portanto, calar e desconfiar. 
Na verdade, havia uma espcie de desconfiana que caa do cu cinzento e, no entanto, luminoso, sobre o campo vermelho.
          Sim, todos tinham um ar de desconfiana. J que os tinham separado dos outros, devia haver alguma razo, e apresentavam o rosto dos que procuram suas razes 
e as temem. Cada um daqueles que Tarrou olhava tinha os olhos desocupados, e todos pareciam sofrer de uma separao muito genrica daquilo que constitua a sua vida. 
E, como no podiam pensar sempre na morte, no pensavam em nada. Estavam de frias. "Mas o pior", escrevia Tarrou, " eles serem esquecidos e saberem disso. Os que 
os conheciam esqueceram-nos porque pensam em outra coisa, e isso  bem compreensvel. Quanto aos que os amam, esqueceram-se tambm, pois so forados a esgotar-se 
em diligncias e projetos para retir-los dali e, de tanto pensarem nessa sada, j no pensam naqueles que querem retirar. Tambm isso  normal. E, afinal, v-se 
que ningum  realmente capaz de pensar em ningum, ainda que seja na pior das desgraas. Porque pensar realmente em algum  pensar de minuto a minuto, sem se deixar 
distrair pelo que quer que seja: nem os cuidados da casa, nem a mosca que voa, nem as refeies, nem uma coceira. Mas h sempre moscas e coceiras.  por isso que 
a vida  difcil de viver. E eles sabem muito bem."
          O administrador, que se dirigia a eles, disse-lhes que um tal Sr. Othon desejava v-los. Conduziu Gonzlez ao seu gabinete e depois levou-os a um canto 
das tribunas, de onde o Sr. Othon, que se sentara a alguma distncia, se levantou para receb-los. Continuava a vestir-se da mesma maneira e usava o mesmo colarinho 
engomado. Tarrou notou apenas que os cabelos nas tmporas estavam muito mais eriados e que um dos cordes dos sapatos se desatara. O juiz parecia cansado e nem 
uma nica vez olhou seus interlocutores de frente. Disse que tinha muito prazer em v-los e encarregou-os de agradecer ao Dr. Rieux pelo que fizera.
          Os outros calaram-se.
          - Espero - disse o juiz, algum tempo depois - que Philippe no tenha sofrido muito.
          Era a primeira vez que Tarrou o ouvia pronunciar o nome do filho e compreendeu que alguma coisa mudara. O sol baixava no horizonte e, entre duas nuvens, 
os raios penetravam lateralmente nas tribunas, dourando-lhes o rosto.
          - No - disse Tarrou -, no, ele realmente no sofreu.
          Quando se retiraram, o juiz continuava a olhar para o lado de onde vinha o sol.
          Foram despedir-se de Gonzlez, que estudava um quadro de vigilncia por turnos. O jogador riu ao apertar-lhes a mo.
          - Ao menos, descobri os vestirios - disse ele. Esto como antes.
          Pouco depois, o administrador reconduzia Tarrou e Rambert, quando se ouviu um enorme zumbido nas tribunas. Em seguida os alto-falantes, que nos bons tempos 
serviam para anunciar os resultados das partidas ou para apresentar os times, declararam, fanhosos, que os internados deviam voltar s barracas para que pudesse 
ser servido o jantar. Lentamente, os homens abandonaram as tribunas e dirigiram-se para as barracas, arrastando o passo. Depois de todos estarem instalados, dois 
pequenos carros eltricos, como os que se vem nas estaes, passaram por entre as barracas, transportando enormes panelas. Os homens estendiam os braos, duas conchas 
mergulhavam nas panelas e delas saam para encher as duas tigelas. O carrinho prosseguia na sua marcha. A cena recomeava na barraca seguinte.
          -  cientfico - disse Tarrou ao administrador.
          -  verdade - respondeu o outro, satisfeito, apertando-lhes a mo -,  cientfico.
          Chegara o crepsculo e o cu se descobrira. Uma luz suave e fresca banhava o campo. Na calma da tarde, rudos de colheres e de pratos vinham de todos os 
lados. Morcegos voavam por cima das barracas e desapareciam subitamente. Um bonde gritava na agulha, do outro lado do muro.
          - Pobre juiz - murmurou Tarrou, na sada. - Era preciso fazer qualquer coisa por ele. Mas como se ajuda um juiz?
          Havia assim, na cidade, vrios outros campos sobre os quais o narrador, por escrpulo e por falta de informao direta, nada mais pode dizer. Mas o que 
ele pode afirmar  que a existncia desses campos, o cheiro de homens que deles vinha, as vozes enormes dos alto-alantes no crepsculo, o mistrio dos muros e o 
temor desses lugares condenados pesavam duramente sobre o moral de nossos concidados e aumentavam ainda mais a desorientao e o mal-estar de todos. Os incidentes 
e os conflitos com a administrao multiplicaram-se.
          No fim de novembro, entretanto, as manhs tornaram-se muito frias. Chuvas diluvianas lavaram as caladas, limparam o cu e deixaram-no puro de nuvens por 
sobre as ruas reluzentes. Um sol sem fora espalhou sobre a cidade, todas as manhs, uma luz brilhante e glida. Pela tarde, ao contrrio, o ar ficava de novo morno. 
Foi esse o momento que Tarrou escolheu para se revelar um pouco junto ao Dr. Rieux.
          Por volta de dez horas, depois de um dia longo e exaustivo, Tarrou acompanhou Rieux, que ia fazer ao velho asmtico sua visita da noite. O cu brilhava 
suavemente por sobre as casas do velho bairro. Uma ligeira brisa soprava sem rudo atravs das encruzilhadas obscuras. Das ruas calmas, os dois homens deram com 
a tagarelice do velho. Este informou-os de que havia alguns que no estavam de acordo, que a manteiga ia sempre para os mesmos, que tanto o jarro vai  fonte que 
um dia quebra e que provavelmente - nesse ponto, esfregava as mos - ia haver problemas. O mdico tratou-o sem que ele parasse de comentar os acontecimentos.
          Ouviam passos por cima deles. A velha, notando o ar interessado de Tarrou, explicou-lhe que havia vizinhas no terrao. Souberam, ao mesmo tempo, que havia 
uma bela vista l de cima e que, como os terraos das casas se tocavam, por vezes era possvel s mulheres do bairro visitarem-se sem sair de casa.
          -  verdade - disse o velho -, podem subir. L em cima o ar  bom.
          Encontraram o terrao vazio e guarnecido de trs cadeiras. De um lado, to longe quanto a vista podia alcanar, s se viam terraos que acabavam por ir 
encostar-se a uma massa escura e pedregosa, em que reconheceram a primeira colina. Do outro lado, por cima de algumas ruas e do porto invisvel, o olhar mergulhava 
num horizonte em que o cu e o mar se misturavam numa palpitao indistinta. Para alm do que eles sabiam ser as falsias, um claro cuja origem no distinguiam 
reaparecia regularmente: o farol do canal, desde a primavera, continuava a girar para os navios que demandavam outros portos. No cu varrido e polido pelo vento, 
brilhavam estrelas puras, a que o claro longnquo do farol misturava, de momento a momento, uma cinza passageira. A brisa trazia cheiros de especiarias e de pedra. 
O silncio era absoluto.
          - O tempo est agradvel - disse Rieux, sentando-se.
          -  como se a peste nunca tivesse subido at aqui.
          Tarrou, de costas para ele, olhava para o mar.
          -  verdade - retorquiu ele, um momento depois.
          - Est agradvel.
          Veio sentar-se perto do mdico e olhou para ele atentamente. Por trs vezes, o claro reapareceu no cu. Da rua, das profundezas da rua, chegou at eles 
um rudo de loua. Na casa uma porta bateu.
          - Rieux - disse Tarrou, num tom natural -, nunca procurou saber quem eu era? Sente amizade por mim?
          - Sim - respondeu Rieux -, agora, o que nos faltou foi tempo.
          - Bem, isso me tranqiliza. Quer que esta hora seja a da amizade?
          Como nica resposta, Rieux sorriu.
          - Est bem...
          Algumas ruas adiante, um automvel pareceu deslizar longamente sobre a rua molhada. Afastou-se e, depois dele, exclamaes confusas, vindas de longe, romperam 
ainda o silncio. Depois, este caiu de novo sobre os dois homens com todo o seu peso de cu e de estrelas. Tarrou levantara-se para se empoleirar no parapeito do 
terrao, de frente para Rieux, que continuava enterrado na cadeira. S se via dele uma forma macia, recortada no cu. Falou longamente, e eis, mais ou menos, seu 
discurso reconstitudo:
          - Digamos, para simplificar, Rieux, que eu j sofria da peste muito antes de conhecer esta cidade e esta epidemia. Basta dizer que sou como todos. Mas 
h pessoas que no o sabem ou que se sentem bem nesse estado e pessoas que o sabem e que gostariam de sair dele. Por mim, quis sempre sair dele.
          "Quando era jovem, vivia com a ideia de minha inocncia, isto , sern ideia nenhuma. No sou do gnero atormentado, comecei como convinha. Tudo me corria 
bem, sentia-me  vontade com a inteligncia, melhor ainda com as mulheres, e, se tinha algumas inquietaes, passavam como tinham vindo. Um dia, comecei a refletir. 
Agora...
          "Devo dizer-lhe que eu no era pobre como o senhor. Meu pai era procurador-geral, o que  uma bela situao. Contudo, ningum diria ao v-lo, pois era 
bonacho por natureza. Minha me era simples e apagada, nunca deixei de am-la, mas prefiro no falar dela. Ele ocupava-se de mim com afeto, e creio at que se esforava 
por me compreender. Tinha suas aventuras por fora, agora tenho certeza disso e estou longe de me indignar. Conduzia-se em tudo isso como era de esperar que se conduzisse: 
sem chocar ningum. Para encurtar, no era muito original e, hoje que est morto, compreendo que, se no viveu como um santo, tambm no era um mau homem. Adaptava-se 
ao meio, e  esse o gnero de homem por quem se sente uma afeio razovel, que  duradoura.
          "Tinha, entretanto, uma particularidade: o grande Guia Chaix era seu livro de cabeceira. No que viajasse muito, exceto nas frias, para ir  Bretanha, 
onde tinha uma pequena propriedade. Mas era capaz de dizer exatamente as horas de partida e de chegada do Paris-Berlim, as combinaes de horrios que era necessrio 
fazer para ir de Lyon a Varsvia, a quilometragem exata entre quaisquer capitais  sua escolha.  capaz de dizer como se vai de Brianon a Chamonix? At um chefe 
de estao se perderia. Mas meu pai, no. Exercitava-se quase todas as noites a enriquecer seus conhecimentos nesse ponto e sentia nisso um certo orgulho. Isso me 
divertia muito e eu o interrogava muitas vezes, encantado por verificar suas respostas no Chaix e reconhecer que no se enganara. Esses pequenos exerccios ligaramnos 
muito um ao outro, pois eu lhe fornecia um auditrio cuja boa vontade ele apreciava. Quanto a mim, pensava que essa superioridade em relao s estradas de ferro 
valia tanto quanto qualquer outra.
          "Mas estou divagando e arrisco-me a atribuir demasiada importncia a esse bom homem. Porque, para terminar, ele s teve uma influncia indireta na minha 
determinao. Quando muito, forneceu-me uma oportunidade. Na verdade, quando fiz dezessete anos, meu pai convidou-me a ir ouvilo. Tratava-se de um caso importante, 
no Tribunal do Jri, e certamente ele tinha pensado poder mostrar-se na sua melhor forma. Acho, tambm, que ele contava com essa cerimonia, prpria para impressionar 
as imaginaes jovens, para me levar a entrar para a carreira que ele prprio escolhera. Eu tinha aceitado, pois isso dava prazer ao meu pai e porque, da mesma forma, 
tinha curiosidade de v-lo e ouvi-lo em um papel diferente do que representava entre ns. No pensava em mais nada. O que se passava num tribunal sempre me parecera 
to natural e inevitvel quanto um desfile de 14 de Julho ou uma distribuio de prmios. Fazia disso uma ideia abstraa e que no me incomodava.
          "Contudo, no conservei desse dia seno uma nica imagem: a do ru. Creio que ele era realmente culpado, mas no importa de qu. Mas o homenzinho de cabelo 
ruivo e ralo, de uns trinta anos, parecia to decidido a admitir tudo, to sinceramente aterrorizado pelo que tinha feito e pelo que iam fazer-lhe, que ao fim de 
alguns minutos eu no tinha olhos seno para ele. Parecia uma coruja assustada por uma luz demasiado forte. O n da sua gravata no se ajustava exatamente ao ngulo 
do colarinho. Roa as unhas de uma nica mo, a direita. . . Em resumo, no vale a pena insistir mais, j compreendeu que ele estava vivo.
          "Eu, porm, s agora me dava conta disso, bruscamente, pois at ento s tinha pensado nele atravs da categoria de 'acusado'. No posso dizer que esquecia 
ento meu pai, mas qualquer coisa me apertava o estmago e me tirava toda a ateno alm daquela que prestava ao acusado. No ouvia quase nada, sentia que queriam 
matar aquele homem vivo, e um instinto formidvel como uma vaga me levava para seu lado com uma espcie de cega obstinao. S despertei, realmente, com o requisitrio 
de meu pai.
          "Transformado pela toga vermelha, nem bonacho nem afetuoso, sua boca fervilhava de frases imensas que, sem parar, saam dela como serpentes. E compreendi 
que ele pedia a morte daquele homem, em nome da sociedade, e que pedia at que lhe cortassem a cabea.  verdade que ele dizia apenas: 'Aquela cabea deve cair'. 
Mas, no fim, a diferena no era grande. E deu no mesmo, na verdade, j que obteve a cabea. Simplesmente, no foi ele que fez ento o trabalho. E eu, que acompanhei, 
em seguida, o caso at sua concluso, exclusivamente, tive com esse infeliz uma intimidade bem mais vertiginosa do que meu pai jamais teve. Este devia, contudo, 
segundo o costume, assistir quilo que se chamava delicadamente 'os ltimos momentos' e que  preciso classificar como 'o mais abjeto dos assassinatos'.
          "A partir desse dia, no consegui olhar para o Guia Chaix sem uma repugnncia abominvel, A partir desse dia, passei a interessar-me com horror pela justia, 
pelas condenaes  morte, pelas execues, verificando, com uma vertigem, que meu pai devia ter assistido vrias vezes a assassinatos, e que era justamente nesses 
dias que ele se levantava muito cedo. Na realidade, nesses casos, ele dava corda no despertador. No me atrevi a falar disso a minha me, mas observei-a melhor, 
ento, e compreendi que j no havia nada entre eles e que ela levava uma vida de renncia. Isso me ajudou a perdoar-lhe, como eu dizia ento. Mais tarde, soube 
que no havia nada a perdoar-lhe, pois ela havia sido pobre toda a sua vida at no casamento, e a pobreza ensinara-lhe a resignao.
          "Espera, sem dvida, que eu lhe diga que parti logo. No, fiquei vrios meses, quase um ano. Mas meu corao estava doente. Uma noite, meu pai pediu o 
despertador, pois tinha de levantar-se cedo. No dormi a noite toda. No dia seguinte, quando voltou, eu tinha partido. Digamos logo que meu pai me mandou procurar, 
que fui v-lo e que, sem lhe explicar nada, disse-lhe que me mataria se ele me forasse a voltar. Acabou aceitando, pois era cordato por temperamento, fez-me um 
discurso sobre a estupidez que havia em eu querer viver minha vida - era assim que ele explicava o meu gesto, e eu no o dissuadi -, deu-me mil conselhos e reprimiu 
as lgrimas sinceras que lhe vinham aos olhos. Mais tarde, embora bastante tempo depois, fui regularmente ver minha me e encontrei-o ento. Creio que essas relaes 
lhe bastaram. Quanto a mim, no tinha animosidade contra ele, apenas um pouco de tristeza no corao. Quando morreu, minha me veio viver comigo, onde ainda estaria, 
se, por sua vez, no tivesse morrido tambm.
          "Insisti longamente nesse princpio, porque foi realmente o princpio de tudo. Agora, irei mais depressa. Conheci a pobreza aos dezoito anos, ao cair da 
abastana. Exerci mil profisses para ganhar a vida. E no me dei muito mal. Mas o que me interessava era a condenao  morte. Queria ajustar umas contas com a 
coruja ruiva. Por isso, meti-me na poltica, como se diz. No queria ser atacado pela peste. Eis tudo. Acreditei que a sociedade em que eu vivia repousava na condenao 
 morte e que, ao combat-la, cornbateria o assassinato. Acreditei nisso, outros me disseram e, para terminar, em grande parte era verdade. Coloquei-me, pois, com 
aqueles que amava e que no deixei de amar. Fiquei com eles durante muito tempo, e no h pas da Europa de cujas lutas eu no tenha compartilhado. Passemos adiante.
          " claro, eu sabia que tambm ns pronuncivamos, ocasionalmente, condenaes. Mas diziam-me que essas poucas mortes eram necessrias para construir um 
mundo em que no se mataria ningum. Era verdade, de certo modo, e, afinal, talvez eu no seja capaz de me manter nesse gnero de verdades. O certo  que eu hesitava. 
Mas pensava na coruja, e a coisa continuava. At o dia em que vi uma execuo (foi na Hungria), e a mesma vertigem que atacara a criana que eu era obscureceu meus 
olhos de homem.
          "Nunca viu um homem ser fuzilado? No, com certeza, isso se faz, em geral, a convite, e o pblico  escolhido antecipadamente. O resultado  o que o senhor 
conhece apenas pelas gravuras e pelos livros. Uma venda, um barrote e, longe, alguns soldados. Pois bem, no  nada disso. Sabe que o peloto se coloca a um metro 
e meio do condenado? Sabe que, se o condenado desse dois passos  frente, bateria com o peito nas espingardas? Sabe que, a essa curta distncia, os executores concentram 
todos os tiros na regio do corao e que, entre todos, com suas grandes balas, fazem um buraco onde se poderia meter o punho? No, no sabe, pois so pormenores 
de que no se fala. O sono dos homens  mais sagrado que a vida dos empestados. No se deve impedir as pessoas decentes de dormir. Seria mau gosto, e o gosto consiste 
em no insistir, todos sabem disso. Mas eu, por mim, no dormi bem desde aquela poca. O gosto ruim me ficou na boca e desde ento no deixei de insistir, quer dizer, 
de pensar.
          "Compreendi assim que eu, pelos menos, no tinha deixado de ser um empestado durante todos esses longos anos em que, no entanto, com toda a minha alma, 
eu julgava lutar contra a peste. Descobri que tinha contribudo indiretamente para a morte de milhares de homens, que tinha at provocado essa morte, achando bons 
os princpios e as aes que a tinham fatalmente acarretado. Os outros no pareciam perturbados por isso, ou, pelo menos, nunca falavam disso espontaneamente. Mas 
eu tinha um n na garganta. Estava com eles e, contudo, estava s. Quando me acontecia exprimir meus escrpulos, diziam-me que era preciso refletir no que estava 
em jogo e davam-me razes muitas vezes impressionantes para me fazer engolir o que eu no conseguia deglutir. Mas eu respondia que os grandes empestados, os que 
vestem togas vermelhas, dispem tambm de excelentes razes nesses casos e que, se eu admitisse as razes de fora maior e as necessidades invocadas pelos pequenos 
empestados, no poderia rejeitar as dos grandes. Eles faziam-me notar que a maneira correta de dar razo s togas vermelhas era deixar-lhes a exclusividade da condenao. 
Mas eu me dizia, ento, que, se cedesse uma vez, no havia razo para parar. Parece-me que a histria me deu razo: hoje cada qual mata o mais que pode. Esto todos 
no furor do crime e no podem proceder de outra maneira.
          "Meu negcio, em todo caso, no era o raciocnio. Era a coruja ruiva, essa suja aventura em que bocas sujas e empestadas anunciavam a um homem acorrentado 
que ia morrer e preparavam tudo para que ele morresse, na verdade, aps noites e noites de agonia, durante as quais ele esperava de olhos abertos ser assassinado. 
Meu negcio era o buraco no peito. E dizia a mim mesmo, entretanto, que, pelo menos de minha parte, recusaria sempre dar uma razo, uma nica - compreende? - para 
essa repugnante carnificina. Sim, escolhi essa cegueira obstinada, enquanto esperava poder ver mais claro.
          "Desde ento, no mudei. H muito tempo que tenho vergonha, uma vergonha mortal, de ter sido, ainda que de longe, ainda que na boa vontade, por minha vez, 
um assassino. com o tempo, compreendi apenas que at os que eram melhores que outros no conseguiam impedir-se, hoje, de matar ou de deixar matar, porque estava 
na lgica em que viviam e que no se podia fazer um gesto neste mundo sem se correr o risco de fazer morrer. Sim, continuei a ter vergonha, aprendi isso - que estvamos 
todos na peste -, e perdi a paz. Ainda hoje a procuro, tentando compreend-los a todos e no ser o inimigo mortal de ningum. Sei apenas que  preciso fazer o necessrio 
para deixar de ser um empestado e que s isso nos permite esperar a paz, ou, na sua falta, uma boa morte.  isso que pode aliviar os homens e, se no os salvar, 
pelo menos, fazer-lhes o menos mal possvel e at, s vezes, um pouco de bem. E foi por isso que decidi recusar tudo o que, de perto ou de longe, por boas ou ms 
razes, faz morrer ou justifica que se faa morrer.
          " ainda por isso que esta epidemia no me ensina nada, seno que  preciso combat-la ao seu lado. Sei, de cincia certa (sim, Rieux, sei tudo da vida, 
como v), que cada um traz em si a peste, porque ningum, no, ningum no mundo est isento dela. Sei ainda que  preciso vigiar-se sem descanso para no ser levado, 
num minuto de distrao, a respirar na cara de outro e transmitir-lhe a infeco. O que  natural  o micrbio. O resto - a sade, a integridade, a pureza, se quiser 
-  um efeito da vontade, de uma vontade que no deve jamais se deter. O homem direi | to, aquele que no infecta quase ningum,  aquele que tem o menor nmero 
de distraes possvel. E como  preciso ter vontade e tenso para nunca se ficar distrado! Sim, Rieux,  bem cansativo ser um empestado. Mas  ainda mais cansativo 
no querer s-lo.  por isso que todos parecem cansados, j que todos, hoje em dia, se acham um pouco empestados. Mas  por isso que alguns que querem deixar de 
s-lo conhecem um extremo de cansao de que j nada os libertar, a no ser a morte.
          "At l, sei que j no valho mais nada para este mundo e que, a partir do momento em que renunciei a matar, me i condenei a um exlio definitivo. So 
os outros que faro a histria. Sei, tambm, que no posso, aparentemente, julgar esses outros. Falta-me uma qualidade para ser um assassino razovel. No , pois, 
uma superioridade. Agora, porm, consinto em ser o que sou - aprendi a ser modesto. Digo apenas que h neste mundo flagelos e vtimas e que  necessrio, tanto quanto 
possvel, recusarmo-nos a estar com o flagelo. Isso lhe parecer talvez um pouco simples. No sei se  simples, mas sei que  verdadeiro. Ouvi tantos raciocnios 
que por pouco no me fizeram perder a cabea, mas que viraram bastante outras cabeas para faz-las consentir no assassinato, que compreendi que toda a desgraa 
dos homens provinha de eles no terem uma linguagem clara. Decidi ento falar e agir claramente, para me colocar no bom caminho. Por isso, digo que h flagelos e 
vtimas, e nada mais. Se, ao dizer isso, me torno eu prprio um flagelo, no  por minha vontade. Procuro ser um assassino inocente. Como v, no  uma grande ambio.
          "Seria necessrio, sem dvida, que houvesse uma terceira categoria, a dos verdadeiros mdicos, mas  um fato que no se encontram muitos e que isso deve 
ser difcil. Foi assim que decidi pr-me do lado das vtimas, em todas as ocasies, para limitar os prejuzos. No meio delas, posso, ao menos, procurar como se chega 
 terceira categoria, isto , a paz.
          Ao terminar, Tarrou balanava a perna e batia levemente com o p no terrao. Depois de um silncio, o mdico soergueu-se um pouco e perguntou-lhe se tinha 
alguma ideia sobre o caminho que era preciso seguir para se chegar  paz.
          - Tenho. A simpatia.
          Duas sirenes de ambulncia ressoaram ao longe. As exclamaes, ainda agora confusas, juntaram-se nos confins da cidade, perto da colina pedregosa. Ouviu-se, 
ao mesmo tempo, qualquer coisa que se assemelhava a uma detonao. Depois o silncio voltou. Rieux contou duas piscadelas do farol. A brisa pareceu ganhar mais fora 
e, ao mesmo tempo, um sopro do mar trouxe cheiro de sal. Ouvia-se agora, nitidamente, a surda respirao das vagas contra a falsia.
          - Em resumo - disse Tarrou com simplicidade -, o que me interessa  saber como algum pode tornar-se santo.
          - Mas voc no acredita em Deus.
          - Justamente. Poder ser santo sem Deus  o nico problema concreto que tenho hoje.
          Bruscamente, um grande claro irrompeu do lado dos gritos e, subindo a corrente do vento, um clamor obscuro chegou at os dois homens. O claro apagou-se 
imediatamente e, longe,  beira dos terraos, ficou apenas uma mancha vermelha. Numa pausa do vento, ouviram-se claramente gritos de homens, depois o barulho de 
uma descarga e o clamor de uma multido. Tarrou levantara-se e escutava. No se ouvia mais nada.
          - Houve briga de novo nas portas.
          - Agora acabou - disse Rieux.
          Tarrou murmurou que nunca acabava, e que haveria mais vtimas, pois essa era a ordem natural.
          - Talvez - respondeu o mdico -, mas, sabe, sinto-me mais solidrio com os vencidos do que com os santos. Creio que no sinto atrao pelo herosmo e pela 
santidade. O que me interessa  ser um homem.
          - Sim, buscamos a mesma coisa, mas eu sou menos ambicioso.
          Rieux pensou que Tarrou gracejava e olhou para ele. Mas, na vaga claridade que vinha do cu, viu um rosto triste e srio. O vento levantara-se de novo, 
e Rieux sentia-o morno sobre a pele. Tarrou agitou-se.
          - Sabe o que devamos fazer em prol da amizade?
          - O que quiser - respondeu Rieux.
          - Tomar um banho de mar. Mesmo para um futuro santo,  um prazer digno.
          Rieux sorria.
          - Com nossos salvo-condutos, podemos ir at o cais. Afinal,  bobagem viver s na peste. Na realidade, um homem deve lutar pelas vtimas. Mas, se deixa 
de gostar de todo o resto, de que serve lutar?
          - Tem razo - disse Rieux. - Vamos.
          Momentos depois, o automvel parava junto s grades do porto. A lua nascera. Um cu leitoso projetava sombras plidas. Por trs deles, estendia-se a cidade, 
e dela vinha um sopro quente e mrbido, que os impelia para o mar. Mostraram os papis a um guarda, que os examinou durante bastante tempo. Passaram e, atravs dos 
terraplenos cobertos de tonis, entre os cheiros de vinho e de peixe, tomarain. a direo do cais. Pouco antes de chegarem, o cheiro de iodo e de algas anunciou-lhes 
o mar. Depois ouviram-no.
          Assobiava suavemente aos ps dos grandes blocos do cais e, quando os transpuseram, ele apareceu-lhes, espesso como veludo, flexvel e macio como um animal. 
Instalaram-se nos rochedos voltados para o largo. Lentas, as guas inchavam e desciam. Essa respirao calma do mar fazia nascer e desaparecer reflexos oleosos na 
superfcie das guas. Diante deles, a noite que no tinha limites. Rieux, que sentia sob os dedos o rosto gasto dos rochedos, experimentava uma estranha felicidade. 
Voltado para Tarrou, adivinhou, sob o rosto calmo e grave do amigo, essa mesma felicidade que nada esquecia, nem mesmo o assassinato.
          Despiram-se. Rieux mergulhou primeiro. Frias no comeo, as guas pareceram-lhe mornas quando voltou  tona. Ao fim de algumas braadas, sabia que o mar, 
nessa noite, estava morno: eram os mares do outono que retomavam da terra o calor armazenado durante longos meses. Nadava regularmente. As batidas dos ps deixavam 
atrs dele uma efervescncia de espuma, a gua fugia ao longo de seus braos para colar-se s pernas. Um baque surdo indicou-lhe que Tarrou mergulhara. Rieux, de 
costas, ficou imvel diante do cu cheio de luar e de estrelas. Respirou longamente. Depois, ouviu com uma nitidez cada vez maior um barulho de gua batida, estranhamente 
claro no silncio e na solido da noite. Tarrou aproximava-se, em breve ouvia-se a sua respirao. Rieux voltou-se, colocou-se ao lado do amigo e nadou no mesmo 
ritmo. Tarrou avanava com mais fora e ele teve de acelerar os movimentos. Durante alguns minutos, avanaram com a mesma cadncia e o mesmo vigor, solitrios, longe 
do mundo, libertados, enfim, da cidade e da peste. Rieux foi o primeiro a parar e voltaram lentamente, a no ser num momento em que entraram numa corrente gelada. 
Sem nada dizer, ambos aceleraram os movimentos, fustigados por essa surpresa do mar.
          Novamente vestidos, partiram, sem ter pronunciado uma palavra. Mas entendiam-se, era suave a lembrana dessa noite. Quando viram de longe a sentinela da 
peste, Rieux sabia que Tarrou dizia para si prprio, como ele, que a doena acabava de esquec-los, que isso era bom, e que agora era preciso recomear.
          Sim, era preciso recomear, e a peste no esquecia ningum por muito tempo. Durante o ms de dezembro, ela ardeu nos peitos de nossos concidados, iluminou 
o forno, povoou os campos de sombras com as mos vazias, no deixou, enfim, de progredir, paciente e sincopada. As autoridades tinham contado com os dias frios para 
deter esse avano e, contudo, ele passava atravs dos primeiros rigores da estao sem desanimar. Era preciso esperar ainda. Mas de tanto esperar, ningum mais espera 
- e nossa cidade inteira vivia sem futuro.
          Quanto a Rieux, o instante fugidio de paz e de amizade que lhe haviam dado no teve continuidade. Tinham aberto mais um hospital, e o mdico s conversava 
com os doentes. Notou entretanto que, nessa fase da epidemia, enquanto a peste assumia, cada vez mais, a forma pulmonar, os doentes pareciam, de certo modo, ajudar 
o mdico. Em lugar de se abandonarem  prostrao e s loucuras do incio, pareciam ter uma ideia mais correta de seus interesses e reclamavam por si mesmos o que 
lhes podia ser mais favorvel. Pediam incessantemente para beber e todos queriam calor. Embora o cansao fosse o mesmo para o mdico, ele se sentia, no entanto, 
menos s nessas ocasies.
          Por volta do fim de dezembro, Rieux recebeu do Sr. Othon, o juiz de instruo, que se encontrava ainda no campo de isolamento, uma carta dizendo que seu 
tempo de quarentena tinha passado, que a administrao no encontrava a data de sua entrada e que, certamente, o mantinham ainda isolado por engano. Sua mulher, 
que j sara h algum tempo, protestara na prefeitura, onde tinha sido mal recebida e onde lhe tinham dito que nunca havia enganos. Rieux fez Rambert intervir e, 
alguns dias depois, viu chegar o Sr. Othon. Houvera, com efeito, um engano, e Rieux indignou-se um pouco por isso. Mas o Sr. Othon, que tinha emagrecido, levantou 
a mo mole e disse, medindo as palavras,  que todos podiam enganar-se. O mdico pensou apenas que alguma coisa mudara.
          - Que vai fazer, senhor juiz? Seus processos o esperam - disse Rieux.
          - No - respondeu ele -, queria tirar uma licena.
          - Na verdade, precisa de repouso.
          - No  isso, queria voltar para o campo de isolamento.
          Rieux admirou-se.
          - Mas acaba de sair de l!
          - No me expliquei bem. Disseram-me que havia voluntrios da administrao no campo. - O juiz rolava um pouco os olhos redondos e tentava abaixar um tufo 
de cabelos. - Sabe, teria uma ocupao. E, depois, parece bobagem diz-lo, mas eu me sentiria menos afastado de meu garoto.
          Rieux olhava para ele. No era possvel que naqueles olhos duros e vazios se instalasse subitamente uma suavidade. Mas eles tinham se tornado mais brumosos, 
tinham perdido a pureza de metal.
          - Certamente - disse. - vou tratar disso, j que assim o deseja.
          De fato, o mdico tratou do caso, e a vida da cidade empestada retomou seu ritmo at o Natal. Tarrou continuava a passear por toda parte sua tranqilidade 
eficiente. Rambert confiava ao mdico que tinha estabelecido, graas aos dois guardas seus conhecidos, uma espcie de correspondncia clandestina com a mulher. Recebia 
uma carta de tempos em tempos. Ofereceu a Rieux o benefcio do seu sistema e ele o aceitou. Escreveu, pela primeira vez desde h longos meses, mas com enorme dificuldade. 
Havia uma linguagem que ele perdera. A carta partiu. A resposta demorava a vir. Por seu lado, Cottard prosperava e suas pequenas especulaes o enriqueciam. Quanto 
a Grand, o perodo das festas no lhe devia ser favorvel.
          O Natal daquele ano foi mais a festa do Inferno que a do Evangelho. As lojas desertas e privadas de luz, os chocolates falsos ou as caixas vazias nas vitrines, 
os bondes carregados de rostos sombrios, nada lembrava os Natais passados. Nessa festa, em que toda gente, rica ou pobre, se juntava outrora, j no havia lugar 
seno para alguns prazeres solitrios e vergonhosos que os privilegiados se ofereciam a preo de ouro, no fundo de uma loja srdida. Mais que de aes de graas, 
as igrejas estavam cheias de lamentos.
          Na cidade, lgubre e gelada, algumas crianas corriam, ignorantes ainda do que as ameaava. Mas ningum ousava anunciar-lhes o Deus de outrora, carregado 
de oferendas, velho como o sofrimento humano, mas novo como a jovem esperana. S havia lugar no corao de todos para uma esperana muito velha e muito taciturna, 
a mesma que impede os homens de se entregarem  morte e que no  mais que simples obstinao em viver.
          Na vspera, Grand tinha faltado ao encontro. Rieux, inquieto, passara em sua casa de manh cedo, sem encontr-lo. Todos haviam sido alertados. Por volta 
de onze horas, Rambert foi ao hospital dizer ao mdico que tinha avistado Grand de longe, vagando pelas ruas, com o rosto desfigurado. Depois, perdera-o de vista. 
O mdico e Tarrou partiram de automvel  sua procura.
          Ao meio-dia, hora gelada, o mdico, que sara do carro, olhava de longe Grand, quase colado a uma vitrine cheia de brinquedos grosseiramente esculpidos 
em madeira. Pelo rosto do velho funcionrio as lgrimas corriam sem interrupo. E essas lgrimas perturbaram Rieux, porque as compreendia e as sentia tambm na 
garganta apertada. Ele se lembrava do noivado de um infeliz diante de uma loja de Natal, e de Jeanne voltada para ele para lhe dizer que estava contente. Do fundo 
desses anos longnquos, no prprio corao dessa loucura, a voz fresca de Jeanne voltava at Grand, disso tinha certeza. Rieux sabia o que pensava nesse minuto aquele 
velho que chorava e achava, como ele, que este mundo sem amor era como um mundo morto e que chega sempre uma hora em que nos cansamos das prises, do trabalho e 
da coragem, para reclamar o rosto de um ser e o corao maravilhoso da ternura.
          Mas o outro viu-o pelo vidro. Sem deixar de chorar, voltou-se e encostou-se  vitrine, para v-lo chegar.
          - Ah, doutor! Ah, doutor! - dizia.
          Rieux balanava a cabea para mostrar aprovao, incapaz de pronunciar uma palavra. Essa tristeza era tambm sua, e o aperto que sentia no corao nesse 
momento era a imensa clera que surge no homem diante da dor que todos os homens compartilham.
          - Sim, Grand - disse.
          - Gostaria de ter tempo para lhe escrever uma carta. Para que ela saiba. . . e para que possa ser feliz sem remorsos...
          Com uma espcie de violncia, Rieux fez Grand avanar.
          O outro, quase se deixando arrastar, continuava a balbuciar pedaos de frases.
          - Isso est durando demais. A gente tem vontade de se entregar. Ah, doutor! Eu tenho assim este ar calmo. Mas sempre precisei fazer um grande esforo para 
ser apenas normal. Mas agora at isso  demais.
          Parou, com as pernas e os braos tremendo e com os olhos desvairados. Rieux pegou-lhe a mo. Estava ardendo.
          -  preciso voltar para casa.
          Mas Grand fugiu dele e correu alguns passos, depois parou, abriu os braos e ps-se a oscilar para a frente e para trs. Deu uma volta sobre si mesmo e 
caiu na calada glida, com o rosto molhado das lgrimas, que continuavam a correr. Os transeuntes olhavam de longe, paravam bruscamente, sem ousar prosseguir. Foi 
necessrio que Rieux carregasse o velho nos braos.
          Agora, na cama, Grand sufocava: tinha os pulmes tomados. Rieux refletia. O funcionrio municipal no tinha famlia. Para que serviria lev-lo? Ficaria 
s, com Tarrou, que trataria dele.. .
          Grand estava enterrado no fundo de seu travesseiro, com a pele esverdeada e o olhar apagado. Olhava fixamente para um fogo medocre que Rieux acendia na 
lareira com os restos de um caixote. Isso vai mal, dizia ele. E, do fundo de seus pulmes em chamas, saa um crepitar estranho que acompanhava tudo o que dizia. 
Rieux recomendou-lhe que se calasse e disse que ia voltar. O doente esboou um sorriso estranho e, com ele, veio-lhe ao rosto uma espcie de ternura. Piscou o olho 
com esforo. "Se escapar dessa, vai ser de tirar o chapu, doutor!" Mas logo a seguir caiu na prostrao.
          Algumas horas depois Rieux e Tarrou foram encontrar o doente meio erguido no leito, e Rieux ficou aterrado ao ler no seu rosto os progressos do mal que 
o queimava. Mas parecia mais lcido, e de repente, com uma voz estranhamente cavernosa, pediu que lhe trouxessem o manuscrito, que guardara numa gaveta. Tarrou deu-lhe 
as folhas, que ele estreitou contra o peito, sem olh-las, para, em seguida, estend-las ao mdico, convidando-o com um gesto a ler. Era um manuscrito curto de umas 
cinquenta pginas. O mdico folheou-o e compreendeu que todas as pginas traziam apenas a mesma frase, indefinidamente copiada, retocada, enriquecida ou empobrecida. 
Incessantemente, o ms de maio, a amazona e as alias do bosque confrontavam-se e dispunham-se - de maneiras diversas. A obra continha tambm explicaes, por vezes 
demasiado longas, e variantes. Mas no fim da ltima pgina, uma mo aplicada tinha apenas escrito com uma tinta ainda fresca: "Minha querida Jeanne, hoje  Natal..." 
Por cima, numa caligrafia cuidada, figurava a ltima verso da frase.
          - Leia - disse Grand. E Rieux leu:
          - "Numa bela manh de maio, uma esbelta amazona, montada numa suntuosa gua alaz, percorria, no meio das flores, as alias do Bois..."
          -  isso? - perguntou o velho numa voz febril. Rieux no levantou os olhos para ele.
          - Ah! - disse o outro, agitando-se. - Bem sei. Bela, bela no  o termo certo.
          Rieux pegou-lhe a mo por cima do cobertor.
          - Deixe, doutor. No terei tempo. . .
          O peito levantava penosamente, e ele gritou de repente:
          - Queime-o!
          O mdico hesitou, mas Grand repetiu a ordem com um tom to terrvel e com tal sofrimento na voz, que Rieux atirou as folhas para o fogo quase apagado. 
O quarto iluminou-se rapidamente, e um calor breve o aqueceu. Quando o mdico voltou para junto do doente, este tinha as costas voltadas e quase tocava a parede 
com o rosto. Tarrou olhava pela janela, como estranho  cena. Depois de ter injetado o soro, Rieux disse ao amigo que Grand no passaria daquela noite, e Tarrou 
ofereceu-se para ficar. O mdico aceitou.
          Toda a noite, a ideia de que Grand ia morrer o perseguiu. Mas, no dia seguinte de manh, Rieux encontrou Grand sentado na cama, falando com Tarrou. A febre 
desaparecera. Restavam apenas os sinais de um esgotamento geral.
          - Ah, doutor - dizia Grand. - Fiz mal. Mas vou recomear. Lembro-me de tudo, vai ver.
          - Esperemos - disse Rieux a Tarrou.
          Mas ao meio-dia, nada mudara.  noite, Grand podia considerar-se salvo. Rieux no compreendia nada daquela ressurreio.
          Mais ou menos pela mesma poca, contudo, levaram a Rieux uma doente, cujo estado julgou desesperador e que mandou isolar logo que chegou ao hospital. A 
moa estava em pleno delrio e apresentava todos os sintomas da forma pulmonar da peste. Mas, no dia seguinte de manh, a febre baixara. O mdico achou que se tratava 
ainda, como no caso de Grand, da remisso matinal, que a experincia o habituara a considerar como um mau sinal. Ao meio-dia, contudo, a febre no tinha subido. 
 noite, aumentou alguns dcimos apenas, e, no dia seguinte pela manh, tinha desaparecido. A moa, embora fraca, respirava livremente no leito. Rieux disse a Tarrou 
que ela se salvara, contra todas as regras. Mas, durante a semana, quatro casos semelhantes se apresentaram no servio do mdico.
          No fim da mesma semana, o velho asmtico acolheu o mdico e Tarrou com todos os sinais de uma grande agitao.
          - Pronto - dizia ele -, continuam a sair.
          - Quem?
          - Ora, os ratos!
          Desde o ms de abril no se tinha descoberto nenhum rato morto.
          - Ser que vai recomear? - perguntou Tarrou a Rieux.
          O velho esfregava as mos.
          - Precisa v-los correr!  um prazer.
          Tinha visto dois ratos vivos entrarem em sua casa pela porta da rua. Alguns vizinhos tinham relatado que, tambm em casa deles, os ratos haviam feito sua 
reapario. Nas madeiras dos forros, ouvia-se de novo o rebulio esquecido h meses. Rieux esperou a publicao da estatstica geral que ocorria no princpio de 
cada semana. Revelava um recuo da doena.
         
       
       
       V
          
          Embota essa brusca retirada da doena fosse inesperada, nossos concidados no se apressaram em regozijar-se.
          O ms que acabavam de passar, ainda que aumentasse o desejo de libertao, ensinara-lhes a prudncia e os habituara a contar cada vez menos com um fim 
prximo da epidemia. No entanto, esse fato novo corria de boca em boca, e no fundo dos coraes, agitava-se uma grande esperana inconfessada. Todo o resto passava 
para segundo plano. As novas vtimas da peste pesavam bem pouco junto a esse fato enorme: a estatstica tinha baixado. Um dos sinais de que o tempo de sade, sem 
ser abertamente esperado, era no entanto aguardado em segredo foi nossos concidados falarem espontaneamente, a partir desse momento, embora com ares de indiferena, 
da maneira pela qual a vida se reorganizaria depois da peste.
          Todos estavam de acordo em pensar que as comodidades da vida passada no voltariam de repente e que era mais fcil destruir que reconstruir. Considerava-se, 
apenas, que o reabastecimento podia ser um pouco melhorado e que, desse modo, se ficaria livre da preocupao mais premente. Na verdade, porm, sob essas observaes 
andinas, ao mesmo tempo uma esperana insensata se desenfreava a tal ponto que nossos concidados s vezes tomavam conscincia disso e afirmavam ento com precipitao 
que, em todo caso, a libertao no era para o dia seguinte.
          E, na realidade, a peste no parou no dia seguinte, mas, aparentemente, enfraquecia mais depressa do que se teria podido razoavelmente esperar. Durante 
os primeiros dias de janeiro, o frio instalou-se com uma persistncia inusitada e pareceu cristalizar-se por cima da cidade. E, contudo, nunca o cu tinha estado 
to azul. Durante dias inteiros seu esplendor imutvel e gelado inundou nossa cidade de uma luz ininterrupta. Nesse ar purificado, a peste, em trs semanas, e em 
quedas sucessivas, pareceu esgotar-se nos cadveres cada vez menos numerosos que alinhava. Perdeu, num cur-l to intervalo, quase a totalidade das foras que levara 
meses I para acumular. Ao v-la liberar presas j marcadas, como I Grand ou a moa de Rieux, exacerbar-se em certos bairros! durante dois ou trs dias, enquanto 
desaparecia totalmente l de outros, multiplicar as vtimas na segunda-feira e, na quar-| ta, deix-las escapar quase todas, ao v-la assim esbaforir-sel ou precipitar-se, 
dir-se-ia que ela se desorganizava por ener-1 vamento e cansao, que perdia, ao mesmo tempo, o domniol sobre si prpria e a eficcia matemtica e soberana que cons-l 
titura sua fora. O soro de Gastei conhecia subitamente uma| srie de xitos que lhe haviam sido recusados at ento. Cada medida tomada pelos mdicos e que anteriormente 
no dava nenhum resultado parecia, de repente, acertar em cheio. Parecia que a peste, por sua vez, estava acuada, e que sua fraqueza sbita fazia a fora das armas 
embotadas que lhe tinham, at ento, oposto. Apenas uma vez ou outra j a doena se animava e, numa espcie de sobressalto cego J levava trs ou quatro doentes, cuja 
cura era esperada. Eram! os azarentos da peste, aqueles que ela matava em plena es-1 perana. Foi o caso do juiz Othon, que tiveram de evacuar! do campo de quarentena 
e Tarrou disse, a seu respeito, que, na verdade, no tinha tido sorte, sem que se pudesse saber se ele pensava na morte ou na vida do juiz.
          No conjunto, porm, a infeco recuava em toda a linha, e os comunicados da prefeitura que, primeiro, tinham feito nascer uma tmida e secreta esperana, 
acabaram confirmando, no esprito do pblico, a convico de que a vitria estava ganha e que a doena abandonava suas posies. Na verdade, era difcil decidir 
que se tratava de uma vitria. Era-se apenas obrigado a verificar que a doena partia como viera. A estratgia que se lhe opunha no tinha mudado, ineficaz ontem, 
hoje, aparentemente feliz. Tinha-se apenas a impresso de que a doena se esgotara por si prpria ou, talvez, de que se retirava depois de ter alcanado todos os 
seus objetivos. De qualquer maneira, seu papel acabara.
          Dir-se-ia, apesar de tudo, que nada mudara na cidade. Sempre silenciosas durante o dia, as ruas eram invadidas  noite pela mesma multido, em que dominavam 
apenas os sobretudos e as echarpes. Os cinemas e os cafs faziam os mesmos negcios. Olhando-se, porm, mais de perto, podia-se ver que os rostos estavam mais distendidos 
e que, s vezes, sorriam. E era ento a oportunidade de verificar que, at o momento, ningum sorria nas ruas. Na realidade, no vu opaco que h meses cercava a 
cidade, acabava de abrirse um rasgo, e, s segundas-eiras, todos podiam verificar, pelas notcias de rdio, que o rasgo aumentava e, enfim, seria permitido respirar. 
Era ainda um alvio inteiramente negativo   que no assumia uma expresso franca. Mas, ao passo que anteriormente no se teria descoberto, sem uma certa incredulidade, 
que um trem tinha partido ou que um navio tinha chegado, ou ainda, que os automveis iam ser de novo autorizados a circular, o anncio desses acontecimentos nos 
meados de janeiro no teria provocado, pelo contrrio, nenhuma surpresa. Era pouco, sem dvida. Mas essa sutil mudana traduzia, na verdade, os enormes progressos 
realizados por nossos concidados no caminho da esperana. Pode-se dizer, alis, que a partir do momento em que a mais nfima esperana se tornou possvel para a 
populao o reinado efetivo da peste tinha terminado.
          - Nem por isso, durante todo o ms de janeiro, nossos concidados reagiram de maneira menos contraditria. Mais exatamente, passaram por alternncias de 
excitao e de depresso. Foi assim que se registraram novas tentativas de fuga, no justo momento em que as estatsticas eram mais favorveis. Isso surpreendeu muito 
as autoridades e os prprios postos de guarda, visto que a maior parte das fugas teve xito. Mas, na realidade, as pessoas que se evadiam nesses momentos obedeciam 
a sentimentos naturais. Em alguns, a peste tinha enraizado um ceticismo profundo de que no podiam se liberar. A esperana j no tinha efeito sobre eles. Mesmo 
quando o tempo da peste j passara, continuavam a viver segundo suas normas. Estavam atrasados em relao aos acontecimentos. Em outros, pelo contrrio, e esses 
se recrutavam especialmente entre os que tinham vivido at ento separados dos seres que amavam, depois desse longo tempo de clausura e de abatimento, o vento de 
esperana que se levantava acendera uma febre e uma impacincia que lhes tirava qualquer autodomnio. Invadia-os uma espcie de pnico ao pensamento de que podiam, 
to perto do fim, morrer talvez, que no voltariam a ver o ser que amavam e que esses longos sofrimentos no lhes seriam pagos. Enquanto durante meses, com obscura 
tenacidade, apesar da priso e do exlio, tinham perseverado na expectativa, a primeira esperana bastou para destruir o que o medo e o desespero no tinham conseguido 
abalar. Precipitaram-se como loucos para ultrapassar a peste, incapazes de acompanhar-lhe o passo at o ltimo momento.
          Ao mesmo tempo alis manifestaram-se sinais espontneos de otimismo. Foi assim que se registrou uma reduo sensvel dos preos. Do ponto de vista da economia 
pura, esse movimento no se explicava. As dificuldades continuavam as mesmas, as formalidades da quarentena tinham sido mantidas nas portas e o abastecimento estava 
longe de ter melhorado. Assistia-se, portanto, a um rendimento puramente moral, como se o recuo da peste repercutisse por toda parte. Ao mesmo tempo, o otimismo 
dominava aqueles que viviam antes em grupos e que a peste tinha obrigado  separao. Os dois conventos da cidade comearam a reconstituir-se e a vida comum pde 
recomear. O mesmo aconteceu com os militares que se juntaram de novo nos quartis livres e retomaram a vida normal da guarnio. Esses pequenos fatos eram grandes 
indcios.
          A populao viveu nessa agitao secreta at 25 de janeiro. Naquela semana, as estatsticas baixaram tanto que, aps consulta  comisso mdica, a prefeitura 
anunciou que a epidemia podia ser considerada erradicada. O comunicado acrescentava,  bem verdade, que, por esprito de prudncia que no podia deixar de ser aprovado 
pela populao, as portas da cidade continuariam fechadas durante mais duas semanas e as medidas profilticas seriam mantidas por mais um ms. Durante esse perodo, 
ao menor sinal de que o perigo podia recomear, "o status quo devia ser mantido e as medidas, prolongadas". Todos no entanto concordaram em considerar esses aditamentos 
como clusulas de estilo, e na noite de 25 de janeiro uma alegre agitao encheu a cidade. Para se associar  alegria geral, o prefeito deu ordem para que fosse 
restabelecida a iluminao do tempo de sade. Nas ruas iluminadas, sob um cu frio e puro, nossos concidados espalharam-se ento em grupos risonhos e barulhentos.
          Naturalmente, em muitas casas as persianas continuaram fechadas e famlias passaram em silncio essa viglia que outros encheram de gritos. No entanto, 
para muitos desses seres enlutados, o alvio era tambm profundo, quer pelo fato de que o medo de ver arrebatados outros parentes se acalmasse enfim, quer porque 
o sentimento de sua conservao pessoal deixasse de ficar em alerta. Mas as famlias que deviam ficar mais estranhas  alegria geral foram, sem dvida, as que nesse 
mesmo momento tinham um doente se debatendo contra a peste num hospital e que, nas casas de quarentena ou em suas prprias casas, esperavam que o flagelo acabasse 
verdadeiramente com eles, como tinha acabado com outros. Essas concebiam,  claro, a esperana, mas faziam dela uma proviso que guardavam de reserva e proibiam-se 
de se servir dela antes de terem realmente esse direito. E essa expectativa, essa viglia silenciosa, situada entre a agonia e o jbilo, parecia-lhes ainda mais 
cruel, em meio ao regozijo geral.
          Mas essas excees nada tiravam  satisfao dos outros. Sem dvida, a peste no tinha ainda acabado e viria a prov-lo. No entanto, j em todos os espritos, 
com algumas semanas de antecedncia, os trens partiam, apitando sobre as interminveis vias frreas, e os navios sulcavam os mares luminosos. No dia seguinte, os 
espritos estariam mais calmos e as dvidas renasceriam. No momento, porm, a cidade inteira animava-se, abandonava os lugares fechados, sombrios e imveis onde 
atirara suas razes de pedra e punha-se, enfim, em marcha com sua carga de sobreviventes. Nessa noite, Tarrou e Rieux, Rambert e os outros caminhavam no meio da 
multido e tambm eles sentiam faltar-lhes o cho debaixo dos ps. Muito tempo depois de terem sado das avenidas, Tarrou e Rieux ainda ouviam a alegria persegui-los, 
na prpria hora em que, nas ruelas desertas, passavam por janelas de persianas corridas. E at por causa de seu cansao, no podiam separar esse sofrimento, que 
se prolongava por detrs das janelas, da alegria que enchia as ruas um pouco adiante. A libertao que se aproximava tinha um semblante mesclado de risos e de lgrimas.
          Num momento em que o rumor se tornou mais forte e mais alegre, Tarrou parou. Na rua sombria, uma forma corria clere. Era um gato, o primeiro que se via 
desde a primavera. Imobilizou-se um momento no meio do asfalto, hesitou, lambeu a pata, passou-a rapidamente sobre a orelha direita, retomou a corrida silenciosa 
e desapareceu na noite. Tarrou sorriu. O velhinho tambm ficaria contente.
          Mas no momento em que a peste parecia afastar-se para voltar ao covil desconhecido de onde sara em silncio, havia pelo menos algum na cidade que essa 
partida lanava na consternao. A acreditar nos cadernos de Tarrou, esse algum era Cottard.
          A bem dizer, os cadernos tornam-se bastante estranhos a partir do momento em que a estatstica comea a baixar. Talvez pelo cansao, mas o certo  que 
a letra se torna dificilmente legvel e passa-se com excessiva frequncia de um assunto para outro. Alm disso, e pela primeira vez, esses cadernos deixam de ser 
objetivos e do lugar a consideraes pessoais. Encontra-se, assim, no meio de longos trechos sobre o caso de Cottard, um pequeno relato sobre o velho dos gatos. 
A acreditar em Tarrou, a peste nunca diminura sua considerao por essa personagem, que lhe interessava depois da epidemia, como lhe havia interessado antes, e 
como, infelizmente, no poderia mais interessar-lhe, embora sua prpria benevolncia, dele, Tarrou, no estivesse em jogo. Porque ele tinha procurado r v-lo. Alguns 
dias depois da noite de 25 de janeiro, tinha ido postar-se na esquina da pequena rua. Os gatos estavam l, aquecendo-se nas rstias de sol, fiis ao antigo lugar 
de encontro. Mas, na hora habitual, as janelas continuaram teimosamente fechadas. No decurso dos dias seguintes, Tarrou nunca as viu abertas. Disso conclura, curiosamente, 
que o velho estava ofendido ou morto: que, se estava ofendido,  porque pensava ter razo, e que a peste lhe enganara; mas que, se tinha morrido, era preciso perguntar 
a seu respeito, como para o velho asmtico, se fora um santo. Tarrou no achava, mas pensava que havia no caso do velho uma "indicao".
          "Talvez", observavam seus cadernos, "no se possa atingir seno a aproximao da santidade. Nesse caso, seria necessrio contentarmo-nos com um satanismo 
modesto e caridoso."
          Sempre entremeadas com observaes relativas a Cottard, encontram-se tambm, nos cadernos, numerosas observaes muitas vezes dispersas, algumas das quais 
dizem respeito a Grand (agora convalescente e que tinha voltado ao trabalho como se nada tivesse acontecido) e outras evocam a me do Dr. Rieux. As poucas conversas 
que a coabitao autorizava entre esta e Tarrou, as atitudes da velha senhora, seu sorriso, suas observaes sobre a peste so escrupulosamente anotadas. Tarrou 
insistia sobretudo no retraimento da Sra. Rieux; na maneira que tinha de exprimir tudo em frases simples; no gosto particular que mostrava por certa janela que dava 
para a rua calma e atrs da qual ela se sentava  noite, um pouco reta, com as mos tranqilas e o olhar atento, at que o crepsculo invadisse a sala, fazendo dela 
uma sombra negra na luz cinzenta que avanava pouco a pouco e dissolvia, ento, a silhueta imvel; na ligeireza com que se deslocava de sala para sala; na bondade 
de que nunca dera provas precisas diante de Tarrou, mas cujo brilho ele julgava ver transparecer em tudo o que dizia ou fazia; no fato enfim de que, segundo ele, 
ela conhecia tudo sem nunca refletir, e que, com tanto silncio e sombra, conseguia ficar  altura de qualquer luz, at mesmo a da peste. Aqui, de resto, a letra 
de Tarrou mostrava estranhos sinais de abatimento. As linhas que se seguiam eram dificilmente legveis e, como para dar uma nova prova desse abatimento, as ltimas 
palavras eram as primeiras que tinham um carter pessoal: "Minha me era assim; eu apreciava nela a mesma reserva e foi a ela que sempre quis juntar-me. H oito 
anos, no posso dizer que ela tenha morrido. Apagou-se apenas um pouco mais que de costume e, quando me voltei, j no estava mais l".
          Mas  preciso voltar a Cottard. Desde que a estatstica baixara, fizera vrias visitas a Rieux, invocando diversos pretextos. Na realidade, porm, pedia 
sempre a Rieux prognsticos sobre a evoluo da epidemia. Acha que ela pode parar assim, de repente, sem aviso? Era ctico sobre esse ponto, ou, pelo menos, assim 
o declarava. Mas as perguntas repetidas que formulava pareciam revelar uma convico menos firme. Por volta de meados de janeiro, Rieux tinha respondido de forma 
bastante otimista. E, a cada vez, essas respostas, em vez de alegrarem Cottard, tinham-lhe provocado reaes variveis segundo os dias, mas que iam do mau humor 
ao abatimento. Seguidamente, o mdico tinha sido levado a dizer-lhe, a despeito das indicaes favorveis dadas pelas estatsticas, que era melhor no cantar vitria 
ainda.
          - Em outras palavras - observara Cottard -, nada se sabe, e a coisa pode recomear de um dia para o outro?
          - Sim, como tambm  possvel que o movimento de cura se acelere.
          Essa incerteza, inquietante para todos, aliviara visivelmente Cottard e, diante de Tarrou, ele travara com os comerciantes do seu bairro conversas em que 
tentava propagar a opinio de Rieux.  verdade que no tinha dificuldade em faz-lo, j que, depois da febre das primeiras vitrias, voltara a muitos espritos uma 
dvida que devia sobreviver  excitao causada pela declarao da prefeitura. Cottard tranqilizava-se com o espetculo dessa inquietao, do mesmo modo que de 
outras vezes tambm desanimava. "Sim", dizia ele a Tarrou, "vo acabar abrindo as portas. E, vai ver, todos vo me abandonar!"
          At 25 de janeiro, todos notaram a instabilidade de seu carter. Durante dias inteiros, depois de ter procurado tanto tempo conciliar-se com seu bairro 
e conhecidos, rompia com eles. Aparentemente pelo menos, retirava-se ento do mundo e, de um dia para o outro, punha-se a viver como selvagem. No o viam no restaurante, 
nem no teatro, nem nos cafs de que gostava. E, no entanto, no parecia voltar  vida comedida e obscura que levava antes da epidemia. Vivia completamente retirado 
em seu apartamento e mandava vir as refeies de um restaurante vizinho. S ao fim da tarde dava sadas furtivas, comprando aquilo de que necessitava, saindo das 
lojas para se lanar em ruas solitrias. Se Tarrou o encontrava ento, s conseguia arrancar-lhe monosslabos. Depois, sem transio, encontravam-no socivel, falando 
abundantemente da peste, solicitando a opinio de cada um e mergulhando todas as noites, com complacncia, na vaga da multido.
          No dia da declarao da prefeitura, Cottard saiu completamente de circulao. Dois dias depois, Tarrou encontrou-o, vagando pelas ruas. Cottard pediu-lhe 
que o acompanhasse at o subrbio. Tarrou, que se sentia particularmente cansado, hesitou. Mas o outro insistiu. Parecia muito agitado, gesticulando de maneira desordenada, 
falando depressa e alto. Perguntou ao companheiro se pensava que a declarao da prefeitura punha realmente termo  peste. Na verdade, Tarrou considerava que uma 
declarao administrativa no bastava, por si s, para deter um flagelo, mas era vlido pensar que a epidemia, salvo qualquer imprevisto, ia cessar.
          - Sim - disse Cottard -, salvo qualquer imprevisto. E h sempre o imprevisto.
          Tarrou fez-lhe notar que, alis, a prefeitura tinha previsto, de certa forma, o imprevisto, uma vez que institura um prazo de duas semanas para a abertura 
das portas.
          - E fez bem - disse Cottard, sempre taciturno e agitado -, pois da maneira como vo as coisas, bem podia ter falado em vo.
          Tarrou considerava isso possvel, mas pensava que, no entanto, era melhor prever a prxima abertura das portas e o retorno  vida normal.
          - Admitamos - disse-lhe Cottard -, admitamos. Mas que chama de retorno a uma vida normal?
          - Novos filmes no cinema - respondeu Tarrou, sorrindo.
          Mas Cottard no sorria. Queria saber se se podia pensar que a peste no mudaria nada na cidade e que tudo recomearia como antes, isto , como se nada 
tivesse ocorrido. Tarrou pensava que a peste mudaria e no mudaria a cidade. Que, na verdade, o mais forte desejo de nossos concidados era e seria agir como se 
nada tivesse mudado e que, portanto, nada, em certo sentido, seria mudado, mas que, em outro sentido, no se pode esquecer tudo, mesmo com a vontade necessria, 
e a peste deixaria vestgios, pelo menos nos coraes. O pequeno capitalista declarou abertamente que no se interessava pelo corao e, at mesmo, que o corao 
era a ltima de suas preocupaes. O que lhe interessava era saber se a organizao em si no seria transformada, se, por exemplo, todos os servios funcionariam 
como no passado. E Tarrou teve de admitir que nada sabia. Segundo ele, era necessrio supor que todos esses servios, perturbados durante a epidemia, teriam uma 
certa dificuldade em se restabelecer. Podia-se, tambm, admitir que surgiriam muitos outros problemas que tornariam necessria, pelo menos, uma reorganizao dos 
antigos servios.
          - Ah! - disse Cottard. -  possvel, com efeito. Todos tero de recomear tudo.
          Os dois chegaram perto da casa de Cottard. Este se animara, esforando-se por se mostrar otimista. Imaginava a cidade comeando a viver de novo, apagando 
seu passado para recomear do nada.
          - Bem - disse Tarrou. - Afinal, talvez as coisas se arranjem para voc tambm. De certa forma,  uma vida nova que vai comear.
          Estavam diante da porta e apertavam-se as mos.
          - Tem razo - disse Cottard, cada vez mais agitado.
          - Comear do zero seria uma boa coisa.
          Mas, da sombra do corredor, haviam surgido dois homens. Tarrou mal teve tempo de ouvir o companheiro perguntar o que quereriam aqueles dois sujeitos. Os 
sujeitos, que tinham o ar de funcionrios endomingados, perguntavam, na verdade, a Cottard se ele se chamava efetivamente Cottard, e este, soltando uma espcie de 
exclamao surda, girava sobre si mesmo e logo mergulhava na noite sem que os outros, nem Tarrou, tivessem tempo de esboar um gesto. Passada a surpresa, Tarrou 
perguntou aos dois homens o que desejavam. Assumiram um ar reservado e corts para dizer que se tratava de informaes e partiram calmamente na direo que Cottard 
tomara.
          De volta a casa, Tarrou relatava essa cena e logo - a letra provava-o bem - anotava seu cansao. Acrescentava que ainda havia muito a fazer, mas que no 
era uma razo para no se estar pronto e perguntava a si prprio se justamente ele estava pronto. Respondia, para terminar - e  aqui que os cadernos de Tarrou terminam 
-, que havia sempre uma hora do dia e da noite em que o homem era covarde e que ele s tinha medo dessa hora.
          Dois dias depois, alguns dias antes da abertura das portas, o Dr. Rieux voltava para casa ao meio-dia e perguntava a si prprio se iria encontrar o telegrama 
que esperava. Embora seus dias fossem ainda to exaustivos como no auge da peste, a expectativa da libertao definitiva tinha dissipado nele qualquer cansao. Agora, 
tinha esperana e alegrava-se com isso. No se pode manter indefinidamente a vontade em estado de tenso, e  uma felicidade poder, enfim, na efuso, desatar esse 
molho de foras tranadas para a luta. Se o telegrama esperado fosse, ele tambm, favorvel, Rieux poderia recomear. Ele era de opinio de que todos recomeariam.
          Passou diante do cubculo da entrada. O novo porteiro, com o rosto colado na vidraa, sorria-lhe. Ao subir as escadas, Rieux revia aquele rosto, empalidecido 
pelas fadigas e pelas privaes.
          Sim, recomearia quando a abstrao tivesse acabado, e com um pouco de sorte... No mesmo momento em que abrira a porta, sua me vinha ao seu encontro, 
para anunciar que o Sr. Tarrou no se sentia bem. Levantara-se de manh, mas no tinha conseguido sair e acabava de se deitar de novo. A Sra. Rieux estava inquieta.
          - Talvez no seja nada de grave - disse o filho. Tarrou estava estendido, com a pesada cabea enterrada no travesseiro, o peito forte desenhando-se sob 
a espessura dos cobertores. Estava com febre, doa-lhe a cabea. Disse a Rieux que se tratava de sintomas vagos que podiam tambm ser os da peste.
          - No, nada de preciso por enquanto - disse Rieux, depois de examin-lo.
          Mas Tarrou sentia-se devorado pela sede. No corredor, o mdico disse  me que podia ser o comeo da peste.
          - Oh! - disse ela. - No  possvel, logo agora! E a seguir:
          - Deixemo-lo ficar, Bernard. Rieux refletia.
          - No tenho esse direito - disse ele. - Mas as portas vo abrir-se. Creio que seria esse o primeiro direito que eu tomaria para mim se voc no estivesse 
aqui.
          - Bernard - disse ela -, deixe-nos, os dois. Bem sabe que acabo de ser vacinada mais uma vez.
          O mdico disse que tambm Tarrou o fora, , mas que, talvez pelo cansao, devia ter deixado passar a ltima injeo de soro e esquecera algumas precaues.
          Rieux j se dirigia ao escritrio. Quando voltou ao quarto, Tarrou viu que trazia as enormes ampolas de soro.
          - Ah,  isso - disse ele.
          - No, mas  uma precauo.
          Como nica resposta, Tarrou estendeu o brao e recebeu a interminvel injeo que ele prprio tinha dado a outros doentes.
          - Veremos esta tarde - disse Rieux, olhando Tarrou de frente.
          - E o isolamento, Rieux?
          - No  certo que voc tenha a peste. Tarrou sorriu com esforo.
          -  a primeira vez que vejo injetar um soro sem se determinar ao mesmo tempo o isolamento.
          - Mas mame e eu trataremos de voc. Estar melhor aqui.
          Tarrou calou-se e o mdico, que arrumava as ampolas, esperou que ele falasse para se voltar. Por fim, dirigiu-se para o leito. O doente olhava para ele. 
Tinha o rosto cansado, mas os olhos cinzentos estavam calmos. Rieux sorriu-lhe.
          - Veja se consegue dormir. Volto daqui a pouco.
           porta, ouviu a voz de Tarrou, que o chamava. Voltou-se para ele.
          Mas Tarrou parecia debater-se contra a prpria expresso do que tinha a dizer.
          - Rieux - articulou, por fim -, quero que me diga tudo. Tenho necessidade de sab-lo.
          - Prometo.
          O rosto macio do outro contraiu-se num sorriso.
          - Obrigado. No tenho vontade de morrer e vou lutar. Mas, se a partida estiver perdida, quero ter um bom fim.
          Rieux abaixou-se e apertou-lhe o ombro.
          - No - disse. - Para se ser santo,  preciso viver. Lute.
          Durante o dia, o frio, que tinha sido intenso, diminuiu um pouco, mas para dar lugar, de tarde, a violentas tempestades de chuva e de granizo. Ao crepsculo, 
o cu se descobriu um pouco e o frio tornou-se mais penetrante. Rieux voltou para casa no fim da tarde. Sem tirar o sobretudo, entrou no quarto do amigo. Sua me 
fazia tric. Tarrou parecia no se ter mexido do mesmo lugar, mas os lbios, empalidecidos pela febre, diziam da luta que ele travava.
          - Ento? - perguntou o mdico.
          Tarrou encolheu um pouco, fora do leito, seus ombros fortes.
          - Ento - disse ele -, estou perdendo a partida. O mdico curvou-se sobre ele. Tinham-se formado gnglios sob a pele ardente, o peito parecia ressoar com 
todos os rudos de uma forja subterrnea. Curiosamente, Tarrou apresentava as duas espcies de sintomas. Ao erguer-se, Rieux disse que o soro ainda no tivera tempo 
de produzir todo o seu efeito. Mas uma onda de febre que veio rolar na sua garganta afogou as poucas palavras que Tarrou tentou pronunciar.
          Depois do jantar, Rieux e a me instalaram-se junto do doente. A noite comeava para ele na luta, e Rieux sabia que esse duro combate com o anjo da peste 
devia durar at o amanhecer. Os slidos ombros e o vasto peito de Tarrou no eram suas melhores armas, mas antes esse sangue que Rieux fizera brotar ainda agora 
sob a agulha e, nesse sangue, o que era mais interior que a alma e que nenhuma cincia podia trazer  luz. E ele no podia fazer mais que ver o amigo lutar. O que 
ia fazer, os abscessos que devia provocar, os tnicos que era preciso inocular, vrios meses de fracassos repetidos tinham-lhe ensinado a apreciar-lhes a eficcia. 
Sua nica tarefa, na verdade, era dar oportunidade a esse acaso que tantas vezes s age quando provocado. Era preciso que o acaso se desse ao trabalho de manifestar-se. 
Porque Rieux encontrava-se diante de uma face da peste que o desconcertava. Uma vez mais, ela se dedicava a despistar as estratgias erguidas contra ela, aparecia 
nos lugares onde no era esperada, para desaparecer daqueles onde parecia j instalada. Uma vez mais, dedicava-se a causar espanto.
          Tarrou lutava, imvel. Nem uma nica vez, durante a noite, ops a agitao aos assaltos do mal, combatendo, apenas, com toda a sua solidez e todo o seu 
silncio. Mas tambm no falou uma nica vez, confessando assim,  sua maneira, que a distrao j no lhe era possvel. Rieux seguia apenas, as fases do combate 
pelos olhos do amigo, ora abertos, ora fechados, com as plpebras mais apertadas contra o globo ocular, ou, pelo contrrio, distendidas, o olhar fixo num objeto 
ou voltado para o mdico e a me. A cada vez que Rieux encontrava esse olhar, Tarrou sorria, com grande esforo.
          Em certo momento, ouviram-se passos precipitados na rua. Pareciam fugir diante de um rumor longnquo, que se aproximou pouco a pouco e acabou enchendo 
a rua com seu matraquear: a chuva recomeava, logo mesclada ao granizo que estalava nas caladas. Os grandes reposteiros ondularam diante das janelas. Na escurido 
do quarto, Rieux, um instante distrado pela chuva, contemplava novamente Tarrou, iluminado por uma lmpada de cabeceira. Sua me tricotava, levantando a cabea, 
de vez em quando, para olhar atentamente para o doente. O mdico tinha agora feito tudo o que havia a fazer. Depois da chuva, o silncio tornou-se mais espesso no 
quarto, cheio apenas do mudo tumulto de uma guerra invisvel. Crispado pela insnia, o mdico imaginava ouvir nos limites do silncio o silvo doce e regular que 
o acompanhara durante toda a epidemia. Fez sinal  me, para que fosse deitar-se. Ela recusou com a cabea, seus olhos iluminaram-se, depois examinou cuidadosamente, 
na ponta das agulhas, um ponto que no lhe parecia perfeito. Rieux levantou-se para dar de beber ao doente e voltou a sentar-se.
          Alguns transeuntes, aproveitando a estiagem, caminhavam rapidamente na calada. Os passos diminuam e afastavam-se. O mdico, pela primeira vez, reconheceu 
que essa noite, cheia de notvagos retardatrios, e privada das sirenes das ambulncias, era semelhante s de outrora. Era uma noite libertada da peste. E parecia 
que a doena, enxotada pelo frio, pelas luzes e pela multido, fugira das profundezas obscuras da cidade para vir refugiar-se nesse quarto quente e fazer seu ltimo 
assalto ao corpo inerte de Tarrou. O flagelo j no agitava o cu da cidade. Mas sibilava suavemente no ar pesado do quarto. Era ele que Rieux ouvia j h algumas 
horas. Era necessrio esperar que tambm l ele parasse, que tambm l a peste se declarasse vencida.
          Pouco antes do amanhecer, Rieux inclinou-se para a me.
          - Voc devia deitar-se para me substituir s oito horas. Faa inalaes antes de se deitar.
          A Sra. Rieux levantou-se, arrumou seu tric e dirigiuse para o leito. Tarrou, j h algum tempo, mantinha os olhos fechados. O suor encaracolava-lhe os 
cabelos sobre a fronte dura. A Sra. Rieux suspirou, e o doente abriu os olhos. Viu o rosto suave curvado para ele e, sob as ondas mveis da febre, o sorriso tenaz 
reapareceu ainda. Mas os olhos fecharam-se logo. S, Rieux instalou-se na poltrona que a me acabava de deixar. A rua estava muda, e o silncio era agora completo. 
O frio da manh comeava a fazer sentir-se no quarto.
          O mdico cochilou, mas o primeiro carro da madrugada arrancou-o  sonolncia. Sentiu um arrepio e, olhando para Tarrou, compreendeu que tinha havido uma 
pausa e que o doente dormia tambm. As rodas de madeira e de ferro do carro rolavam ainda  distncia. L fora, o dia estava ainda escuro. Quando o mdico avanou 
em direo  cama, Tarrou olhou-o com olhos sem expresso, como se estivesse ainda do lado do sono.
          - Dormiu, no  verdade? - perguntou Rieux.
          - Dormi.
          - Est respirando melhor?
          - Um pouco. Isso significa alguma coisa?, Rieux calou-se e ao fim de um momento disse:
          - No, Tarrou, isso no significa nada. Voc conhece como eu a remisso matinal.
          Tarrou aprovou.
          - Obrigado - disse. - Responda-me sempre com essa exatido.
          Rieux tinha-se sentado aos ps da cama. Sentia perto dele as pernas do doente, compridas e duras como membros de defunto. Tarrou respirava com mais fora.
          - A febre vai recomear, no , Rieux? - perguntou, com uma voz ofegante.
          - Vai, mas ao meio-dia saberemos alguma coisa. Tarrou fechou os olhos, parecendo reunir suas foras.
          Lia-se em suas feies uma expresso de cansao. Esperava a subida da febre, que j se agitava, em qualquer parte, no fundo dele mesmo. Quando abriu os 
olhos, seu olhar era bao. S se iluminou ao ver Rieux curvado sobre ele.
          - Beba - dizia-lhe este.
          O outro bebeu e deixou cair a cabea novamente.
          - Demora tanto - disse.
          Rieux pegou-lhe no brao, mas Tarrou, com o olhar desviado, j no reagia. E, de repente, a febre refluiu visivelmente at sua fronte, como se tivesse 
arrebentado alguma represa interior. Quando o olhar de Tarrou voltou a pousar no mdico, este o animava com o rosto tenso. O sorriso que Tarrou tentou ainda esboar 
no conseguiu passar dos maxilares cerrados e dos lbios cimentados por uma espuma esbranquiada. Mas, na face endurecida, os olhos brilharam ainda com todo o fulgor 
da coragem.
          s sete horas, a Sra. Rieux entrou no quarto. O mdico dirigiu-se ao escritrio para telefonar para o hospital e providenciar sua substituio. Decidiu, 
tambm, adiar as consultas, deitou-se um momento no div do seu escritrio, mas levantou-se logo e voltou ao quarto. Tarrou tinha a cabea voltada para a Sra. Rieux. 
Olhava para a pequena sombra abatida perto dele, numa cadeira, com as mos juntas sobre as coxas. E contemplava-a com tanta intensidade que a Sra. Rieux, pondo um 
dedo sobre os lbios, levantou-se para apagar a lmpada de cabeceira. Mas, por trs das cortinas, o dia filtrava-se rapidamente e, pouco a pouco, quando as feies 
do doente emergiram da sombra, a Sra. Rieux pde ver que ele continuava a olh-la. Curvou-se sobre ele, endireitou o travesseiro e, ao levantar-se, pousou um instante 
a mo sobre os cabelos midos e emaranhados. Ouviu, ento, uma voz ensurdecida, vinda de longe, dizer-lhe "obrigado" e que tudo agora ia bem. Quando ela se sentou 
de novo, Tarrou fechara os olhos, e o rosto esgotado, apesar da boca lacrada, parecia sorrir de novo.
          Ao meio-dia, a febre chegava ao mximo. Uma espcie de tosse visceral sacudia o corpo do doente, que comeou a escarrar sangue. Os gnglios tinham parado 
de inchar. Continuavam l, duros como porcas atarraxadas no vo das articulaes, e Rieux julgou impossvel abri-los. Nos intervalos da febre e da tosse, Tarrou 
uma vez ou outra olhava ainda para os amigos. Mas logo os olhos comearam a abrir-se cada vez menos, e a luz que vinha agora iluminarlhe o rosto devastado tornava-se 
cada vez mais plida. A tempestade que sacudia seu corpo de sobressaltos convulsivos iluminava-o de relmpagos cada vez mais raros, e Tarrou estava  deriva, lentamente, 
no fundo dessa tormenta. Rieux j no tinha diante de si seno uma mscara agora inerte, de onde o sorriso tinha desaparecido. Essa forma humana que lhe fora to 
prxima, crivada agora de golpes de lana, queimada por um mal sobre-humano, retorcida pelos ventos rancorosos do cu, mergulhava diante de seus olhos nas guas 
da peste, e ele nada podia contra esse naufrgio. Tinha de ficar na margem, com as mos vazias e o corao oprimido, sem armas e sem recursos, uma vez mais, contra 
esse desastre. E, no fim, foram efetivamente as lgrimas da impotncia que impediram Rieux de ver Tarrou encostar-se bruscamente na parede e expirar, num lamento 
surdo, como se em qualquer parte dentro dele uma corda essencial se tivesse rompido.
          A noite que se seguiu no foi a da luta, mas a do silncio. Nesse quarto separado do mundo, acima do corpo morto agora vestido, Rieux sentiu pairar a calma 
surpreendente que muitas noites antes, nos terraos por cima da peste, se seguira ao ataque s portas. J naquela poca, tinha pensado nesse silncio que se elevava 
dos leitos onde ele deixara morrer homens. Em todo lugar, era a mesma pausa, o mesmo intervalo solene, sempre o mesmo sossegar que se seguia aos combates, era o 
silncio da derrota. Quanto a esse que envolvia agora o amigo, era to compacto, moldava-se to estreitamente ao silncio das ruas e da cidade libertada da peste, 
que Rieux sentia efetivamente que se tratava, desta vez, da derrota definitiva, a que termina as guerras e faz da prpria paz um sofrimento incurvel. O mdico no 
sabia se, para acabar, Tarrou tinha encontrado a paz, mas, nesse momento, pelo menos, julgava saber que nunca haveria a possibilidade de paz para si mesmo, assim 
como no h armistcio para a me amputada do filho ou para o homem que enterra o amigo.
          L fora, era a mesma noite fria, estrelas geladas num cu claro e glido. No quarto semi-obscuro, sentia-se o frio que pesava nas vidraas, a grande respirao 
lvida de uma noite polar. Perto do leito, a Sra. Rieux estava sentada, na sua atitude familiar, com o lado direito iluminado pela lmpada de cabeceira. No centro 
do quarto, longe da luz, Rieux esperava em sua poltrona. A lembrana de sua mulher o atraa, mas ele a repelia sempre.
          No princpio da noite, os saltos dos transeuntes tinham soado claro na noite fria.
          - Tratou de tudo? - perguntara a Sra. Rieux.
          - Sim, j telefonei.
          Ento, retomaram a viglia silenciosa. A Sra. Rieux olhava de vez em quando para o filho. Quando ele surpreendia um desses olhares, sorria. Os rudos familiares 
da noite tinham-se sucedido na rua. Embora no houvesse ainda autorizao, muitos carros circulavam de novo. Sugavam rapidamente o asfalto, desapareciam e reapareciam 
em seguida. Vozes, chamados, o silncio que voltava, passos de cavalo, dois bondes rangendo numa curva, rumores imprecisos e de novo a respirao da noite.
          - Bernard?
          - Que ?
          - No est cansado?
          - No.
          Ele sabia o que a me pensava e que nesse momento ela o amava. Mas sabia tambm que no  grande coisa amar um ser, ou que, pelo menos, um amor no  nunca 
bastante forte para encontrar sua prpria expresso. Assim, sua me e ele sempre se amariam em silncio. E ela morreria por sua vez - ou ele - sem que, durante toda 
a vida, tivessem conseguido ir mais longe na confisso de sua ternura. Da mesma forma, ele tinha vivido ao lado de Tarrou e essa noite ele morrera, sem que sua amizade 
tivesse tido tempo de ser verdadeiramente vivida. Tarrou perdera a partida, como ele dizia. Mas ele, Rieux, o que tinha ganho? Lucrara apenas por ter conhecido a 
peste e lembrar-se dela, ter conhecido a amizade e lembrar-se dela, conhecer a ternura e haver um dia de lembrar-se dela. Tudo o que o homem podia ganhar no jogo 
da peste e da vida era o conhecimento e a memria. Talvez fosse a isso que Tarrou chamava ganhar a partida!
          De novo, um automvel passou e a Sra. Rieux mexeuse um pouco na cadeira. O filho sorriu-lhe. Ela lhe disse que no estava cansada e logo a seguir acrescentou:
          - Precisa ir descansar na montanha.
          -  claro, mame.
          Sim, iria descansar l. Por que no? Seria tambm um pretexto para recordar. Mas se era isso ganhar a partida, como devia ser duro viver apenas com o que 
se sabe e aquilo de que se tem lembrana, privado do que se espera. Era assim, sem dvida, que Tarrou tinha vivido, e ele tinha conscincia do que h de estril 
numa vida sem iluses. No h paz sem esperana, e Tarrou, que recusava aos homens o direito de condenar quem quer que fosse, que sabia, contudo, que ningum se 
pode impedir de condenar e que at as vtimas se encontravam, s vezes, no papel de carrascos, Tarrou tinha vivido no sofrimento e na contradio, jamais conhecera 
a esperana. Seria por isso que ele tinha querido a santidade e buscara a paz a servio dos homens? Na verdade, Rieux nada sabia, e isso pouco lhe importava. As 
nicas imagens de Tarrou que conservaria seriam as de um homem que pegava no volante do seu automvel com mos firmes, para dirigi-lo, ou as deste corpo espesso 
estendido agora, sem movimento. Um calor de vida e uma imagem de morte, era isso o conhecimento.
          Eis por que, sem dvida, o Dr. Rieux recebeu com calma, de manh, a notcia da morte de sua mulher. Estava no escritrio. A me chegara, quase correndo, 
para trazer-lhe um telegrama, depois sara para dar a gorjeta ao mensageiro. Quando voltou, o filho tinha na mo o telegrama aberto. Olhou para ele, que, no entanto, 
contemplava obstinadamente, pela janela, uma manh magnfica que se erguia sobre o porto.
          - Bernard - disse a Sra. Rieux.
          O mdico perscrutou-a com ar distrado.
          - O telegrama? - perguntou ela.
          -  isso - reconheceu o mdico. - H oito dias. A Sra. Rieux voltou a cabea para a janela. O mdico continuava calado. Depois pediu  me que no chorasse, 
que ele j esperava, mas que era difcil, apesar de tudo. Simplesmente, ao dizer isso, sabia que seu sofrimento era sem surpresa. H meses e h dois dias, era a 
mesma dor que continuava.
          As portas da cidade abriram-se, afinal, na madrugada de uma bela manh de fevereiro, saudadas pelo povo, pelos jornais, pelo rdio e pelos comunicados 
da prefeitura. Resta, pois, ao narrador fazer-se o cronista das horas de alegria que se seguiram a essa abertura das portas, embora ele prprio estivesse entre os 
que no tinham a liberdade de se juntar a elas inteiramente.
          Grandes festejos estavam organizados para o dia e para a noite. Ae mesmo tempo, os trens comeavam a fumegar na estao, enquanto, vindos de mares longnquos, 
os navios j entravam no porto, acentuando,  sua maneira, que esse dia era, para todos os que gemiam por estar separados, o da grande reunio.
          Imaginar-se- facilmente aqui em que se transformou o sentimento da separao que tinha habitado tantos de nossos concidados. Os trens que, durante o 
dia, entraram em nossa cidade no vinham menos cheios que os que dela saram. Todos tinham reservado seu lugar para esse dia, no decurso de duas semanas de sursis, 
temendo que, no ltimo momento, a deciso da prefeitura fosse anulada. Alguns dos viajantes que se aproximavam de nossa cidade no vinham, alis, inteiramente livres 
da sua apreenso, j que, se conheciam em geral o destino daqueles que os tocavam de perto, ignoravam tudo dos outros e da cidade em si,  qual atribuam uma fisionomia 
terrvel. Mas isso s era verdade para aqueles que a paixo no tinha queimado durante todo esse espao de tempo.
          Na verdade, os apaixonados estavam entregues a sua ideia fixa. Uma nica coisa mudara para eles: esse tempo que, durante os meses do exlio, teriam desejado 
empurrar para que se apressasse, que se empenhavam em precipitar ainda, agora que j se encontravam diante de nossa cidade, desejaram fre-lo, pelo contrrio, e 
mante-lo suspenso desde que o trem comeava a reduzir a marcha antes da parada. O sentimento, ao mesmo tempo vago e agudo, que havia neles, de todos esses meses 
de vida perdidos para o amor, fazia-os exigir confusamente uma espcie de compensao, pela qual o tempo da alegria teria corrido duas vezes mais devagar que o da 
espera. E aqueles que os esperavam num quarto ou no cais, como Rambert, cuja mulher, avisada h semanas, fizera o necessrio para chegar, encontravam-se na mesma 
impacincia e no mesmo tumulto. Porque esse amor ou essa ternura que os meses da peste tinham reduzido  abstrao, Rambert esperava, num tremor, confront-los com 
o ser de carne que tinha sido seu sustentculo.
          Teria desejado voltar a ser aquele que, no princpio da epidemia, queria correr, com um nico impulso, para fora da cidade e atirar-se ao encontro daquela 
que amava. Mas sabia que isso no era mais possvel. Ele mudara, a peste tinha deixado nele uma distrao que, com todas as suas foras, tentava negar, e que, entretanto, 
continuava nele como uma angstia surda. De certa forma, tinha o sentimento de que a peste terminara com demasiada brutalidade, de que no recuperara sua presena 
de esprito. A felicidade chegava com todo o mpeto, o acontecimento ia mais depressa que a expectativa. Rambert compreendia que tudo lhe seria devolvido de uma 
vez e que a alegria  uma queimadura que no se saboreia.
          Todos, alis, mais ou menos conscientemente, estavam como ele, e  de todos que  preciso falar. Na plataforma da estao onde recomeavam sua vida pessoal, 
sentiam ainda a sua comunho, trocando entre si olhares e sorrisos. Mas o sentimento de exlio, desde que viram a fumaa do trem, apagou-se bruscamente sob a tempestade 
de uma alegria confusa e perturbadora. Quando o trem parou, separaes interminveis, que em muitos casos tinham comeado nessa mesma plataforma de estao, ali 
terminaram, num segundo, no momento em que braos se fecharam com uma avareza exultante sobre corpos cuja forma viva tinham esquecido. Rambert, por sua vez, mal 
teve tempo de olhar essa forma que corria para ele e j ela se abatia contra seu peito. E segurando-a com a fora de seus braos, apertando contra si uma cabea 
de que s via os cabelos familiares, deixou correr as lgrimas, sem saber se elas vinham da felicidade presente ou de uma dor muito tempo reprimida, seguro, pelo 
menos, de que elas o impediriam de verificar se esse rosto enterrado em seu ombro era aquele com que tanto sonhara ou, pelo contrrio, o de uma desconhecida. Saberia 
mais tarde se a sua suspeita era verdadeira. Por ora, queria fazer como todos os que  sua volta pareciam acreditar que a peste pode chegar e voltar a partir sem 
que o corao dos homens mude com isso.
          Apertados uns contra os outros, todos voltaram ento para casa, alheios ao resto do mundo, aparentemente vencedores da peste, esquecidos de toda a desgraa 
e daqueles que, vindos no mesmo trem, no tinham encontrado ningum e se dispunham a receber em casa a confirmao dos temores que um longo silncio j fizera nascer 
nos coraes. Para estes ltimos, que no tinham agora por companhia seno a dor muito recente, para outros que se consagravam, nesse momento,  recordao de um 
ser desaparecido, tudo se passava de modo muito diferente, e o sentimento da separao tinha atingido o auge. Para esses - mes, esposos, amantes que tinham perdido 
toda a alegria com o ser agora abandonado numa cova annima ou fundido num monte de cinza - era ainda a peste.
          Mas quem pensava nessas solides? Ao meio-dia, o sol, dominando os sopros frios que lutavam no ar desde a manh, despejava sobre a cidade as ondas ininterruptas 
de uma luz imvel. O dia estava suspenso. Os canhes dos fortes, no topo das colinas, trovejavam sem cessar no cu fixo. Toda a cidade lanou-se s ruas, para festejar 
esse minuto em que acabava o tempo dos sofrimentos e ainda no comeara o tempo do esquecimento.
          Danava-se em todas as praas. De um dia para o outro, o trnsito tinha aumentado consideravelmente e os automveis, agora mais numerosos, circulavam com 
dificuldade nas ruas invadidas. Os sinos da cidade repicaram toda a tarde, enchendo, com suas vibraes, um cu azul e dourado. Na verdade, nas igrejas, rezavam-se 
aes de graas. Mas, ao mesmo tempo, os lugares de prazer transbordavam e os cafs, sem se preocuparem com o futuro, distribuam seus ltimos lcoois. Diante dos 
balces comprimia-se uma multido de pessoas igualmente agitadas e, entre elas, numerosos pares enlaados que no receavam exibir-se. Todos gritavam ou riam. A proviso 
de vida que tinham feito durante aqueles meses em que cada um tinha velado a alma gastavam-na nesse dia, que era como o dia de sua sobrevivncia. No dia seguinte, 
comearia a prpria vida, com suas precaues. No momento, pessoas de origens mais diversas acotovelavam-se e confraternizavam. A igualdade que a presena da morte 
no tinha realizado de fato, estabelecia-a a alegria da libertao, ao menos por algumas horas.
          Mas essa exuberncia banal no dizia tudo, e os que enchiam as ruas ao fim da tarde, ao lado de Rambert, disfaravam muitas vezes, sob uma atitude plcida, 
felicidades mais delicadas. Muitos casais e muitas famlias pareciam apenas transeuntes pacficos. Na realidade, a maior parte efetuava peregrinaes aos lugares 
onde tinham sofrido. Tratava-se de mostrar aos recm-chegados os sinais evidentes ou ocultos da peste, os vestgios de sua histria. Em alguns casos, contentavam-se 
com o papel de guias, daquele que viu muitas coisas, do contemporneo da peste, e falavam do perigo sem evocar o medo. Esses prazeres eram inofensivos. Em outros 
casos, porm, tratava-se de itinerrios mais frementes, em que um amante, abandonado  doce angstia da recordao, podia dizer a sua companheira: "Neste lugar, 
nessa poca, eu desejei voc, e voc no estava aqui". Esses turistas da paixo eram ento facilmente reconhecveis: formavam ilhotas de sussurros e de confidncias 
no meio do tumulto em que caminhavam. Mais que as orquestras nas praas, eram eles que anunciavam a verdadeira libertao. Porque esses casais encantados, estreitamente 
enlaados e avarentos de palavras, afirmavam, em meio ao tumulto, com todo o triunfo e toda a injustia da felicidade, que acabara a peste e o terror chegara ao 
fim. Negavam tranqilamente, contra toda a evidncia, que tivssemos jamais conhecido esse mundo insensato em que o assassinato de um homem era to cotidiano quanto 
o das moscas, essa selvageria bem definida, esse delrio calculado, essa priso que trazia consigo uma pavorosa liberdade em relao a tudo o que no era o presente, 
esse cheiro de morte, que entorpecia todos aqueles a quem no matava - negavam, enfim, que tivssemos sido esse povo atordoado de que todos os dias uma parte, empilhada 
na boca de um forno, se evaporava em fumaa gordurosa, enquanto a outra, carregada com as cadeias da impotncia e do medo, esperava sua vez.
          Era isso, em todo caso, o que saltava aos olhos do Dr. Rieux, que, procurando alcanar os subrbios, caminhava s, no fim da tarde, em meio aos sinos, 
ao canho, s msicas e aos gritos ensurdecedores. Seu trabalho continuava: para mdicos, no h frias. Na bela luz fina que descia sobre a cidade, subiam os velhos 
odores de carne assada, lcool, anis.  sua volta, faces risonhas voltavam-se para o cu. Homens e mulheres agarravam-se uns aos outros, os rostos inflamados, com 
todo o enervamento e o grito de desejo. Sim, a peste tinha acabado com o terror e esses braos que se entrelaavam diziam bem que ela havia sido exlio e separao, 
no sentido profundo do termo.
          Pela primeira vez, Rieux podia dar um nome a esse ar de famlia que tinha lido, durante meses, em todos os rostos dos transeuntes. Bastava-lhe agora olhar 
 sua volta. Chegados ao fim da peste, com a misria e as privaes, todos esses homens acabaram por assumir o traje do papel que desempenhavam j h muito tempo, 
o de emigrantes cujo rosto, primeiro, e agora as roupas, diziam da ausncia da ptria longnqua. A partir do momento em que a peste tinha fechado as portas da cidade, 
s tinham vivido na separao, tinham sido afastados desse calor humano que faz esquecer tudo. Em graus diversos, em todos os cantos da cidade, esses homens e essas 
mulheres tinham aspirado a uma reunio que no era para todos da mesma natureza, mas que para todos era igualmente impossvel. A maior parte tinha gritado com todas 
as suas foras por um ausente, o calor de um corpo, a ternura ou o hbito. Alguns, muitas vezes sem o saber, sofriam por estar colocados fora da amizade dos homens, 
de j no poderem comunicar-se com eles pelos meios normais da amizade, que so as cartas, os trens e os navios. Outros, mais raros, como Tarrou, talvez, tinham 
desejado a reunio com qualquer coisa que no podiam definir mas que lhes parecia o nico bem desejvel. E,  falta de outro nome, chamavam-lhe, s vezes, paz.
          Rieux continuava a andar.  medida que avanava, a multido crescia  sua volta, a confuso aumentava e parecia-lhe que os subrbios que queria alcanar 
recuavam. Pouco a pouco, fundia-se nesse grande corpo ululante, cujo grito ele compreendia cada vez melhor, esse grito que, por um lado, pelo menos, era seu grito. 
Sim, todos tinham sofrido juntos, tanto na carne quanto na alma, um vazio difcil, um exlio sem remdio e uma sede jamais satisfeita. Entre esses amontoados de 
mortos, as sirenes das ambulncias, os avisos do que se convencionou chamar destino, o tropel impaciente do medo e a revolta terrvel de seu corao, no tinha parado 
de correr um grande rumor que punha de sobreaviso esses seres aterrados, dizendo-lhes que era preciso encontrarem sua verdadeira ptria. Para todos eles, a verdadeira 
ptria encontrava-se para alm dos muros desta cidade sufocada. Ela estava nas matas perfumadas das colinas, no mar, nos pases livres e no peso do amor. E era para 
ela, era para a felicidade, que eles queriam voltar, afastando-se do resto com repulsa.
          Quanto ao sentido que podiam ter esse exlio e esse desejo de reunio, Rieux nada sabia. Caminhando sempre, comprimido de todos os lados, interpelado, 
chegava, pouco a pouco, s ruas menos apinhadas e pensava que no era importante que essas coisas tivessem um sentido ou no, mas que  preciso ver apenas a resposta 
dada  esperana dos homens.
          Ele sabia agora qual era essa resposta e a compreendia melhor nas primeiras ruas dos subrbios, quase desertas. Aqueles que, cientes do pouco que eram, 
tinham apenas desejado voltar  casa do seu amor, eram por vezes recompensados. Decerto, alguns^deles continuavam a caminhar na cidade, solitrios, privados do ser 
que esperavam. Felizes ainda dos que no tinham sido duas vezes separados, como alguns que, antes da epidemia, no tinham podido construir,  primeira tentativa, 
seu amor e tinham cegamente buscado, durante anos, o difcil acordo que acaba por juntar um ao outro amantes inimigos. Esses tinham tido, como o prprio Rieux, a 
leviandade de contar com o tempo: estavam separados para sempre. Mas outros, como Rambert, que o doutor deixara nessa mesma manh, dizendo-lhe: "Coragem,  agora 
que  preciso ter razo", haviam reencontrado, sem hesitar, o ausente que tinham julgado perdido. Durante algum tempo, pelo menos, seriam felizes. Sabiam agora que, 
se h qualquer coisa que se pode desejar sempre e obter algumas vezes, essa qualquer coisa  a ternura humana.
          Para todos aqueles, pelo contrrio, que se tinham dirigido por cima do homem a qualquer coisa que nem sequer imaginavam, no houvera resposta. Tarrou parecia 
ter alcanado essa paz difcil de que falara, mas s a tinha encontrado na morte, na hora em que no podia lhe servir para nada. Se outros, pelo contrrio, que Rieux 
avistava nas soleiras das casas, enlaados com todas as suas foras e olhando-se com enlevo, tinham obtido o que queriam,  porque tinham pedido a nica coisa que 
dependia deles. E Rieux, no momento de entrar na rua de Grand e de Cottard, pensava que era justo que, vez por outra, pelo menos, a alegria viesse recompensar os 
que se contentam com o homem e seu pobre terrvel amor.
          Esta crnica chega ao fim.  tempo de o Dr. Bernard Rieux confessar que  o seu autor. Mas, antes de narrar os ltimos acontecimentos, ele gostaria, ao 
menos, de justificar sua interveno e fazer compreender por que quis assumir o tom de testemunha objetiva. Ao longo de toda a durao da peste, sua profisso o 
colocou em condies de ver a maior parte de seus concidados e de recolher seus sentimentos. Estava, pois, em boa posio para narrar o que tinha visto e ouvido. 
De uma maneira geral, esforou-se no sentido de no contar mais coisas do que pde ver, de no atribuir aos companheiros de peste pensamentos que, afinal, eles no 
eram obrigados a formular e de utilizar apenas os textos que o acaso ou a desgraa lhe tinham posto entre as mos.
          Tendo sido chamado a depor, por ocasio de uma espcie de crime, manteve uma certa reserva, como convm a uma testemunha de boa vontade. Mas, ao mesmo 
tempo, segundo a lei de um corao honesto, tomou deliberadamente o partido da vtima e quis juntar-se aos homens, seus concidados, nas nicas certezas que eles 
tm em comum e que so o amor, o sofrimento e o exlio. Assim  que no h uma s das angstias de seus concidados de que no tenha compartilhado, uma s situao 
que no tenha tambm sido a sua.
          Para ser uma testemunha fiel, devia relatar sobretudo os atos, os documentos e os boatos. Mas o que pessoalmente tinha a dizer - sua expectativa, suas 
provaes - devia cal-lo. Se se valeu delas, foi apenas para compreender ou fazer compreender seus concidados, ou para dar forma, to precisa quanto possvel, 
ao que, na maior parte do tempo, eles sentiam de modo confuso. Para dizer a verdade, esse esforo da razo no lhe custou nada. Quando se encontrava tentado a misturar 
diretamente sua confidncia s mil vozes das vtimas da peste, era detido pelo pensamento de que no havia um s de seus sofrimentos que no fosse ao mesmo tempo 
o dos outros e que, num mundo em que a dor  tantas vezes solitria, isso era uma vantagem. Decididamente, devia falar por todos.
          Mas h um de nossos concidados, pelo menos, pelo qual o Dr. Rieux no podia falar. Tratava-se, na verdade, daquele de quem Tarrou lhe tinha dito um dia 
"Seu nico verdadeiro crime foi ter aprovado de corao o que fazia morrer as crianas e os homens. O resto, compreendo-o, mas isso sou obrigado a perdoar-lhe". 
 justo que esta crnica termine com aquele que tinha um corao ignorante, quer dizer, solitrio.
          Quando saiu das grandes ruas barulhentas e da festa, no momento de entrar na rua de Grand e de Cottard, o Dr. Rieux, com efeito, foi detido por uma barreira 
de policiais. No esperava por isso. Os rumores longnquos da festa faziam o bairro parecer silencioso, e ele o imaginava to deserto quanto mudo. Tirou seu carto 
de identidade.
          - Impossvel, doutor - disse-lhe o guarda -, h um louco que est atirando sobre a multido. Mas fique a, poder ser til.
          Nesse momento, o doutor viu Grand, que se dirigia a ele. Grand tambm nada sabia. Impediam sua passagem e diziam que os tiros saam de sua casa. De longe, 
via-se, na verdade, a fachada, dourada pela ltima luz de um sol sem calor.  sua volta, recortava-se um grande espao vazio que ia at a calada em frente. No meio 
da rua, via-se distintamente um chapu e um pedao de pano sujo. Rieux e Grand podiam ver muito longe, do outro lado da rua, um cordo de policiais, paralelo ao 
que os impedia de avanar e por trs do qual alguns habitantes do bairro passavam e tornavam a passar rapidamente. Olhando bem, viram tambm policiais de revlver 
em punho, agachados nas portas dos edifcios em frente da casa. Desta, todas as persianas estavam corridas. No segundo andar, contudo, uma delas parecia meio arrancada. 
O silncio era completo na rua. Ouviam-se apenas os restos de msica que chegavam do centro da cidade.
          Em certo momento, dos edifcios em frente da casa saram dois tiros de revlver e saltaram estilhaos da persiana desmantelada. Depois, tudo ficou de novo 
em silncio. De longe, depois do tumulto do dia, aquilo parecia um pouco irreal a Rieux.
          -  a janela de Cottard - disse de repente Grand, muito agitado. - Mas Cottard desapareceu.
          - Por que disparam? - perguntou Rieux a um policial.
          - Para distra-lo. Estamos esperando um carro com o material necessrio, pois ele atira sobre os que tentam entrar pela porta do edifcio. J h um policial 
ferido.
          - Por que ele atirou?
          - No se sabe. As pessoas divertiam-se na rua. Ao primeiro tiro de revlver, no compreenderam. No segundo, houve gritos, um ferido e todos fugiram.  
um louco, s pode ser!
          No silncio que voltara, os minutos pareciam arrastarse. De repente, do outro lado da rua, viram aparecer um co, o primeiro que Rieux via h muito tempo, 
um vra-lata sujo que os donos deviam ter escondido at ento, e que trotava beirando o muro. Chegando  porta, hesitou, sentou-se e comeou a catar as pulgas. Vrios 
assobios dos policiais chamaram-no. Ele levantou a cabea, depois decidiu-se a atravessar lentamente a rua para ir farejar o chapu. No mesmo momento, um tiro partiu 
do segundo andar, e o co voltou-se, agitando violentamente as patas, para cair depois de flanco, sacudido por longas convulses. Em resposta, cinco ou seis disparos 
vindos das portas em frente despedaaram mais a persiana. O silncio caiu de novo. O sol baixava um pouco e a sombra comeava a aproximar-se da janela de Cottard. 
Freios gemeram na rua, por detrs do doutor.
          - Esto a - disse o policial.
          Por trs deles, apareceram policiais, trazendo cordas, uma escada e dois embrulhos oblongos, envolvidos em oleado. Dirigiram-se para uma rua que contornava 
o bloco de casas em frente ao prdio de Grand. Um momento depois, adivinhou-se mais do que se viu uma certa agitao s portas dessas casas. Depois, esperou-se. 
O co j no se mexia, mas estava agora cado numa poa escura.
          De repente, das janelas das casas ocupadas pelos policiais saiu uma rajada de metralhadora. A persiana visada desfez-se literalmente e deixou a descoberto 
uma superfcie negra, onde Rieux e Grand, do seu lugar, nada podiam distinguir. Quando a rajada parou, uma segunda metralhadora crepitou, de outra esquina, de uma 
casa mais adiante. As balas entravam, sem dvida, no quadrado da janela, j que uma delas fez saltar um estilhao de tijolo. No mesmo segundo, trs policiais atravessaram 
a rua correndo e mergulharam pela porta de entrada. Quase imediatamente, precipitaram-se para l mais trs, e o fogo da metralhadora parou. Mais uma espera. Duas 
detonaes longnquas ressoaram no prdio. Depois, ouviu-se um rumor, e viu-se sair da casa, mais carregado do que arrastado, um homenzinho em mangas de camisa, 
que gritava sem parar. Como por milagre, todas as persianas fechadas da rua se abriram e as janelas guarneceram-se de curiosos, enquanto uma multido de pessoas 
saa das casas e se comprimia por detrs das barreiras. Por um momento, viu-se o homenzinho no meio da rua, com os ps finalmente no solo, os braos seguros atrs 
das costas pelos policiais. Gritava. Um policial aproximou-se dele e deu-lhe dois murros, com toda a fora dos seus punhos, lentamente, com uma espcie de calma 
aplicao.
          -  Cottard - balbuciava Grand. - Enlouqueceu. Cottard tinha cado. Viu-se, ainda, o policial chutar corn toda a fora o monte que jazia por terra. Depois, 
um grupo confuso agitou-se e dirigiu-se para o mdico e seu velho amigo.
          - Todos andando - disse o policial.
          Rieux desviou os olhos quando o grupo passou diante dele.
          Grand e o mdico partiram no crepsculo, que terminava. Como se o acontecimento tivesse sacudido o torpor em que o bairro adormecera, essas ruas afastadas 
enchiam-se de novo com o zumbido de uma multido em festa. Junto  casa, Grand despediu-se do doutor. Ia trabalhar. Mas no momento de subir disse-lhe que tinha escrito 
a Jeanne e que, agora, sentia-se feliz. E depois tinha recomeado sua frase. "Eliminei todos os adjetivos", disse.
          E, com um sorriso malicioso, tirou o chapu numa saudao cerimoniosa. Mas Rieux pensava em Cottard e no barulho surdo dos punhos que esmagavam seu rosto, 
que o perseguia enquanto se dirigia  casa do velho asmtico. Talvez fosse mais duro pensar num homem culpado que num homem morto.
          Quando Rieux chegou  casa de seu velho doente, a noite j devorava todo o cu. Do quarto, podia-se ouvir o rumor longnquo da liberdade, enquanto o velho 
continuava imperturbvel, a despejar seus gros-de-bico.
          - Eles tm razo em divertir-se.  preciso de tudo nesre mundo. E seu colega, doutor, que houve com ele?
          Chegavam at eles detonaes, mas eram pacficas: crianas que soltavam suas bombas.
          - Morreu - disse o doutor, auscultando o peito resfolegante.
          - Ah! - exclamou o velho, um pouco perplexo.
          - Peste - acrescentou Rieux.
          -  verdade - reconheceu o velho, um instante depois -, so os melhores que partem.  a vida. Mas era um homem que sabia o que queria.
          - Por que diz isso? - perguntou o mdico, arrumando o estetoscpio.
          - Por nada. Nunca falava para no dizer nada. Enfim, ele me agradava. Mas  assim. Os outros dizem: " a peste, tivemos peste". Por pouco, pediriam que 
os condecorassem. Mas que quer dizer isso, a peste?  a vida, nada mais.
          - Faa suas inalaes regularmente.
          - Oh! No tenha medo. Ainda vou viver muito tempo e v-los morrer todos. Eu sei viver.
          Uivos de alegria responderam-lhe ao longe. O mdico parou no meio do quarto.
          - No se importa que eu v at o terrao?
          - Claro que no. Quer v-los l de cima, hem?  vontade. Mas so sempre os mesmos.
          Rieux dirigiu-se para a escada.
          - Diga-me, doutor,  verdade que vo construir um monumento s vtimas da peste?
          - O jornal assim o diz. Uma coluna ou uma lpide.
          
          - Tinha certeza. E haver discursos. O velho ria com um riso estrangulado.
          - Parece que consigo ouvi-los daqui: "Nossos mortos. . ." E depois vo encher a barriga.
          Rieux j subia a escada. O grande cu frio cintilava por cima das casas e, perto das colinas, as estrelas endureciam como slex. Esta noite no era to 
diferente daquela em que Tarrou e ele tinham vindo a esse mesmo terrao para esquecer a peste. Mas hoje, o mar estava mais barulhento que ento junto s falsias. 
O ar estava imvel e leve, aliviado pelos sopros salgados que o vento morno do outono trazia. O rumor da cidade, contudo, continuava a chegar aos terraos com um 
marulho de vaga. Mas essa noite era a da libertao e no a da revolta. Ao longe, uma mancha vermelha, escura, indicava a localizao das avenidas e das praas iluminadas. 
Na noite agora libertada, o desejo no conhecia barreiras e era seu rumor que chegava at Rieux.
          Do morro escuro, subiram os primeiros foguetes dos festejos oficiais. A cidade saudou-os com uma longa e surda exclamao. Cottard, Tarrou, aqueles e aquela 
que Rieux tinha amado e perdido, todos, mortos ou culpados, estavam esquecidos. O velho tinha razo, os homens eram sempre os mesmos. Mas essa era sua fora e sua 
inocncia, e era aqui que Rieux, acima de toda dor, sentia que se juntava a eles. Em meio aos gritos que redobravam de fora e de durao, que repercutiam longamente 
junto do terrao,  medida que as chuvas multicores se elevavam mais numerosas no cu, o Dr. Rieux decidiu, ento, redigir esta narrativa, que termina aqui, para 
no ser daqueles que se calam, para depor a favor dessas vtimas da peste, para deixar ao menos uma lembrana da injustia e da violncia que lhes tinham sido feitas 
e para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que h nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar.
          Mas, no entanto, sabia que esta crnica no podia ser a da vitria definitiva. Podia, apenas, ser o testemunho do que tinha sido necessrio realizar e 
que, sem dvida, deveriam realizar ainda, contra o terror e sua arma infatigvel, a despeito das feridas pessoais, todos os homens que, no podendo ser santos e 
recusando-se a admitir os flagelos, se esforam no entanto por ser mdicos.
          Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaada. Porque ele sabia o que essa 
multido eufrica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste no morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos mveis e na roupa, 
espera pacientemente nos quartos, nos pores, nos bas, nos lenos e na papelada. E sabia, tambm, que viria talvez o dia em que, para desgraa e ensinamento dos 
homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
         O AUTOR E SUA OBRA
          
          Quando o prmio Nobel de Literatura de 1957 foi concedido ao escritor francs Albert Camus, ele j era considerado um dos autores mais significativos e 
representativos de seu tempo. Isso apesar da pouca idade. Camus recebeu o prmio aos quarenta e quatro anos, e, depois do poeta ingls Rudyard Kipling - que o conquistou 
aos quarenta e dois anos -, era o mais jovem detentor do Nobel de literatura.
          Mas a idade pouco tinha a ver com a importncia que Camus assumira gradativamente no panorama da cultura francesa. Como j acontecera outras vezes, o prmio 
no foi concedido exclusivamente ao romancista, mas tambm ao pensador, ao homem preocupado com as angstias do sculo, o absurdo e o desespero que determinam o 
ato de existir, e decididamente envolvido na luta diria que tornava possvel a esperana.
          Esperana que ele exerceu, com maior ou menor intensidade, por quarenta e sete anos, quando a morte o surpreendeu, a cem quilmetros de Paris. Uma cmara 
de ar estourada e o choque contra uma rvore. Muitos se lembraram do que Camus pensava sobre a existncia do homem e seu destino no universo, sem um sentido, tendo 
apenas o absurdo para explic-la. A frana ficou de luto pelo desaparecimento de uma de suas conscincias mais honestas, como destacou Andr Malraux, tambm escritor 
e ento ministro da Cultura: "H mais de vinte anos a obra de Albert Camus era inseparvel da obsesso da justia".
          H mais de vinte anos. . . Nascido em 1913, em Mondovi, departamento de Constantine, na Arglia, territrio francs que lutava por sua independncia, filho 
de um operrio, Camus teve uma infncia difcil, entre duas culturas que seriam sempre cada vez mais antagnicas. Sua formao  francesa, seu compromisso  com 
os homens: "Sou, antes de tudo, solidrio do homem comum. Amanh o mundo poder romper-se em pedaos. H uma lio de verdade nessa ameaa que paira sobre nossas 
cabeas".
          Mecnico, professor primrio, empregado no comrcio, Camus publicaria seu primeiro livro em 1937, e no ano seguinte ingressaria no jornalismo, duas grandes 
paixes. Atuando em Paris, abandonou o jornal em que trabalhava por uma cama maior, a resistncia  barbrie que ocupava parte da Frana. Participante ativo da luta 
contra os alemes, no desdenhava de sua obra literria. A "Envers et endroit", "Npcias" e "O vero" - os dois ltimos publicados pelo Crculo do Livro - seguiam-se 
"O estrangeiro" tambm publicado pelo Crculo - e "O mito de Ssifo", alm das peas "L malentendu" e "Calgula". O jovem escritor expunha com uma lucidez dolorosa 
a precariedade da condio humana, ainda que em "O mito de Ssifo" propusesse: " preciso imaginar Ssifo feliz".
          Depois da libertao, com apenas trinta anos, ele se tornou o jornalista mais lido da Frana. Nas pginas do jornal "Combat", lutava para que no fossem 
esquecidas as lies da guerra, a indiferena. As lies foram esquecidas, Camus abandonou o jornalismo. "A peste" data dessa poca, 
          1947, e reporta-se  experincia que ele desejava presente na conscincia dos franceses. Uma epidemia assola uma cidade, como a ocupao nazista assolara 
a Frana. A epidemia cessa - a ocupao termina -, e a apatia que cercava a vontade humana diante do elemento estranho volta a imperar. O livro foi um grande sucesso 
de livraria e se tornou uma obra clssica.
          Porm, "A peste" seria tambm um passo decisivo no rompimento com o existencialista Jean-Paul Sartre, de quem Camus se aproximara. Como seria "O homem 
revoltado". Ele preconizava a revolta individual e libertria, enquanto Sartre colocava o existencialismo a servio do marxismo, Camus estava s e preparava as ltimas 
obras: "L Minotaure ou La malte d'Oran" (1954), "O exlio e o reino" e "A queda" (1956), esta ltima tambm publicada pelo Crculo. A lio para o futuro permanece 
aquela que proferiu no Brasil, em 1949, numa frase:
          "No poderemos ficar alheios e distrados. Nem o momento comporta atitudes de indiferena. No durmamos, pois, que a paz ser uma realidade, ela que, agora, 
no passa de uma promessa".
1 Neologismo que designa os entusiastas de jogo muito popular na frana. (N. do T.)
2Nome das associaes formadas por membros do ensino, etc. (N. do T.)

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